
A campanha eleitoral para a Presidência da República em 2026 tem tudo para entrar para a história. Não necessariamente pelo pleno exercício da democracia, mas por episódios que colocam em discussão a transparência, a igualdade de condições entre candidatos e a credibilidade dos procedimentos eleitorais.
Nesta segunda-feira (12), feriado de Nossa Senhora Aparecida, o programa eleitoral de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, foi exibido na televisão sem áudio. As imagens apareceram normalmente, mas a mensagem da campanha não pôde ser ouvida. Na sequência, a propaganda de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), adversário de Flávio no segundo turno, foi transmitida com som.
O episódio provocou questionamentos imediatos. Como uma propaganda presidencial chega à televisão sem áudio? Em que etapa ocorreu a falha? E quais garantias existem de que o problema foi exclusivamente técnico?
Em nota, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que identificou um problema técnico no chamado Pool de Mídias. Segundo a Corte, durante a finalização dos arquivos, os áudios das duas propagandas presidenciais previstas para o bloco das 13h não foram carregados.
O Tribunal afirmou, porém, que houve tempo para corrigir a falha antes da exibição do programa de Lula. O arquivo de Flávio Bolsonaro foi corrigido e, conforme o comunicado, será reapresentado. Até a publicação da reportagem do Metrópoles, não estava claro em qual dia e horário ocorreria a nova transmissão.
A explicação oficial é um primeiro esclarecimento, mas não encerra o caso. O próprio TSE informou que abriu uma apuração. Ainda é necessário determinar em qual etapa o áudio deixou de funcionar e como o material foi liberado para exibição nessas condições.
A distribuição das propagandas envolve procedimentos técnicos e diferentes agentes. De acordo com as informações divulgadas, os arquivos são enviados pelas campanhas por plataformas digitais, enquanto o material destinado à veiculação passa pelo sistema organizado pelo Pool de Mídias.
A Empresa Brasil de Comunicação (EBC), por sua vez, negou responsabilidade pela falha. Em nota, afirmou que não tem acesso aos arquivos enviados pelas campanhas e, portanto, não teria como interferir no áudio ou em outros elementos das propagandas. Segundo a empresa, somente o Pool tem acesso à mídia e realiza a conferência do material.
Diante dessas versões, é indispensável esclarecer o percurso do arquivo: ele foi enviado corretamente pela campanha de Flávio? O áudio estava íntegro quando chegou ao sistema responsável? Em que momento desapareceu? Quem realizou a conferência final e quais procedimentos foram adotados antes de a propaganda ir ao ar?
São perguntas objetivas, que podem ser respondidas por registros técnicos, relatórios e pela própria apuração anunciada pelo TSE. Não há, até o momento, elementos suficientes para afirmar que houve sabotagem ou ação deliberada contra o candidato. Mas também não seria razoável considerar o assunto encerrado apenas com a expressão “problema técnico”.
Flávio Bolsonaro reagiu ao episódio nas redes sociais e disse não acreditar em coincidência. A declaração expressa a desconfiança do candidato, mas não constitui prova de que a falha tenha sido intencional.
O ponto central é outro: em uma disputa presidencial, o horário eleitoral é um instrumento de comunicação com os eleitores. Quando uma propaganda é exibida sem som, o prejuízo é concreto, independentemente de ter sido provocado por uma falha humana, operacional ou tecnológica.
Por isso, a reapresentação do programa é uma medida anunciada importante. Ainda assim, cabe ao TSE esclarecer quando ela ocorrerá, como será garantida a equivalência da exposição e quais providências serão tomadas para evitar a repetição do problema.
A transparência exige mais do que identificar genericamente uma falha. É preciso explicar a origem do erro, delimitar responsabilidades e tornar públicas as conclusões da apuração.
A história eleitoral brasileira registra controvérsias relacionadas à distribuição de propaganda, à transmissão de programas e ao acesso dos candidatos aos meios de comunicação. A afirmação de que este seria o primeiro caso do tipo desde a redemocratização precisa ser tratada com cautela até que haja levantamento histórico capaz de confirmá-la.
O que já se pode afirmar é que a exibição de um programa presidencial sem áudio é uma ocorrência grave do ponto de vista da comunicação eleitoral e merece esclarecimento completo. A credibilidade das instituições não se fortalece quando questionamentos são tratados como irrelevantes, mas quando fatos são apurados e respostas verificáveis são apresentadas.
Em uma eleição polarizada, qualquer falha dessa natureza alimenta suspeitas e amplia a desconfiança. Justamente por isso, não basta especular sobre intenções nem aceitar explicações genéricas sem acompanhamento. É preciso separar o que está comprovado daquilo que ainda precisa ser investigado.
O eleitor tem direito a respostas. O TSE deve esclarecer a sequência dos acontecimentos, a EBC e os responsáveis pelo sistema precisam ter suas atribuições devidamente delimitadas, e a campanha de Flávio Bolsonaro deve receber informações claras sobre a reapresentação do programa.
Uma falha técnica pode acontecer. O que não pode faltar é transparência para explicar como aconteceu, responsabilidade para corrigir o problema e segurança de que todos os candidatos tenham condições equitativas de apresentar suas propostas. É assim que se protege a confiança no processo eleitoral, sem transformar suspeitas em certezas nem tratar perguntas legítimas como se fossem irrelevantes.
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