
Olha, você pode falar o que quiser do Lulinha. Mas uma coisa é certa: a vida desse moço parece coisa de novela das seis, com direito a viagens internacionais, passeios luxuosos e mordomias que muita gente neste País só conhece pela televisão. Se o pai já teve uma trajetória política que o levou à Presidência da República, o filho parece ter encontrado outro caminho para aproveitar a vida. E, pelo visto, não é trabalhando de sol a sol.
Ou melhor, Lulinha já teve emprego em um zoológico antes de o pai chegar à Presidência. E, certamente, não era limpando bumbum de bicho, não. Isso dá trabalho, exige compromisso, esforço físico, determinação e devoção aos animais. Pois é, com o Primeiro Filho do Brasil, aparentemente, são outros quinhentos.
O negócio dele, pelo que mostram relatos e imagens divulgados pela imprensa, é viajar, conhecer lugares paradisíacos, apreciar a Aurora Boreal e circular pelo mundo. A revista Veja, em reportagem publicada nesta quarta-feira (21), revelou novas fotografias de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ao lado da lobista Roberta Luchsinger, durante uma viagem à Finlândia, em janeiro de 2025. Em uma das imagens, os dois aparecem em um jatinho Embraer Praetor 600, aeronave cujo preço de fábrica pode superar US$ 20 milhões.
E isso, convenhamos, não é defeito nem crime. Claro que não! Quem neste Brasil não sonha em viajar pelo mundo, conhecer a Europa, ver a Aurora Boreal e desfrutar de conforto e boa vida? Sonhar também não é crime. O problema começa quando a vida de luxo deixa de ser apenas um sonho e passa a levantar perguntas sobre a origem dos recursos que a sustentam.
Segundo a reportagem, a viagem à Finlândia tinha como objetivo acompanhar a Aurora Boreal, fenômeno natural observado em regiões próximas ao Círculo Polar Ártico. A publicação também relata, com base em informações atribuídas a Roberta Luchsinger, que Lulinha e sua família teriam viajado por quatro continentes nos últimos quatro anos, em voos fretados ou cedidos por amigos.
A lobista afirma ainda que os passeios recebiam apoio logístico de embaixadas nos países visitados pelo filho do presidente. Entre os episódios mencionados estão a comemoração do aniversário de Lulinha com a esposa em um camarote do Rock in Rio Lisboa, supostamente presenteado por um empresário, e uma viagem à Grande Muralha da China, também atribuída ao apoio de terceiros.
Roberta fez uma pergunta que merece ser examinada, independentemente de preferências políticas: “Se a vida está boa, quem vai questionar? Ninguém questiona. Aliás, o pai não questiona. O pai era o primeiro que deveria questionar”. Em seguida, usou um exemplo pessoal para defender que qualquer pai deveria querer saber de onde vêm os recursos que permitem à família desfrutar de um padrão de vida elevado.
Pois é. A pergunta é simples e vale para qualquer cidadão, seja filho de presidente, empresário, político ou trabalhador comum: quem paga a conta?
Quem banca as viagens de Lulinha? Quem custeia as passagens? Quem paga as hospedagens, os passeios e os deslocamentos internacionais? São recursos próprios, presentes de amigos ou despesas pagas por empresários? E, se são terceiros que financiam tudo isso, qual é a relação entre essas pessoas e os negócios que mantêm com o poder público?
Não há nada de errado em receber um presente ou viajar com amigos, desde que tudo esteja dentro da lei. Mas, quando aparecem personagens ligados a interesses empresariais, contratos públicos e investigações, a cobrança por explicações se torna legítima. É justamente aí que o assunto deixa de ser apenas uma conversa sobre luxo e passa a exigir esclarecimentos.
A reportagem da Veja também apresentou imagens de Lulinha ao lado do empresário Marcelo Checon, proprietário da MChecon Design e Cenografia. Segundo o material publicado pelo Diário do Poder, a empresa, que tinha um contrato de R$ 197 mil relacionado ao setor de eventos do governo federal antes da posse de Lula, teria conquistado outros 13 contratos nos três anos seguintes. O faturamento informado pela reportagem chegou a R$ 63 milhões.
Os números, por si sós, não comprovam irregularidade. Para chegar a qualquer conclusão, é preciso examinar os contratos, os serviços prestados, os processos de contratação e as circunstâncias que explicariam a expansão dos negócios. Mas é perfeitamente legítimo perguntar se houve favorecimento e se as relações pessoais tiveram alguma influência nas contratações. Perguntar não é condenar. Investigar não é declarar culpa.
