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Política FABRICA DE FAKES?

Janones e a fábrica de alarmismo eleitoral: aposentadoria, Farmácia Popular e Petrobras no centro das acusações contra Flávio Bolsonaro

Vídeos de André Janones e de outros aliados de Lula foram alvo de decisões do TSE por atribuírem ao candidato do PL medidas sem respaldo factual suficiente. Já o relatório técnico sobre o canal “Exército de Lula” não encontrou, no período examinado, reproduções das mensagens questionadas, mas registrou atuação coordenada e linguagem polarizadora. O caso expõe os limites entre propaganda agressiva, desinformação e responsabilidade eleitoral

13/10/2026 às 00h02
Por: Douglas Ferreira
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Janones, o algoz que virou um “cão de guarda” de Lula - Foto: Reprodução
Janones, o algoz que virou um “cão de guarda” de Lula - Foto: Reprodução

Nos últimos dias, o canal de WhatsApp “Exército de Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), tornou-se centro de uma disputa que vai além da briga entre dois candidatos. A discussão envolve uma questão fundamental para a democracia: até onde pode ir a propaganda eleitoral antes que a crítica política se transforme em atribuição de fatos sem sustentação?

Janones construiu presença política nas redes sociais com uma comunicação agressiva, baseada em frases de impacto, confrontos e mobilização digital. Na campanha de 2026, esse estilo voltou a aparecer em publicações que associam uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) a perdas em aposentadorias, programas sociais, acesso a medicamentos e direitos dos trabalhadores.

O problema não está em criticar o programa de um adversário, prever consequências econômicas ou defender que determinada proposta prejudicaria a população. Isso faz parte da disputa democrática. A questão é apresentar como decisão certa ou projeto confirmado aquilo que não encontra respaldo suficiente nas propostas e declarações documentadas do candidato.

Foi justamente essa distinção que apareceu em decisões recentes da Justiça Eleitoral.

1. Aposentadorias: o alerta sobre benefícios menores

Em um vídeo publicado por Janones e pelo deputado Lindbergh Farias (PT), os parlamentares afirmaram que Flávio Bolsonaro pretendia elevar a idade mínima para aposentadoria, desvincular benefícios previdenciários do salário mínimo e impor mudanças prejudiciais aos trabalhadores.

O ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou a retirada do conteúdo. Segundo a decisão, as publicações apresentavam números e medidas específicas como se fossem propostas já formuladas, sem sustentação suficiente no programa de governo ou em declarações anteriores de Flávio.

O ponto é objetivo: alertar sobre possíveis efeitos de uma proposta previdenciária é legítimo; atribuir ao adversário regras concretas sem apresentar evidências é outra coisa.

2. Farmácia Popular: o anúncio de um fim que não estava comprovado

Outra acusação relacionou uma eventual vitória de Flávio ao encerramento do Farmácia Popular.

A primeira-dama Janja publicou um vídeo com essa afirmação, e o ministro Kassio Nunes Marques determinou a retirada do conteúdo. Na decisão, considerou que não havia elementos mínimos que demonstrassem a intenção de Flávio de extinguir o programa.

O Farmácia Popular atende a uma necessidade concreta da população. Por isso, a possibilidade de seu fim é um tema capaz de provocar medo e insegurança, especialmente entre pessoas que dependem de medicamentos.

Justamente por ser um assunto sensível, a informação precisa ser rigorosa. Uma campanha pode questionar o que um candidato faria com a política de medicamentos, mas não deveria transformar uma previsão sem comprovação em certeza eleitoral.

3. Bolsa Família e outros programas sociais: o medo como instrumento de campanha

Publicações contra Flávio também associaram sua eventual eleição a cortes no Bolsa Família, no Pé-de-Meia e no Minha Casa, Minha Vida, entre outras políticas públicas.

As decisões judiciais sobre conteúdos desse tipo apontaram falta de elementos concretos para sustentar as consequências apresentadas como certas. O material analisado também foi confrontado com o plano de governo registrado no TSE, que previa a manutenção dos programas sociais existentes.

É possível discutir a sustentabilidade financeira desses programas, questionar seus resultados e comparar as propostas dos candidatos. O que exige comprovação é afirmar que um candidato acabará com benefícios específicos quando não há documentação suficiente para sustentar essa conclusão.

A diferença entre crítica e desinformação pode estar justamente na maneira como a mensagem é construída: uma coisa é dizer que determinada proposta poderia afetar um programa; outra é afirmar que o programa será extinto sem demonstrar de onde veio essa informação.

4. Jornada de trabalho: sete dias por semana

Entre os conteúdos contestados estava a afirmação de que uma eventual vitória de Flávio levaria os brasileiros a trabalhar 12 horas por dia, sete dias por semana.

A publicação foi incluída no conjunto de conteúdos retirados por ordem judicial. Segundo a fundamentação divulgada, não havia respaldo suficiente para atribuir ao candidato a intenção de impor essa jornada.

Não é difícil perceber o potencial desse tipo de mensagem: poucos trabalhadores permaneceriam indiferentes diante da perspectiva de perder descanso e qualidade de vida. Mas justamente por atingir diretamente o cotidiano das pessoas, uma afirmação tão grave exige evidências.

A campanha eleitoral não pode ser transformada em uma competição para ver quem consegue produzir o cenário mais assustador sobre o adversário.

