
Terá começado a temporada de caça às bruxas no Brasil? A pergunta pode parecer exagerada, mas os episódios registrados logo depois da eleição presidencial merecem atenção. Menos de 24 horas após a vitória de Lula, uma publicação do PT do Paraná direcionada ao senador eleito Deltan Dallagnol trazia uma mensagem curta, direta e inquietante: “Deltan, você é o próximo”. Próximo de quê? Qual é o recado por trás dessa frase? E quem será o próximo da lista?
Dallagnol reagiu publicamente e classificou a postagem como uma ameaça. A mensagem não explica o que significa “ser o próximo”, mas justamente essa falta de clareza torna o episódio preocupante. Quando um partido político publica uma frase desse tipo contra um adversário, cabe perguntar se estamos diante de uma provocação eleitoral de mau gosto ou de uma tentativa de intimidar alguém que representa uma corrente política contrária ao governo.
E há um detalhe que não pode ser ignorado: Dallagnol foi procurador da República e se tornou uma das figuras mais conhecidas da Operação Lava Jato. Sua trajetória é marcada por controvérsias judiciais, incluindo a cassação de seu mandato de deputado em 2023 e a discussão ainda pendente sobre seu registro eleitoral. Esses fatos devem ser tratados pelas instâncias competentes, com base na lei. Não justificam ameaças, intimidação ou qualquer tentativa de substituir a Justiça pela perseguição política.
Como se não bastasse, também circulou a notícia de que a Polícia Federal teria apreendido o passaporte do senador Flávio Bolsonaro no dia seguinte à eleição. A informação exige esclarecimentos objetivos: qual foi a decisão que determinou a medida? Quem a solicitou? Qual é o fundamento jurídico? Existe uma investigação formal, uma decisão judicial ou alguma restrição legal específica? Sem essas respostas, não é possível concluir se a medida foi legítima ou arbitrária. Mas é perfeitamente razoável cobrar transparência.
A Polícia Federal não pode agir com base em simples presunções, muito menos transformar divergências políticas em justificativa para medidas restritivas. Qualquer apreensão de passaporte precisa ter fundamento legal e obedecer ao devido processo. Se houve pedido de parlamentares do PT, como relatado, isso não prova, por si só, irregularidade. O que importa é saber se a atuação policial foi amparada por razões jurídicas concretas e por decisão da autoridade competente.
O problema está no conjunto dos episódios e no ambiente que eles podem produzir. Uma publicação partidária de tom ameaçador, somada a uma medida policial cercada de dúvidas, alimenta a desconfiança e exige explicações. Em uma democracia, ninguém deve ser tratado como culpado por pertencer à oposição, assim como ninguém pode ser colocado acima da lei por ocupar o governo.
É esse o ponto central: a democracia não pode virar instrumento de revanche eleitoral. A vitória nas urnas não autoriza o vencedor a intimidar adversários, e a derrota não retira dos opositores seus direitos políticos. Investigações devem seguir provas, decisões precisam ser fundamentadas e eventuais punições devem respeitar o devido processo legal.
Se a mensagem do PT do Paraná foi apenas uma provocação, o partido deveria explicar o que quis dizer. Se pretendia intimidar Dallagnol, a gravidade é outra. E, se houver fundamento jurídico para qualquer medida contra Flávio Bolsonaro, que ele seja apresentado com clareza. A lei não deve ser aplicada conforme a conveniência de quem venceu a eleição.
O Brasil precisa ficar atento, não porque seja possível afirmar, a partir desses episódios isolados, que começou uma perseguição generalizada, mas porque sinais de intimidação política não podem ser tratados como brincadeira. A liberdade de expressão, o direito de oposição e a presunção de inocência são pilares democráticos, não concessões do partido que ocupa o poder.
A pergunta continua de pé: Deltan, “o próximo” de quê? E quem será o próximo alvo dessa retórica? Em vez de ameaças vagas e medidas sem explicação pública suficiente, o país precisa de instituições que apresentem fatos, fundamentos e provas. Democracia exige vigilância, sobretudo quando a linguagem da revanche começa a ocupar o lugar do debate político.


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