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Política FALTA O ESSENCIAL

Lata d’água na cabeça: 74 anos depois, Maria volta ao Piauí

Uma velha marchinha de carnaval parece ter desembarcado no Piauí de 2026. E não veio para brincar

26/09/2026 às 12h11 Atualizada em 26/09/2026 às 12h44
Por: Douglas Ferreira
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A dura realidade da lata d`água na cabeça 74 anos depois - Foto: Reprodução
A dura realidade da lata d`água na cabeça 74 anos depois - Foto: Reprodução

“Lata d’água na cabeça.
Lá vai Maria.
Lá vai Maria.

Sobe o morro e não se cansa.
Pela mão,
leva a criança.
Lá vai Maria.”

Quem conhece a música provavelmente já começou a cantarolar. Quem não conhece deveria conhecê-la. “Lata d’Água”, lançada em 1952, tornou-se um dos grandes sucessos daquele Carnaval na voz da cantora Marlene.

Era uma marcha-samba que retratava o cotidiano de uma trabalhadora e a realidade das comunidades pobres do Rio de Janeiro. Maria subia o morro carregando água na cabeça porque, naquela época, ter água em casa estava longe de ser uma realidade para muita gente.

Passaram-se 74 anos.

O Brasil mudou. A tecnologia mudou. O mundo mudou. O homem chegou à Lua, a internet chegou ao telefone, a inteligência artificial chegou ao nosso cotidiano.

Mas parece que alguém esqueceu de avisar a Maria.

Porque, em pleno século XXI, a velha lata d’água voltou a frequentar o debate político do Piauí.

E não voltou por nostalgia.

Voltou porque a falta de água se transformou em uma das principais reclamações de moradores de diferentes regiões do Estado.

É aí que uma música de 1952 deixa de ser apenas uma lembrança da era de ouro do rádio e passa a parecer uma espécie de trilha sonora involuntária de 2026.

A pergunta é inevitável: como uma música que retratava a pobreza dos morros do Rio de Janeiro há quase três quartos de século consegue parecer tão atual no Piauí de hoje?

A resposta está na torneira.

Ou melhor: na torneira que não abre. Quem não sai água.

Moradores de diferentes municípios piauienses têm relatado falta d’água para beber, cozinhar, tomar banho, lavar roupa e realizar as tarefas mais elementares do cotidiano.

E água não é luxo.

Água não é internet de alta velocidade.

Não é carro novo.

Não é viagem.

Não é ar-condicionado.

Água é água.

É o básico do básico.

É aquilo que deveria estar resolvido antes de qualquer discussão sofisticada sobre desenvolvimento, inovação, tecnologia ou futuro.

O governador Rafael Fonteles tem afirmado que uma parcela relativamente pequena da população sofre com problemas de abastecimento. A dimensão apresentada pelo governo, porém, é contestada pela percepção de moradores e pelos protestos registrados em diferentes municípios.

E aqui está o ponto político mais delicado: não importa apenas a porcentagem apresentada numa estatística quando o problema chega à torneira da casa de alguém.

Para quem abre a torneira e não sai água, 5%, 7%, 10% ou qualquer outro número não resolve o problema.

Uma estatística não mata a sede.

Uma planilha não enche a caixa d’água.

E uma equação matemática, por mais bonita que seja, não produz água quando a torneira está seca.

É justamente aí que entra uma conversa que tive nesta semana com Francisco Rios, barbeiro no bairro Buenos Aires, na Zona Norte de Teresina.

Rios é meu barbeiro há mais de uma década e meia. Fui cortar o cabelo e, como acontece nessas conversas de barbearia, falamos de tudo um pouco.

Só que, desta vez, a água dominou a conversa.

E Rios não falou como cientista político, economista ou especialista em gestão pública.

Falou como cidadão. Como consumidor. Como alguém que sente na própria rotina os efeitos da falta d’água.

Segundo ele, o problema se agravou desde que a Águas de Teresina iniciou intervenções anunciadas como melhorias na rede do bairro.

E veio a frase que resume sua percepção política:

“O governador Rafael Fonteles vai perder a eleição para ele mesmo”.

Mas Rios explica o que quer dizer.

