
Há vitórias eleitorais que se explicam pela força de um projeto político. Outras exigem uma investigação mais profunda das circunstâncias que conduziram ao resultado. Em “O triunfo da malandragem”, publicado na Revista Oeste, Augusto Nunes propõe uma leitura contundente da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Para o colunista, o resultado de 25 de outubro de 2026 não pode ser compreendido apenas pela contagem dos votos. É preciso examinar a campanha, as estratégias políticas, a atuação das instituições e os episódios excepcionais que marcaram a disputa.
O título não é casual. Ao recorrer à palavra “malandragem”, Nunes apresenta sua interpretação de uma campanha que, em sua visão, combinou promessas populistas, exploração política dos programas sociais, apoio de setores da imprensa, atuação da máquina federal e decisões institucionais que favoreceram o ambiente político do candidato petista. O argumento é duro e deliberadamente provocativo: Lula teria feito muito mais do que disputar votos. Teria mobilizado um conjunto de recursos políticos e narrativos para assegurar mais quatro anos no poder.
O episódio que melhor sintetiza essa interpretação, porém, ocorreu quando a votação deveria estar encerrada.
Cristiano Zanin ocupa lugar central na análise de Augusto Nunes. Antes de chegar ao Supremo Tribunal Federal, foi advogado de Lula em processos judiciais. Depois, indicado pelo próprio presidente, passou a integrar a Corte. No segundo turno de 2026, tomou uma decisão de alcance nacional que alterou o horário de encerramento da votação.
Às 17h01, quando o prazo previsto já havia terminado, Zanin determinou a prorrogação por duas horas, até as 19h. A decisão foi tomada em resposta a uma ação da campanha petista, que alegava dificuldades de transporte de eleitores em diferentes localidades. Posteriormente, o ministro esclareceu que a extensão só poderia ser aplicada às seções cujas urnas ainda permaneciam abertas, pois aquelas já lacradas não poderiam ser reabertas.
Para Augusto Nunes, a sequência dos acontecimentos é emblemática. O advogado que defendeu Lula, depois indicado pelo presidente para o Supremo, foi o responsável por uma intervenção inédita na votação nacional. A coincidência entre trajetória profissional, vínculo político anterior e decisão judicial de enorme repercussão alimenta o questionamento sobre a aparência de imparcialidade que deve acompanhar a atuação de um ministro da mais alta Corte do país.
Não se trata apenas de discutir o currículo de Zanin. Trata-se de perguntar por que uma mudança tão extraordinária foi determinada naquele momento, quais alternativas foram consideradas e quais foram as consequências práticas da decisão. A fundamentação jurídica e os efeitos da medida precisam ser examinados com rigor precisamente porque o ministro tinha uma relação profissional anterior com o candidato beneficiado politicamente pelo episódio.
A crítica de Nunes atinge seu ponto mais sensível quando sugere que Zanin não rompeu, aos olhos do colunista, com a condição de advogado de Lula ao assumir a toga. Essa é uma avaliação política severa, não uma constatação automática de parcialidade jurídica. Mas traduz o núcleo da controvérsia: a confiança pública depende não apenas da legalidade das decisões, mas também da percepção de independência de quem as toma.
Durante décadas, os prazos da Justiça Eleitoral foram tratados como uma das poucas certezas institucionais do Brasil. A organização das eleições, a definição dos horários e o cumprimento do calendário alimentaram uma reputação de previsibilidade que atravessava governos e disputas partidárias.
A prorrogação de 2026 rompeu com essa expectativa. A decisão chegou depois das 17h e, em seguida, precisou ser delimitada para não alcançar as seções cujas urnas já haviam sido lacradas. O resultado foi uma operação extraordinária, executada em pleno dia eleitoral, quando milhares de procedimentos já estavam em andamento ou haviam sido concluídos.
A justificativa envolvia problemas no transporte público. Mas a pergunta permanece: se havia dificuldades em determinados municípios, por que a solução adotada foi uma prorrogação nacional? Se a medida deveria garantir igualdade de condições, como foi possível assegurar tratamento uniforme quando algumas seções já estavam fechadas e outras continuavam abertas?
Essas perguntas não são detalhes burocráticos. Em uma eleição extremamente polarizada, decisões excepcionais precisam ser acompanhadas de fundamentação clara, critérios objetivos e explicações que permitam ao eleitor compreender o que aconteceu.
A controvérsia ganha dimensão adicional porque a mudança foi determinada por um ministro do STF, e não apresentada como parte de um planejamento eleitoral prévio. Para os críticos, o episódio representa uma interferência institucional cuja oportunidade e eficácia merecem escrutínio rigoroso.
