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Iracema Santos Rocha: a mulher que enfrentou a ditadura, rompeu barreiras e fez da palavra e do Direito um instrumento de luta

Advogada, procuradora do Estado, professora, jornalista e pioneira na política piauiense, Iracema construiu uma trajetória marcada pela defesa das mulheres, das liberdades democráticas e do direito de ocupar espaços historicamente reservados aos homens

08/11/2026 às 00h03
Por: Douglas Ferreira
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Iracema dos Santos Rocha foi uma mulher acima do seu tempo - Foto: Reprodução
Iracema dos Santos Rocha foi uma mulher acima do seu tempo - Foto: Reprodução

Iracema dos Santos Rocha da Silva foi uma mulher que não aceitou os limites impostos pelo seu tempo. Advogada, procuradora do Estado, professora, filósofa, jornalista e militante política, nasceu em Floriano, em 1927, e construiu uma trajetória que atravessou gerações. Morreu em Teresina, em 26 de outubro de 2026, aos 99 anos, deixando uma história que merece lugar permanente na memória jurídica e social do Piauí.

Sua biografia chama atenção não apenas pela quantidade de atividades que exerceu, mas pela disposição de enfrentar obstáculos em diferentes ambientes. Em uma época na qual a presença feminina nos espaços de decisão ainda era limitada, Iracema estudou, ensinou, escreveu, disputou eleições, advogou e ocupou posições de liderança. Não esperou que as portas fossem abertas. Foi ao encontro delas.

A formação intelectual começou pelo magistério. Aos 19 anos, já estava preparada para lecionar. Mais tarde, estudou Filosofia e Didática e construiu carreira na educação, chegando a exercer a docência como professora catedrática da Escola Normal Antonino Freire e do Liceu Piauiense. Também lecionou na Universidade Federal do Piauí e exerceu o cargo de secretária municipal de Educação durante a administração do prefeito João Mendes Olímpio de Melo. O Direito, entretanto, continuava sendo seu grande sonho.

Iracema conseguiu concluir o curso de Direito em 1953, depois de enfrentar as pressões sociais e familiares que dificultavam a realização de seu projeto profissional. A conquista teve um significado especial: ela não estava apenas obtendo um diploma, mas afirmando o direito de escolher o próprio destino. A advocacia tornou-se sua grande paixão. Em entrevista, explicou que queria defender direitos, argumentar e enfrentar conflitos. Não desejava apenas decidir como juíza. Queria estar na linha de frente das causas.

Sua atuação alcançou também a advocacia pública. Como procuradora do Estado, participou da construção institucional da categoria e conquistou um marco histórico ao se tornar a primeira mulher a presidir a Associação Piauiense dos Procuradores do Estado (APPE). Exerceu a presidência entre 24 de outubro de 1983 e 25 de abril de 1986. Foi uma conquista que ultrapassou o significado de um cargo: representou a presença feminina em um espaço de representação profissional até então conduzido por homens.

A relação de Iracema com o Direito era tão intensa que, em 1984, foi aprovada em primeiro lugar em um concurso para a magistratura. Chegou a ser convocada para assumir, mas a lotação determinada foi na comarca de Corrente. Diante da necessidade de permanecer em Teresina para acompanhar a educação de um filho ainda criança, decidiu não assumir. Em uma entrevista, explicou que sua vocação estava mesmo na advocacia: queria defender direitos, atuar nas disputas e lutar pelas pessoas.

Mas Iracema não se limitou aos tribunais, aos escritórios ou às repartições públicas. Sua inquietação também a levou à política. Em 1962, pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), tornou-se a primeira mulher a disputar a Prefeitura de Teresina. Terminou a eleição em segundo lugar, um resultado expressivo para uma candidatura feminina naquele contexto histórico. Sua participação demonstrou que a luta pela presença das mulheres na vida pública não era apenas um discurso: ela estava disposta a disputar o poder.

