
Por Rodrigo Toniol – Professor de Antropologia da UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro. Artigo publicado na Folha de São Paulo - Beatificação de vencedor do Emmy revela a aposta digital da Igreja Católica
De Fulton Sheen aos missionários digitais, Leão 14 atualiza uma velha estratégia católica de ocupação de novos territórios. Influenciadores, inteligência artificial e até o Oscar entraram no horizonte de uma Igreja atenta às novas formas de produzir presença e autoridade.
Em setembro deste ano, o vencedor de um Emmy foi beatificado. A história já seria suficientemente pitoresca se terminasse aí. Mas, além de tudo, Fulton Sheen, vencedor do prêmio de personalidade do ano em 1953, era bispo e apresentava seu programa de televisão nos Estados Unidos para uma audiência de cerca de 30 milhões de pessoas. A notícia esconde movimentos mais tectônicos do catolicismo.
Com pouco mais de dois anos de papado e não se sabe quantos pela frente, é impossível dizer como Leão 14 será lembrado. Mas, a julgar pelo que fez até agora, o papa nascido nos Estados Unidos e com cidadania peruana está trabalhando para mostrar que a Igreja Católica continua atenta às transformações nas formas de se comunicar com as massas.
A beatificação de Fulton Sheen é uma espécie de reconhecimento de que a santidade também pode vir com o uso de novas tecnologias. Em meados do século 20, Fulton usou rádio e TV como instrumentos de pregação. Em seu famoso discurso no Emmy, ele agradeceu a quem chamou de seus quatro roteiristas: João, Marcos, Lucas e Mateus.
No ano passado, Leão 14 já havia canonizado Carlo Acutis, o padroeiro da internet. Também em 2025, o mesmo papa recebeu centenas de celebridades católicas no Vaticano, no Jubileu dos Missionários Digitais e Influenciadores Católicos. O evento pode ser descrito como o reconhecimento do TikTok, Instagram e YouTube como "in partibus infidelium", a clássica expressão latina usada historicamente pela Igreja para designar as terras dos infiéis.
Mas os movimentos da Igreja nessa direção não param por aí. Pela primeira vez, uma produção audiovisual realizada em colaboração com os meios de comunicação do Vaticano está tentando chegar ao Oscar. Em setembro, o curta-metragem “Green Lava”, realizado em colaboração com Vatican News, Rádio Vaticano e Vatican Media, foi exibido em salas de cinema de Beverly Hills.
O curta não tem conteúdo explicitamente religioso, mas acompanha a vida de Giacomo Mattivi, um jovem italiano que vive com distrofia muscular de Duchenne, após a morte de seu irmão com a mesma doença. Antes impensável nos corredores da Cúria romana, talvez um papa americano tenha ajudado a fazer os bispos e cardeais da Igreja compreenderem que Hollywood também precisa ser disputada.
Ainda no Vaticano, a atenção que Leão 14 tem dispensado ao tema da inteligência artificial é sintomática da preocupação do papa com as big techs. Sua primeira encíclica é dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial e, no dia seguinte à sua publicação, Leão 14 aprovou a criação de uma Comissão Interdicasterial sobre Inteligência Artificial, órgão formal da Santa Sé para o tema.
No plano local, em agosto deste ano, o cardeal Orani João Tempesta criou canonicamente, na Arquidiocese do Rio de Janeiro, a Pastoral dos Missionários Digitais. A proposta da pastoral é trabalhar com pessoas que usam a internet como meio de evangelização. Segundo a própria arquidiocese, a pastoral está voltada para os próprios influenciadores. Ou seja, o que se quer é contribuir para a formação católica desses missionários digitais.
Em um movimento bem próprio da Igreja, sua relação com esses novos missionários, assim como séculos atrás, é o de se valer de sua capacidade de circulação por terrenos ainda pouco explorados, sem, contudo, abrir mão da necessidade de discipliná-los.
Ao beatificar um bispo que fez da televisão seu púlpito, receber influenciadores no Vaticano, disputar espaço em Hollywood e criar estruturas para lidar com a inteligência artificial, Leão 14 parece definitivamente reconhecer que a internet virou, para a Igreja Católica, sua principal terra de missão.
Mín. 25° Máx. 42°