
Gente, eu vi.
Vi as fotografias.
Mas, juro, preferia não ter visto.
Estou falando das imagens que marcaram este que é, sem dúvida, um dos episódios mais curiosos e impactantes da atual disputa pelo Governo do Piauí: a aproximação da família Mão Santa com a candidatura de reeleição do governador Rafael Fonteles.
E antes que alguém entenda errado: não há absolutamente nada de errado em Mão Santa apoiar Rafael Fonteles.
Nada.
Mão Santa é livre. Pode apoiar Rafael. Pode apoiar Gracinha. Pode apoiar Marcelo Castro. Pode apoiar Júlio César. Pode apoiar Lourdes Melo. Pode, inclusive, não apoiar ninguém.
É da democracia.
E, se Mão Santa mudou de opinião sobre o PT, também não há pecado algum nisso.
Aliás, existe uma frase de um dos maiores políticos da história do Piauí que cabe como uma luva neste episódio.
Petrônio Portella dizia:
“Só não muda quem se demite do direito de pensar.”
A frase não é apenas bonita. Ela tem significado político profundo. Portella defendia a ideia de que mudar de posição não representa necessariamente incoerência. Pode ser justamente consequência da reflexão, da experiência e do pensamento.
Portanto, Mão Santa tem todo o direito de mudar de opinião.
Desde que tenha mudado.
E é exatamente aí que começa a minha inquietação.
Porque Mão Santa passou boa parte de sua vida pública fazendo oposição ao PT. E não foi uma oposição de meio expediente, daquelas em que o sujeito critica de manhã, negocia ao meio-dia e tira fotografia à tarde.
Não.
Mão Santa era Mão Santa.
Era discurso.
Era tribuna.
Era frase.
Era provocação.
Era PT para cá, PT para lá.
No Senado Federal, deixou registrada mais de uma vez a famosa frase: “Há três coisas que só fazemos uma vez na vida: nascer, morrer e votar no PT.” O próprio Senado registra pronunciamentos em que Mão Santa repetiu a declaração.
Em 2010, por exemplo, ele chegou a dizer que votara no PT em 1994 e que se arrependia.
Agora, muitos anos depois, Rafael Fonteles entra na casa de Mão Santa.
Gracinha anuncia apoio ao governador.
Rafael comemora.
Fotografias são feitas.
Sorrisos aparecem.
A aliança é apresentada.
E Mão Santa está lá.
É aí que entra a fotografia.
Porque fotografia tem dessas coisas.
Às vezes, ela registra muito mais do que aquilo que alguém pretendia registrar.
Olhei.
Depois olhei novamente.
E olhei uma terceira vez.
E fiquei com aquela sensação incômoda de que havia alguma coisa fora do lugar.
Não estou dizendo que Mão Santa estava triste.
Não estou dizendo que estava angustiado.
Não estou dizendo que estava constrangido.
Não estou dizendo que estava arrependido.
Muito menos que estivesse física ou emocionalmente mal.
Não tenho como saber.
Só Mão Santa pode dizer o que sentiu naquele momento.
Estou falando de outra coisa.
Estou falando da sensação que as imagens provocam em quem as observa.
Rafael aparece celebrando a aproximação.
Gracinha aparece celebrando a nova etapa política.
As demais lideranças entram no clima.
E Mão Santa...
Bom...
Mão Santa está lá.
E justamente por conhecermos o personagem político, a cena causa estranheza.
Talvez seja apenas uma fotografia ruim.
Talvez o fotógrafo tenha escolhido exatamente o milésimo de segundo menos favorável.
Talvez Mão Santa estivesse simplesmente cansado.
Talvez estivesse pensando em outra coisa.
Talvez estivesse perfeitamente feliz.
Talvez tenha mudado de opinião há muito tempo e nós é que ainda não percebemos.
Tudo isso é possível.
E existe ainda uma possibilidade muito mais simples: Mão Santa pode ter decidido que a política mudou, os tempos mudaram e ele mudou junto.
Se for isso, tudo certo.
Petrônio Portella já explicou há muito tempo que só não muda quem se demite do direito de pensar.
Mas então falta uma coisa.
Falta Mão Santa falar.
Porque Rafael falou.
Gracinha falou.
Rafael chamou a aproximação de parceria administrativa transformada em aliança política. Gracinha explicou que houve conversas, divergências, reflexões e que passou a considerar o governador “um homem de palavra”.
E Mão Santa?
Até onde está publicamente documentado nas declarações reproduzidas sobre o encontro, a explicação detalhada da mudança não veio dele.
E isso é curioso.
Muito curioso.
Porque estamos falando do homem que construiu uma carreira política inteira falando.
Falando muito.
Falando alto.
Falando de tudo.
E agora, justamente quando uma das imagens politicamente mais improváveis de sua trajetória é produzida, ele aparece na fotografia e deixa que os outros contem a história.
Pode ser apenas coincidência.
Mas é uma coincidência que produz uma fotografia politicamente extraordinária.
Porque há uma diferença entre mudar de opinião e explicar por que mudou de opinião.
A primeira coisa é um direito.
A segunda é, sobretudo para alguém com a história política de Mão Santa, uma questão de coerência com a própria trajetória.
Não seria necessário pedir desculpas.
Não seria necessário renegar o passado.
Não seria necessário fingir que nunca disse o que disse.
Bastaria explicar.
“Eu pensava assim. Hoje penso assado. Mudei por isso, isso e isso.”
Pronto.
Acabou o mistério.
Afinal, política é movimento.
Aliados de ontem podem virar adversários. Adversários de ontem podem virar aliados. O próprio episódio atual mostra isso.
E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo.
Talvez Mão Santa tenha simplesmente mudado.
E se mudou, viva a democracia.
Só que eu continuo olhando para aquelas fotografias.
E aquela velha frase volta à cabeça.
“Três coisas que só se faz uma vez na vida...”
Pois é.
Talvez Mão Santa tenha descoberto uma quarta: mudar de opinião sobre a terceira.
E isso, convenhamos, seria perfeitamente permitido por Petrônio Portella.
O que ainda não sabemos é se Mão Santa mudou de ideia ou se simplesmente a política ao redor dele mudou.
Essa resposta não está na fotografia.
Não está no sorriso de Rafael.
Não está na fala de Gracinha.
Não está no release.
Está na cabeça de Mão Santa.
E somente ele pode tirá-la de lá.
Por isso, termino como comecei:
Gente, eu vi as fotos.
Juro.
Mas preferia não ter visto.
Não porque Mão Santa não tenha o direito de apoiar Rafael.
Ele tem.
Tem todo o direito.
Mas porque, como admirador de sua trajetória política, eu preferiria muito mais ouvir o velho Mão Santa explicar, com aquela sinceridade que sempre foi sua marca, o que aconteceu no caminho entre o “votar no PT” e o posar ao lado do PT.
Aí sim.
Eu dormiria tranquilo.
E, quem sabe, até parasse de olhar aquelas fotografias pela quarta vez.
Porque, do jeito que está, há alguma coisa que parece não estar certa.
Ou, como diria o próprio Mão Santa em seus tempos de tribuna:
Atentai bem!
Talvez a explicação seja absolutamente simples.
Só falta alguém contar.
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