Na avaliação dele, o eleitor piauiense não decide necessariamente seu voto apenas por ideologia. Decide também, e talvez principalmente, pela sensação de que a vida está melhorando ou piorando.

E poucas coisas são tão concretas quanto abrir uma torneira.

Não sair água é uma experiência democrática. Afeta o eleitor de esquerda, de direita, de centro, o petista, o bolsonarista, o apolítico, o indeciso e até aquele sujeito que só queria tomar banho antes de sair para trabalhar.

A sede não pergunta em quem você votou.

Rios resume:

“É desesperador quando não se tem água nem para beber”.

E acrescenta:

“O povo vive com baixo salário, sem emprego, sem energia. Mas sem água não dá”.

É difícil encontrar uma definição mais simples, e mais contundente, para o problema.

Depois, o barbeiro faz a pergunta que transformou a conversa em análise política:

“E de quem é a culpa pela falta d’água na torneira?”

Em seguida, ele próprio responde com outra pergunta:

“Quem foi que vendeu a Agespisa a preço de banana?”

São afirmações e interpretações de Francisco Rios, não uma conclusão judicial ou uma sentença sobre a responsabilidade individual de quem quer que seja. Mas elas revelam algo politicamente importante: o cidadão comum já está associando a falta d’água à gestão pública.

E esse fenômeno não está restrito à cadeira de uma barbearia.

Moradores de municípios como Piripiri, Picos e Santa Cruz dos Milagres, entre outros, já foram às ruas para protestar contra problemas de abastecimento.

Na capital, a reclamação também existe.

Na Zona Norte, moradores de diferentes bairros relatam interrupções frequentes. No Buenos Aires, segundo o relato de Rios, há períodos em que falta água praticamente dia sim, dia não. E quando chega é tão fraca que quase não molha.

É quando a política sai do palanque e entra na cozinha.

Sai do discurso e chega ao banheiro.

Sai da propaganda e bate na caixa d’água.

E aí não existe marqueteiro capaz de convencer uma família de que está tudo bem se ela abre a torneira e não consegue encher um copo.

É por isso que a velha Maria de 1952 voltou ao Piauí.

Ela não veio de trem.

Não veio de avião.

Não veio de ônibus.

Veio carregada na cabeça de quem continua esperando água na torneira.

E talvez seja justamente essa a maior ironia de toda essa história.

Há 74 anos, Maria carregava uma lata d’água porque o Estado ainda não havia conseguido universalizar o abastecimento.

Em 2026, o Piauí discute inteligência artificial, grandes obras, desenvolvimento econômico, tecnologia e futuro. O governador sentou na cadeira falando em porto marítimo, navegabilidade do Rio Parnaíba, hidrogênio verde. Ideias e projetos que amarelaram. 

O porto não exporta, o Velho Monge continha assoreado e o hidrogênio verde amarelou de vez. E o barbeiro entende e fala de tudo isso. Ele resume a falta de entregas numa única frase:

"O cálculo é simples. Se o governador tivesse investido essa dinheirama que ele jogou no porto em perfuração de poços, sistemas autômos de abastecimento d`água nos municípios, adutoras, a história hoje seria outra. A saúde podia continuar mal, a educação e a segurança também. Mas o povo teria pelo menos água para beber e tomar um banho antes de ir à urna votar". 

Esse Rios é mesmo um sábio. Mas tem gente perguntando algo muito mais simples:

“Quando é que vai voltar a água?”

Francisco Rios acredita ter encontrado o maior adversário eleitoral de Rafael Fonteles:

“O maior adversário do governador Rafael Fonteles é ele mesmo.”

Ou, mais precisamente, a falta d’água.

Pode ser apenas a opinião de um barbeiro. Mas é uma opinião que merece ser ouvida.

Porque, no fim das contas, eleição não é uma equação feita apenas de números. É também feita de sensações.

E poucas sensações são tão fortes quanto a de abrir a torneira e encontrar apenas ar.

Lata d’água na cabeça, lá vai Maria.

Setenta e quatro anos depois, parece que ela ainda não conseguiu chegar em casa.

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A NOTÍCIA E O FATO
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Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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