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Polícia STF PROMÍSCUO?

Lula terceiriza a conta das urnas e coloca o STF no banco dos réus

Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, presidente atribui ao desgaste do Supremo parte da responsabilidade pelo resultado, mas esquece de fazer a própria autocrítica

06/10/2026 às 00h11
Por: Douglas Ferreira
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Lula acusa o STF de promiscuidade - Foto: Reprodução
Lula acusa o STF de promiscuidade - Foto: Reprodução

O presidente Lula fez, no day after da eleição do primeiro turno, aquilo que políticos costumam fazer quando a urna não entrega exatamente o resultado esperado: procurou uma explicação fora de si. E, desta vez, o escolhido foi o Supremo Tribunal Federal. Em reunião com a coordenação de sua campanha nesta segunda-feira (5), Lula afirmou que está “carregando nas costas” a “promiscuidade” que, segundo ele, se estabeleceu na Suprema Corte após as revelações relacionadas ao Banco Master. Em outras palavras, o presidente parece ter encontrado no STF uma boa parte da explicação para o desempenho que teve nas urnas.

E não foi um desempenho qualquer. Lula terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45,16% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro chegou a 47,03%, abrindo uma vantagem superior a 2,2 milhões de votos. Foi uma pancada eleitoral considerável para quem disputava a Presidência da República na condição de atual presidente e carregava consigo a experiência de várias eleições presidenciais.

Mas, em vez de olhar primeiro para dentro de casa e perguntar o que levou milhões de brasileiros a escolherem outro candidato, Lula preferiu olhar para o outro lado da Praça dos Três Poderes. O STF, portanto, entrou na conta. E, convenhamos, é uma explicação bastante conveniente. Se o problema está na Suprema Corte, o governo fica um pouco mais distante da responsabilidade pelo resultado.

Só existe um pequeno detalhe: quem estava disputando a eleição era Lula.

É verdade que o caso Banco Master provocou enorme repercussão e colocou ministros do STF sob questionamentos públicos. O próprio presidente reconheceu que a Suprema Corte estaria sob “desconfiança da sociedade” e defendeu uma nova reforma do Judiciário. Portanto, seria ingenuidade imaginar que o desgaste institucional não tenha qualquer repercussão política.

Mas será que foi só isso?

Será que o eleitor brasileiro acordou no domingo, tomou café, foi à seção eleitoral, apertou os botões da urna e pensou exclusivamente no Banco Master? Será que mais de 53 milhões de votos em Lula podem ser explicados por uma coisa, e os mais de 56 milhões de votos em Flávio Bolsonaro por outra?

E as promessas não cumpridas?

E aquilo que o governo anunciou e não entregou?

E a inflação que corrói o salário e reduz o poder de compra?

E o custo da comida?

E os juros elevados?

E o desemprego e a precarização do trabalho?

E a violência que continua assustando o cidadão?

E o avanço das facções criminosas?

E a discussão sobre PCC e Comando Vermelho?

E os gastos do governo?

E as controvérsias envolvendo integrantes e aliados do Palácio do Planalto?

E as extravagâncias de Janja, que tantas vezes transformaram a primeira-dama em personagem do debate político?

E as denúncias e investigações que atingiram pessoas próximas ao governo?

Nada disso contou?

Terá sido apenas o desgaste provocado por alguns ministros do Supremo que empurrou Lula para o segundo lugar?

Convenhamos: seria uma explicação confortável demais para um resultado que merece uma análise muito mais ampla.

É preciso separar, naturalmente, aquilo que é fato comprovado daquilo que está sob investigação, assim como não se pode transformar suspeitas em condenações. Mas também não se pode fingir que o eleitor vive em uma bolha. Ele acompanha as notícias, sente o preço no supermercado, enfrenta problemas de segurança, observa os gastos públicos, ouve promessas e cobra resultados.

A eleição presidencial é justamente isso: uma grande avaliação.

E quando o candidato é também o presidente da República, fica um pouco mais difícil dizer que a avaliação não tem relação com o governo.

Lula, aliás, sabe disso. Tanto sabe que, depois do resultado, recomendou aos aliados que não culpassem o eleitor. Disse que não se deve “brigar com o eleitor” e que é preciso ter humildade para reconhecer que, algumas vezes, o povo não compreende a mensagem do candidato.

É um conselho sensato.

Mas talvez precise ser aplicado também ao próprio candidato.

Porque existe uma diferença entre dizer que o eleitor não compreendeu uma mensagem e admitir que ele pode ter compreendido perfeitamente e, simplesmente, decidido não comprar o produto.

Essa é uma possibilidade que a campanha petista terá de enfrentar nos próximos 20 dias.

O primeiro turno acabou. Os votos de Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado estão agora no mercado eleitoral. Somados, representam milhões de eleitores que escolheram outros caminhos. Há ainda mais de 33 milhões de brasileiros que sequer foram às urnas. Ninguém é dono desses votos.

Lula terá de conquistá-los.

Flávio Bolsonaro também.

E aqui está a parte interessante do segundo turno: os dois começam uma nova batalha, mas não exatamente do zero. Lula carrega o peso de ser conhecido demais. Já governou, prometeu, entregou algumas coisas, deixou de entregar outras e terá de responder pelaquilo que fez e pelo que não fez. Flávio, por sua vez, tem a vantagem da novidade presidencial, mas também terá de explicar ao eleitor o que pretende fazer caso chegue ao Palácio do Planalto.

Um tem experiência de sobra. O outro ainda não foi testado na Presidência.

Um terá de defender o governo. O outro terá de apresentar uma alternativa.

E os dois terão de convencer quem não está convencido.

Por isso, colocar o STF no centro da campanha pode até ser uma estratégia eleitoral. O desgaste da Corte existe e o próprio Lula reconheceu isso. O caso Banco Master também está longe de ser irrelevante. Mas reduzir o resultado eleitoral a esse episódio seria subestimar justamente aquilo que o presidente diz respeitar: a inteligência do eleitor.

A pergunta que Lula precisa responder é simples, embora provavelmente não seja confortável:

o eleitor puniu apenas o desgaste do STF ou também julgou o governo Lula?

Porque pode ter sido uma coisa, pode ter sido outra ou, muito provavelmente, pode ter sido um pouco de cada.

O eleitor não vota em planilhas. Vota em percepções. Vota no bolso, na esperança, no medo, na experiência, na rejeição, na expectativa e, muitas vezes, na vontade de mudar.

E a urna deste 4 de outubro mandou um recado que não deveria ser ignorado: Flávio Bolsonaro chegou na frente.

Agora Lula terá 20 dias para convencer o eleitor de que merece continuar.

Flávio terá os mesmos 20 dias para convencer que merece substituir o atual presidente.

É uma nova eleição, com dois candidatos, milhões de votos disponíveis e uma enorme quantidade de perguntas a serem respondidas.

Lula pode colocar o STF no banco dos réus. Pode colocar o Banco Master. Pode colocar a oposição. Pode colocar a comunicação. Pode colocar quem quiser.

Mas existe uma conta que não dá para terceirizar.

A conta da urna é do candidato.

E essa, pelo menos até o momento, chegou primeiro para Flávio Bolsonaro.

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A NOTÍCIA E O FATO
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Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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