A atuação política de Iracema estava ligada às ideias trabalhistas, nacionalistas e às chamadas Reformas de Base. Participou de movimentos e organizações que defendiam mudanças sociais, direitos dos trabalhadores e maior participação popular. Também integrou a Liga Feminina Trabalhista. Sua defesa dos direitos das mulheres não era uma pauta isolada, mas parte de uma compreensão mais ampla sobre cidadania, igualdade e liberdade. Em seus textos e manifestações públicas, abordava questões políticas e sociais, com atenção especial à condição feminina.

Foi justamente essa atuação que a colocou em rota de colisão com o ambiente político que se instalou após o golpe de 1964. Iracema se posicionou publicamente em defesa da legalidade constitucional e utilizou o rádio para expressar suas convicções. Na noite de 1º de abril daquele ano, participou da abertura de um programa chamado A Tribuna Nacionalista, transmitido pela Rádio Pioneira. Sua manifestação em defesa da Constituição, da ordem democrática e das liberdades passou a ser tratada pelas autoridades militares como motivo de suspeita política.

Na véspera do Dia das Mães de 1964, Iracema foi presa e levada ao 25º Batalhão de Caçadores, em Teresina. Passou nove dias detida, submetida a interrogatórios, inclusive durante a madrugada, sob suspeitas de comunismo e subversão. A perseguição atingiu diretamente sua vida profissional. Perdeu postos de trabalho conquistados por concurso, foi afastada de atividades docentes e passou a ser monitorada pelos órgãos de repressão. Não foi apenas uma prisão: foi uma tentativa de silenciar uma mulher que havia decidido falar em um momento no qual o país começava a fechar suas portas à liberdade.

A reparação veio muito tempo depois. Em 2015, Iracema recebeu reconhecimento da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e uma indenização de R$ 150 mil pelos danos decorrentes da perseguição política. Em entrevista concedida naquele período, deixou claro que não considerava a anistia um perdão que precisasse receber. Para ela, a reparação era justa, mas não apagava o sofrimento vivido. E afirmou que, se pudesse voltar à juventude, faria tudo novamente, mesmo sabendo o preço que teria de pagar.

A jornalista também ocupou um espaço importante na imprensa piauiense. Trabalhou em veículos como O Estado, O Dia, Meio Norte e Diário do Povo, além de atuar na comunicação radiofônica. Escreveu a Crônica Feminina, no jornal O Dominical, e ficou especialmente conhecida pela coluna social Agenda Nobre, que marcou época no jornalismo de Teresina. Sua escrita, porém, não se restringia aos acontecimentos sociais. Em crônicas e artigos, abordava temas políticos, históricos, filosóficos e questões relacionadas à condição feminina. Era uma mulher que utilizava a palavra para informar, provocar reflexão e participar do debate público.

Sua trajetória também deixou uma contribuição intelectual que merece ser recuperada. Iracema é identificada em repertórios biográficos como autora de obras sobre o desquite no Brasil, sociologia da educação no Piauí, métodos de ensino da Escola Nova e pensamento político brasileiro na Independência. A diversidade dos temas revela uma profissional que não se acomodou em uma única área do conhecimento. Direito, educação, filosofia, política e comunicação se encontravam em sua trajetória.

A história de Iracema Santos Rocha não pode ser reduzida à prisão de 1964, embora esse episódio seja indispensável para compreender sua coragem e o preço que pagou por suas convicções. Também não deve ser lembrada apenas como a primeira mulher a presidir a APPE ou a primeira candidata à Prefeitura de Teresina. Ela representa uma geração de mulheres que precisou abrir caminhos em ambientes resistentes à presença feminina. Para a advocacia piauiense, fica a memória de uma procuradora e profissional do Direito que ajudou a romper barreiras. Para a educação, a lembrança da professora que formou gerações. Para o jornalismo, a marca de uma colunista que transformou a palavra em espaço de participação. E para as mulheres, o exemplo de alguém que não aceitou viver à sombra das convenções de seu tempo.

Iracema Santos Rocha fez da própria existência uma afirmação de coragem, dignidade e liberdade.

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A NOTÍCIA E O FATO
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Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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