Ainda segundo a publicação, Lulinha teria se aproximado de Checon por intermédio de Fernando Bittar, seu sócio em uma empresa de games que é alvo de investigação por suspeita de tráfico de influência. A reportagem também menciona mensagens nas quais Roberta Luchsinger reclama de pedidos de passagens atribuídos a Fábio Luís.
“Tem que pagar essa bosta dessas passagens pro Fabio”, diz uma mensagem reproduzida pela reportagem. Questionada pela Veja, Roberta confirmou que reclamou dos pedidos e declarou: “Reclamei mesmo dos pedidos de passagem. Está lá nas mensagens. Passagem, passagem, passagem… É caro. O Fábio tem mania de pedir passagem para todo mundo”.
Ora, se a própria pessoa que aparece nas fotografias ao lado de Lulinha confirma que reclamou dos pedidos de passagens, a questão merece esclarecimento. Não porque pedir uma passagem seja, por si só, ilegal, mas porque o contexto pode ajudar a compreender quem financiava os deslocamentos e quais eram as relações entre os envolvidos.
E o assunto não para por aí. Na terça-feira (20), segundo a reportagem, a Polícia Federal pediu a prorrogação do prazo do inquérito que investiga Lulinha por suspeitas de tráfico de influência e corrupção. A defesa dele, por sua vez, sustenta que os investigadores estariam promovendo uma “pesca probatória” com motivação política e afirma que não teriam encontrado elementos suficientes para justificar a continuidade das apurações.
Temos, portanto, duas posições que precisam ser consideradas: de um lado, uma investigação ainda em andamento; de outro, uma defesa que contesta a atuação dos investigadores. Não se pode transformar suspeita em condenação, assim como não se deve usar a existência de uma defesa para impedir perguntas legítimas.
Mas fica uma dúvida que não pode ser varrida para debaixo do tapete: por que um homem que já passou dos 50 anos, tem CPF próprio e construiu relações com empresários e lobistas precisa, segundo relatos publicados, recorrer tantas vezes a terceiros para bancar viagens e passagens? Qual é sua fonte de renda? Como mantém seu padrão de vida? E qual é a natureza das relações entre seus financiadores e os negócios que envolvem o poder público?
São perguntas que não exigem condenação antecipada, apenas respostas claras.
Também é legítimo perguntar qual é a responsabilidade política de Lula diante de episódios envolvendo seu filho. O presidente não pode ser considerado responsável automaticamente por tudo o que um familiar faz, muito menos se pode presumir que tenha conhecimento de todas as suas relações. Mas, diante de questionamentos públicos relevantes, espera-se que a transparência não seja uma exigência aplicada somente aos adversários.
O Brasil já viu investigações envolvendo empresários, lobistas, agentes públicos e contratos milionários. Nesses casos, o que importa não é o sobrenome de quem aparece nas fotografias, mas a documentação, o caminho do dinheiro, os contratos e as provas. A régua precisa ser a mesma para todos.
Lulinha tem direito à presunção de inocência e a uma defesa plena. Isso não o torna imune ao escrutínio público, especialmente quando as perguntas envolvem relações com pessoas investigadas e possíveis conexões com contratos públicos. Da mesma forma, o parentesco com o presidente não prova culpa, mas também não pode funcionar como escudo contra questionamentos.
No fim das contas, ninguém está dizendo que viajar, conhecer a Europa ou contemplar a Aurora Boreal seja crime. Quem pode pagar por isso dentro da lei que aproveite a vida. A questão é outra: quem paga, de onde vem o dinheiro e quais relações existem por trás dessas despesas?
Lula já ocupou o cargo mais importante da República. Seu filho é um cidadão adulto, responsável por suas escolhas e pelas explicações que eventualmente forem exigidas pelas autoridades. O presidente não tem de responder automaticamente por ele, mas também não deveria tratar perguntas legítimas como se fossem apenas perseguição política.
Porque, no Brasil, o cidadão comum precisa trabalhar, pagar as contas e explicar cada centavo quando a fiscalização bate à porta. Quando surgem dúvidas sobre viagens luxuosas, passagens pagas por terceiros, empresários com contratos públicos e investigações em andamento, o mínimo que se espera é transparência.
Afinal, viver bem não é crime. Receber presentes não é necessariamente ilegal. Ter amigos empresários também não. Mas, quando tudo isso aparece junto, acompanhado de suspeitas sob investigação, as perguntas são inevitáveis.
E a pergunta que não quer calar continua de pé: quem banca a boa vida de Lulinha?
A resposta não deve vir de insinuações, nem de discursos inflamados. Deve vir de documentos, explicações verificáveis e investigações conduzidas dentro da lei. Porque, no fim das contas, quem não deve não precisa temer o esclarecimento dos fatos. E ninguém, nem mesmo o filho do presidente, está acima das perguntas que interessam à sociedade brasileira.
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