O problema alegado pela campanha petista era concreto: eleitores enfrentaram dificuldades para chegar aos locais de votação em diferentes cidades, em meio a relatos de redução da frota de ônibus e problemas de deslocamento.
Mas a decisão judicial não poderia, por si só, corrigir as causas dessas dificuldades. Não faria chover menos, não colocaria veículos nas ruas e não recuperaria o tempo perdido por quem não conseguiu chegar à seção antes do encerramento original.
Teresina oferece um exemplo particularmente eloquente. Há anos, a capital piauiense convive com um sistema de transporte coletivo marcado por veículos envelhecidos, quebras, insuficiência de frota e dificuldades para atender à população. Diferentes administrações municipais tentaram enfrentar o problema sem conseguir resolvê-lo de maneira satisfatória.
Uma decisão tomada no domingo da eleição não teria condições de corrigir esse quadro estrutural. A pergunta relevante, portanto, é se a prorrogação efetivamente permitiu que mais eleitores votassem e se os benefícios alcançaram os locais em que as dificuldades haviam sido relatadas.
Em Teresina, houve relatos de eleitores que chegaram depois das 17h e não conseguiram votar. A limitação posterior da decisão às urnas ainda abertas torna indispensável esclarecer quantas seções permaneceram funcionando, quantos votos adicionais foram recebidos e quantos eleitores continuaram sem conseguir exercer o direito de voto.
Sem esses dados, não é possível medir com precisão o resultado da medida. É justamente essa ausência de clareza que torna a cobrança por transparência tão importante.
Outro eixo da análise de Augusto Nunes é a mudança de posição entre os dois turnos. No primeiro, Flávio Bolsonaro terminou à frente. No segundo, Lula reverteu o resultado e foi declarado vencedor.
A votação oficial divulgada para o segundo turno registrou mais de 64 milhões de votos para Lula, contra quase 60 milhões para Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, Lula havia obtido menos de 54 milhões, enquanto Flávio ultrapassara 56 milhões.
Nunes considera extraordinária a expansão da votação petista em apenas três semanas. O colunista chama atenção também para a redução da abstenção entre os turnos e interpreta a combinação desses fatores como parte de um conjunto de circunstâncias que merecem exame.
O argumento está relacionado à tese central do artigo: a vitória não deveria ser analisada de maneira isolada, como se o resultado numérico encerrasse todas as discussões sobre a campanha. A mudança de votos, a mobilização de eleitores, a atuação dos partidos e as decisões institucionais formam um contexto que precisa ser compreendido em conjunto.
A variação entre os turnos, por si só, não demonstra irregularidade. Mas, na leitura de Nunes, a dimensão da virada reforça a necessidade de examinar o cenário político e institucional em que ela ocorreu, especialmente diante da controvérsia sobre a prorrogação da votação.
Augusto Nunes dedica parte importante de seu texto à utilização política dos programas sociais. Na interpretação do colunista, o Bolsa Família e outras iniciativas de transferência de renda foram incorporados à estratégia eleitoral de Lula como instrumentos de fidelização de eleitores.
A crítica vai além da existência dos benefícios. O ponto central é o que Nunes considera uma transformação de políticas públicas em mecanismos de dependência política, acompanhada de promessas de novos gastos e medidas de forte apelo popular.
Essa leitura também alcança a máquina federal. O candidato à reeleição dispõe naturalmente de visibilidade e de uma estrutura governamental que não está disponível nas mesmas condições ao adversário. A questão política levantada por Nunes é se essa vantagem institucional foi ampliada por decisões, anúncios e iniciativas que favoreceram a candidatura de Lula durante a campanha.
O colunista também critica a cobertura da imprensa, que considera excessivamente favorável ao petista, e os institutos de pesquisa, que, em sua avaliação, se tornaram instrumentos de influência sobre a percepção do eleitorado. Ao reunir esses elementos, Nunes constrói a imagem de uma candidatura apoiada por uma rede de interesses políticos, recursos governamentais e narrativas públicas.
É uma interpretação crítica do ambiente eleitoral. Sua análise exige que a atuação de cada instituição seja examinada a partir de episódios concretos, mas seu argumento principal é claro: o resultado das urnas não deve ser separado das condições em que a disputa foi conduzida.
Nunes também recorre a declarações de Lula durante a campanha para sustentar sua crítica ao presidente. O colunista aponta falas que considera contraditórias, promessas que julga fantasiosas e episódios nos quais, em sua avaliação, o discurso presidencial se afastou dos fatos.
