
O presidente Lula fez, no day after da eleição do primeiro turno, aquilo que políticos costumam fazer quando a urna não entrega exatamente o resultado esperado: procurou uma explicação fora de si. E, desta vez, o escolhido foi o Supremo Tribunal Federal. Em reunião com a coordenação de sua campanha nesta segunda-feira (5), Lula afirmou que está “carregando nas costas” a “promiscuidade” que, segundo ele, se estabeleceu na Suprema Corte após as revelações relacionadas ao Banco Master. Em outras palavras, o presidente parece ter encontrado no STF uma boa parte da explicação para o desempenho que teve nas urnas.
E não foi um desempenho qualquer. Lula terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45,16% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro chegou a 47,03%, abrindo uma vantagem superior a 2,2 milhões de votos. Foi uma pancada eleitoral considerável para quem disputava a Presidência da República na condição de atual presidente e carregava consigo a experiência de várias eleições presidenciais.
Mas, em vez de olhar primeiro para dentro de casa e perguntar o que levou milhões de brasileiros a escolherem outro candidato, Lula preferiu olhar para o outro lado da Praça dos Três Poderes. O STF, portanto, entrou na conta. E, convenhamos, é uma explicação bastante conveniente. Se o problema está na Suprema Corte, o governo fica um pouco mais distante da responsabilidade pelo resultado.
Só existe um pequeno detalhe: quem estava disputando a eleição era Lula.
É verdade que o caso Banco Master provocou enorme repercussão e colocou ministros do STF sob questionamentos públicos. O próprio presidente reconheceu que a Suprema Corte estaria sob “desconfiança da sociedade” e defendeu uma nova reforma do Judiciário. Portanto, seria ingenuidade imaginar que o desgaste institucional não tenha qualquer repercussão política.
Mas será que foi só isso?
Será que o eleitor brasileiro acordou no domingo, tomou café, foi à seção eleitoral, apertou os botões da urna e pensou exclusivamente no Banco Master? Será que mais de 53 milhões de votos em Lula podem ser explicados por uma coisa, e os mais de 56 milhões de votos em Flávio Bolsonaro por outra?
E as promessas não cumpridas?
E aquilo que o governo anunciou e não entregou?
E a inflação que corrói o salário e reduz o poder de compra?
E o custo da comida?
E os juros elevados?
E o desemprego e a precarização do trabalho?
E a violência que continua assustando o cidadão?
E o avanço das facções criminosas?
E a discussão sobre PCC e Comando Vermelho?
E os gastos do governo?
E as controvérsias envolvendo integrantes e aliados do Palácio do Planalto?
E as extravagâncias de Janja, que tantas vezes transformaram a primeira-dama em personagem do debate político?
E as denúncias e investigações que atingiram pessoas próximas ao governo?
Nada disso contou?
Terá sido apenas o desgaste provocado por alguns ministros do Supremo que empurrou Lula para o segundo lugar?
Convenhamos: seria uma explicação confortável demais para um resultado que merece uma análise muito mais ampla.
É preciso separar, naturalmente, aquilo que é fato comprovado daquilo que está sob investigação, assim como não se pode transformar suspeitas em condenações. Mas também não se pode fingir que o eleitor vive em uma bolha. Ele acompanha as notícias, sente o preço no supermercado, enfrenta problemas de segurança, observa os gastos públicos, ouve promessas e cobra resultados.
A eleição presidencial é justamente isso: uma grande avaliação.
E quando o candidato é também o presidente da República, fica um pouco mais difícil dizer que a avaliação não tem relação com o governo.
Lula, aliás, sabe disso. Tanto sabe que, depois do resultado, recomendou aos aliados que não culpassem o eleitor. Disse que não se deve “brigar com o eleitor” e que é preciso ter humildade para reconhecer que, algumas vezes, o povo não compreende a mensagem do candidato.
É um conselho sensato.
Mas talvez precise ser aplicado também ao próprio candidato.
Porque existe uma diferença entre dizer que o eleitor não compreendeu uma mensagem e admitir que ele pode ter compreendido perfeitamente e, simplesmente, decidido não comprar o produto.
Essa é uma possibilidade que a campanha petista terá de enfrentar nos próximos 20 dias.
O primeiro turno acabou. Os votos de Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado estão agora no mercado eleitoral. Somados, representam milhões de eleitores que escolheram outros caminhos. Há ainda mais de 33 milhões de brasileiros que sequer foram às urnas. Ninguém é dono desses votos.
Lula terá de conquistá-los.
Flávio Bolsonaro também.
E aqui está a parte interessante do segundo turno: os dois começam uma nova batalha, mas não exatamente do zero. Lula carrega o peso de ser conhecido demais. Já governou, prometeu, entregou algumas coisas, deixou de entregar outras e terá de responder pelaquilo que fez e pelo que não fez. Flávio, por sua vez, tem a vantagem da novidade presidencial, mas também terá de explicar ao eleitor o que pretende fazer caso chegue ao Palácio do Planalto.
Um tem experiência de sobra. O outro ainda não foi testado na Presidência.
Um terá de defender o governo. O outro terá de apresentar uma alternativa.
E os dois terão de convencer quem não está convencido.
Por isso, colocar o STF no centro da campanha pode até ser uma estratégia eleitoral. O desgaste da Corte existe e o próprio Lula reconheceu isso. O caso Banco Master também está longe de ser irrelevante. Mas reduzir o resultado eleitoral a esse episódio seria subestimar justamente aquilo que o presidente diz respeitar: a inteligência do eleitor.
A pergunta que Lula precisa responder é simples, embora provavelmente não seja confortável:
o eleitor puniu apenas o desgaste do STF ou também julgou o governo Lula?
Porque pode ter sido uma coisa, pode ter sido outra ou, muito provavelmente, pode ter sido um pouco de cada.
O eleitor não vota em planilhas. Vota em percepções. Vota no bolso, na esperança, no medo, na experiência, na rejeição, na expectativa e, muitas vezes, na vontade de mudar.
E a urna deste 4 de outubro mandou um recado que não deveria ser ignorado: Flávio Bolsonaro chegou na frente.
Agora Lula terá 20 dias para convencer o eleitor de que merece continuar.
Flávio terá os mesmos 20 dias para convencer que merece substituir o atual presidente.
É uma nova eleição, com dois candidatos, milhões de votos disponíveis e uma enorme quantidade de perguntas a serem respondidas.
Lula pode colocar o STF no banco dos réus. Pode colocar o Banco Master. Pode colocar a oposição. Pode colocar a comunicação. Pode colocar quem quiser.
Mas existe uma conta que não dá para terceirizar.
A conta da urna é do candidato.
E essa, pelo menos até o momento, chegou primeiro para Flávio Bolsonaro.
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