
O nome do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), passou a circular entre as apostas para o Ministério da Fazenda no quarto governo de Lula. A hipótese, noticiada nos bastidores petistas e também em parte da mídia local e nacional, vai muito além de uma simples troca de cadeiras. Se confirmada, colocaria um governador estadual à frente da economia de um país continental, com inflação, dívida pública, juros elevados, contas pressionadas e a necessidade urgente de recuperar a confiança dos investidores. A pergunta é inevitável: Rafael Fonteles tem experiência e resultados que justifiquem uma missão dessa dimensão?
Formado em Matemática, ex-secretário da Fazenda e atual governador do Piauí, Fonteles reúne experiência na administração pública e trânsito em setores do mercado financeiro. Seus defensores o apresentam como um quadro técnico, com perfil moderado e capacidade de diálogo. São atributos relevantes, mas insuficientes para garantir o comando de uma das pastas mais complexas da República. Ter familiaridade com números não é o mesmo que demonstrar capacidade de conduzir uma economia nacional.
É preciso separar currículo, discurso e resultado. Como secretário da Fazenda e, posteriormente, governador, Fonteles esteve ligado à administração tributária e à condução das contas estaduais. Mas qual é o saldo concreto dessa trajetória? O que sua gestão produziu em matéria de eficiência do gasto, melhoria dos serviços públicos, atração de investimentos e redução da dependência financeira do Estado? Essas são as perguntas que deveriam orientar qualquer avaliação séria de seu nome.
Na visão crítica de sua gestão, o repertório fiscal de Fonteles parece concentrar-se em instrumentos conhecidos de qualquer administrador: aumentar impostos, criar taxas e contratar empréstimos. São medidas que podem elevar receitas ou financiar despesas no curto prazo, mas não representam, por si mesmas, competência extraordinária. Aumentar a arrecadação é muito mais simples do que fazer o Estado funcionar melhor com o dinheiro que já recebe. O verdadeiro teste de um gestor está em controlar gastos, estabelecer prioridades, melhorar a produtividade da máquina pública e entregar resultados sem transferir continuamente a conta para o contribuinte.
Eis o ponto central: se esse é o modelo de gestão que Fonteles levaria para Brasília, o que o governo Lula teria a ganhar? O Ministério da Fazenda não precisa apenas de alguém capaz de arrecadar mais. Precisa de um dirigente que saiba enfrentar o desequilíbrio fiscal, lidar com as expectativas do mercado, construir credibilidade e apresentar uma estratégia sustentável para as contas públicas. O Brasil não é o Piauí ampliado. A escala, a complexidade e as consequências de cada decisão são incomparavelmente maiores.
A eventual indicação também precisa ser examinada à luz das necessidades do próprio governo. Lula terá de administrar uma economia pressionada por despesas, endividamento e desconfiança sobre a trajetória fiscal. Um ministro que se limite a buscar novas receitas poderá até aliviar momentaneamente o caixa, mas dificilmente resolverá os problemas estruturais. O país precisa discutir a qualidade do gasto, o tamanho dos compromissos assumidos pelo Estado e as condições para estimular o investimento privado. Mais impostos não podem ser a resposta automática para toda dificuldade administrativa.
Há, ainda, uma dimensão política nessa possível promoção. A escolha de Fonteles, assim como a eventual chegada de Camilo Santana à Casa Civil, é apontada nos bastidores como parte de uma estratégia para projetar novos nomes do PT nacionalmente, de olho na sucessão presidencial de 2030. Se essa leitura estiver correta, a montagem do ministério não atenderia apenas às necessidades administrativas do país, mas também aos interesses eleitorais do partido. E a economia brasileira não pode virar laboratório de projetos pessoais de poder.
No caso do governador piauiense, porém, existe um obstáculo que não pode ser tratado como mero detalhe burocrático: o mandato que acaba de conquistar. Os eleitores votaram em Rafael Fonteles para governar o Piauí por mais quatro anos. Não votaram para que ele utilizasse o cargo como trampolim para Brasília, tampouco escolheram diretamente o vice-governador Washington Bandeira para comandar o Executivo estadual durante o período restante.
É verdade que a Constituição permite a renúncia e estabelece a sucessão pelo vice-governador. Também é legítimo que um político receba convites para outras funções públicas. Mas a legalidade de uma eventual saída não encerra a discussão política. Se Fonteles deixar o governo para assumir um ministério, terá de explicar aos piauienses por que o compromisso assumido nas urnas foi colocado em segundo plano. O eleitor tem o direito de cobrar coerência entre a campanha e a prática.
A questão ganha peso porque a reeleição não é um mandato simbólico. Ela representa uma escolha por continuidade, baseada nas promessas, nas prioridades e na expectativa de que o governador conduziria o Estado durante todo o período previsto. Uma renúncia motivada por um convite ministerial poderia ser interpretada por parte do eleitorado como quebra de confiança, uma espécie de estelionato político, ainda que não configure, por si só, estelionato em sentido jurídico. O mandato pertence institucionalmente ao cargo, mas a confiança que o sustenta vem dos eleitores.
A alegação de que Washington Bandeira é aliado próximo, pertence ao mesmo partido e conta com a confiança pessoal de Fonteles não resolve essa questão. A sucessão está prevista em lei justamente para garantir continuidade administrativa. Mas amizade, afinidade partidária e confiança pessoal não substituem a relação política estabelecida entre o governador eleito e a população. O Piauí não é propriedade de um grupo, e o governo não pode ser tratado como uma cadeira que se transfere entre amigos.
No fim, a eventual indicação de Rafael Fonteles para a Fazenda precisa responder a duas perguntas distintas. A primeira é técnica: ele possui experiência, resultados e um plano econômico compatíveis com a dimensão do cargo? A segunda é política: vale a pena abandonar um mandato recém-conquistado para integrar um governo federal, especialmente se a movimentação também estiver ligada à construção de uma candidatura presidencial futura? Até agora, a simples circulação de seu nome não responde a nenhuma delas.
O PT tem o direito de organizar seu governo e projetar suas lideranças. Lula pode escolher seus ministros dentro das regras constitucionais. Mas a economia brasileira exige mais do que fidelidade partidária, proximidade com o presidente ou habilidade para administrar a arrecadação. Exige competência demonstrada, responsabilidade fiscal, capacidade de negociação e disposição para enfrentar problemas que não se resolvem com novos tributos e empréstimos.
Rafael Fonteles pode ser um nome politicamente conveniente para Lula. A questão é saber se também seria o nome certo para a Fazenda. E, antes de qualquer promoção nacional, o governador deve explicar aos piauienses por que deveria abandonar o mandato que acabou de conquistar. Afinal, eleição não é procuração em branco, e o voto do cidadão não pode ser tratado como simples degrau na carreira de um político.
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