Esse conjunto tem uma função no argumento: questionar a imagem de Lula como candidato capaz de representar estabilidade, experiência e compromisso social. Nunes procura mostrar o contraste entre a narrativa construída pela campanha e a figura política que ele identifica nas declarações públicas do presidente.
O estilo do colunista é deliberadamente contundente. Em vez de tratar cada fala como um episódio isolado, ele as incorpora a uma interpretação mais ampla sobre a trajetória política de Lula, sua relação com a verdade, suas alianças e sua disposição para vencer disputas.
É nessa combinação de crítica histórica e análise eleitoral que o título “O triunfo da malandragem” ganha significado. Para Nunes, o que está em questão não é apenas a vitória de um candidato, mas a consolidação de um método político que ele considera baseado na conveniência, na exploração de vulnerabilidades e na capacidade de moldar narrativas em benefício próprio.
A decisão de Zanin não pode ser examinada fora do contexto mais amplo da relação entre o STF e a política brasileira. Nos últimos anos, o Supremo passou a ocupar uma posição central em controvérsias que ultrapassam a interpretação estritamente jurídica e alcançam o debate sobre os limites da atuação judicial.
Na leitura de Nunes, a prorrogação da votação representa um episódio especialmente simbólico porque ocorreu no momento mais sensível do processo eleitoral. O ministro que havia defendido Lula nos tribunais tomou uma decisão nacional, a pedido da campanha petista, capaz de alterar os procedimentos de encerramento da votação.
A sucessão dos fatos criou uma controvérsia que não pode ser resolvida apenas com a afirmação de que a medida buscava garantir o direito de voto. É necessário explicar por que a solução nacional foi considerada necessária, como foi implementada e quais foram seus efeitos concretos.
A confiança na Justiça Eleitoral depende de mais do que a divulgação de um resultado oficial. Depende de procedimentos compreensíveis, decisões fundamentadas e condições para que a sociedade acompanhe o processo com segurança. Quanto maior a excepcionalidade de uma medida, maior deve ser o compromisso com a transparência.
Depois da divulgação do resultado, Flávio Bolsonaro questionou a eleição e anunciou que buscaria contestá-la. Esse posicionamento integra o cenário de tensão política descrito por Nunes, mas o resultado oficial permanece distinto das alegações feitas por candidatos e partidos.
O ponto decisivo é que o questionamento político não substitui a demonstração jurídica de irregularidades. Uma contestação precisa apresentar elementos verificáveis, identificar os fatos que pretende impugnar e demonstrar sua relevância para o processo eleitoral.
Isso não elimina a necessidade de esclarecer as circunstâncias excepcionais da votação. Ao contrário: torna ainda mais importante que a Justiça Eleitoral apresente informações completas sobre a prorrogação, os locais alcançados, os procedimentos de encerramento e a totalização dos votos.
A resposta institucional deve ser documental e objetiva. Se houve falhas, elas precisam ser identificadas. Se a medida foi aplicada corretamente, é necessário demonstrar como isso ocorreu. A confiança pública não se constrói com exigências de aceitação automática, mas com transparência verificável.
A força do artigo de Augusto Nunes está em sua tentativa de conectar episódios que, analisados separadamente, poderiam parecer desconectados: a atuação de Zanin, a prorrogação do horário de votação, a expansão dos votos de Lula, a queda da abstenção, o uso político dos programas sociais, a máquina federal e o papel da imprensa.
Para o colunista, esses elementos compõem um quadro que ultrapassa a simples alternância de preferências entre dois turnos. Sua tese é que a vitória de Lula deve ser examinada à luz de um ambiente político no qual estratégias de campanha e decisões institucionais se combinaram de maneira controversa.
O episódio de Zanin permanece no centro dessa interpretação. A trajetória do ministro, seu vínculo profissional anterior com Lula e a decisão tomada às 17h01, quando o encerramento da votação já estava previsto, formam uma sequência que exige explicações proporcionais à sua excepcionalidade.
Não é necessário transformar suspeitas em certezas para reconhecer a gravidade política de uma controvérsia dessa dimensão. É preciso cobrar documentos, dados, fundamentação e transparência. E é necessário que as instituições compreendam que a confiança pública não se preserva por decreto.
A eleição terminou, mas as perguntas sobre as circunstâncias que a cercaram permanecem. O resultado oficial estabelece quem venceu a disputa. Não encerra, por si só, o debate sobre a qualidade das decisões institucionais tomadas durante o processo.
É essa a provocação que Augusto Nunes lança em “O triunfo da malandragem”: olhar além dos números, examinar o caminho percorrido até a vitória e cobrar explicações sobre os episódios que marcaram a eleição. Em uma democracia, o resultado das urnas é fundamental. A transparência do processo que o produz também é.
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