5. Petrobras: privatização apresentada como plano confirmado

Outro vídeo de Janones e Lindbergh atribuiu a Flávio a intenção de privatizar a Petrobras. A publicação também foi alvo de ordem de remoção. Na avaliação do ministro André Mendonça, a afirmação não encontrava sustentação suficiente para ser apresentada como parte concreta do programa de governo do candidato.

A privatização de uma estatal é um tema legítimo de debate público. Pode e deve ser discutido com base em declarações, documentos e propostas. O que não se deve fazer é converter uma intenção não demonstrada em fato consumado, sobretudo quando a mensagem é usada para mobilizar o eleitorado contra um candidato.

Esses episódios não autorizam afirmar que toda crítica de Janones seja falsa. Demonstram, porém, que conteúdos específicos publicados por ele e por aliados foram considerados insuficientemente fundamentados pela Justiça Eleitoral.

6. Nossa Senhora Aparecida: religião também entrou na disputa

A controvérsia chegou à religião com a alegação de que Flávio Bolsonaro seria favorável à retirada do título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. Essa afirmação foi mencionada entre os conteúdos considerados inverídicos em decisões anteriores e integrou a justificativa apresentada para a suspensão do canal.

A utilização da fé na política não é, por si só, irregular. Candidatos podem falar sobre religião e dialogar com eleitores religiosos. O problema surge quando uma alegação sem sustentação é usada para colocar em dúvida a relação de um adversário com a fé de milhões de brasileiros.

A religião merece respeito, mas também não deve ser instrumentalizada por mensagens que não resistem à verificação dos fatos.

O que aconteceu com o “Exército de Lula”?

A sequência institucional merece ser examinada com atenção. Em 11 de outubro, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão do canal, atendendo a um pedido da campanha de Flávio Bolsonaro. No dia seguinte, o corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, restabeleceu o funcionamento da página.

A divergência entre as decisões provocou questionamentos sobre os critérios adotados pela Justiça Eleitoral. Mas o relatório técnico produzido após a controvérsia também precisa ser levado em conta.

Segundo a Agência Brasil, a equipe técnica do TSE não encontrou, nas mensagens examinadas entre 2 e 11 de outubro, reproduções das afirmações específicas que haviam sido questionadas nos autos. O relatório, contudo, registrou atuação coordenada na disseminação de conteúdo e uso recorrente de linguagem polarizadora.

Há ainda uma informação relevante: a campanha de Flávio alegou que 219 publicações haviam sido apagadas do canal em 8 de outubro e afirmou ter guardado cópias das mensagens. Segundo a reportagem do Poder360, essas mensagens continham links para vídeos sobre aposentadorias e Bolsa Família. A campanha sustenta que as exclusões dificultaram a verificação. Essa é uma alegação apresentada pela parte autora, e não uma conclusão definitiva da Justiça.

Portanto, não seria correto afirmar que o relatório técnico comprovou a presença de fake news no canal durante o período examinado. Tampouco seria correto ignorar a disputa sobre as mensagens apagadas, os vídeos publicados em outras plataformas e as decisões que atingiram conteúdos específicos de Janones e de outros aliados de Lula.

É preciso distinguir as provas referentes a cada publicação, a cada perfil e a cada período.

O método Janones e a responsabilidade de quem informa

A questão central não é demonizar André Janones, impedir sua atuação política ou proibir críticas ao governo e à oposição. É cobrar responsabilidade de quem usa o alcance das redes sociais para influenciar milhões de eleitores.

Quando uma mensagem afirma que aposentadorias serão reduzidas, que medicamentos deixarão de ser distribuídos ou que programas sociais serão encerrados, o público tem direito de saber se a afirmação está baseada em uma proposta real, em uma declaração verificável ou apenas em uma previsão de campanha.

O alcance de uma mensagem aumenta sua responsabilidade. E o uso de grupos com milhões de participantes torna ainda mais importante preservar registros, permitir a verificação e corrigir informações quando elas se mostram incorretas.

Os episódios documentados mostram que a Justiça Eleitoral considerou insuficiente a sustentação factual de determinadas acusações contra Flávio Bolsonaro e ordenou a retirada de publicações. Esse dado é relevante e merece ser cobrado publicamente, independentemente de quem seja o autor.

Mas a mesma exigência deve valer para todos: a acusação de fake news precisa ser demonstrada, e não apenas repetida como rótulo.

A democracia não pode viver de alarmes sem prova

O eleitor precisa conhecer as propostas dos candidatos, avaliar seus riscos e decidir com liberdade. Quando a propaganda substitui documentos por afirmações categóricas sem respaldo, o debate deixa de esclarecer e passa a confundir.

O caso Janones oferece uma oportunidade para discutir não apenas o comportamento de um deputado, mas os critérios de responsabilidade que devem orientar toda a comunicação política. A Justiça Eleitoral tem o dever de agir com coerência, apresentar fundamentos claros e garantir que as regras sejam aplicadas sem seletividade.

A pergunta que fica é simples: se uma acusação não encontra sustentação suficiente para permanecer no ar, por que ela deveria continuar circulando como se fosse um fato?

Em uma eleição presidencial, a crítica é legítima. A divergência é necessária. O confronto de ideias faz parte da democracia. Mas o eleitor não pode ser tratado como alvo de uma campanha permanente de medo.

A liberdade de expressão protege o direito de criticar. Não transforma uma afirmação sem prova em verdade. E a disputa pelo voto não deveria servir de licença para apresentar como certo aquilo que os documentos disponíveis não conseguem demonstrar.

 
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A NOTÍCIA E O FATO
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Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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