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Política QUESTÃO DE SEGURANÇA

Lula tem um abacaxi para descascar na montagem do Ministério da Segurança

Cotação de Camilo Santana para comandar a pasta provoca questionamentos sobre o legado do PT no Ceará, onde o Comando Vermelho ampliou sua presença e a violência supera o dobro da média nacional

04/11/2026 às 07h45 Atualizada em 04/11/2026 às 07h51
Por: Douglas Ferreira Fonte: Com informações DP
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O enfrentamento às facções precisa ser prioridade do governo - Foto: Reprodução/Imagem gerada por IA
O enfrentamento às facções precisa ser prioridade do governo - Foto: Reprodução/Imagem gerada por IA

O presidente Lula da Silva tem um baita abacaxi para descascar na montagem de seu novo ministério. A escolha do futuro titular da Segurança Pública promete abrir uma disputa dentro do próprio governo e expor uma contradição difícil de contornar: afinal, o presidente pretende colocar à frente da pasta alguém disposto a enfrentar o crime organizado ou um nome politicamente mais confortável para o PT?

A polêmica ganhou força depois que o promotor Lincoln Gakiya passou a ser citado como possível comandante de um eventual Ministério da Segurança Pública. Com mais de duas décadas dedicadas ao combate às facções criminosas e jurado pelo crime organizado, Gakiya representa uma escolha de enfrentamento direto a organizações como PCC e Comando Vermelho.

A simples possibilidade de sua indicação, entretanto, provocou movimentação nos bastidores petistas. O partido passou a arregimentar forças para evitar que a pasta fique sob o comando de alguém considerado independente demais dos interesses políticos da legenda. A disputa não é apenas por um cargo. É também pelo controle de uma área que deverá ocupar lugar central no debate eleitoral dos próximos anos.

A pergunta que começa a circular em Brasília é incômoda: o PT quer um ministro capaz de afrontar as facções ou prefere alguém que não represente uma ameaça direta aos interesses políticos que orbitam o poder? A dúvida ganhou ainda mais força com a possibilidade de indicação de Camilo Santana, ex-governador do Ceará e ex-ministro da Educação.

O problema é que o Ceará carrega um histórico preocupante. Durante a gestão de Camilo e também na administração de seu sucessor, o Estado enfrentou o avanço das organizações criminosas, especialmente do Comando Vermelho, cuja presença passou a preocupar autoridades e moradores. A situação levanta questionamentos sobre a capacidade de reação do poder público diante da expansão das facções.

No último fim de semana, o domínio territorial atribuído ao Comando Vermelho voltou ao centro das atenções. Integrantes da facção teriam cobrado taxas para permitir a comercialização de garrafões de água, numa demonstração assustadora de como o crime organizado pode interferir até nas atividades mais básicas da população. Quando criminosos passam a impor regras sobre o comércio e a circulação de mercadorias, o Estado enfrenta um problema que vai muito além das estatísticas policiais.

Os números também não ajudam a construir uma defesa do legado cearense. A taxa de homicídios do Estado é de 31,5 por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional, de 14,74, segundo o Mapa da Segurança Pública 2026. É um indicador que exige explicações e, sobretudo, resultados.

Camilo Santana, por sua vez, tem ambições políticas nacionais e é apontado como um dos nomes que podem disputar espaço na sucessão de Lula em 2030. Assumir a Segurança Pública poderia representar uma oportunidade de projeção. Mas também significaria carregar para o centro do debate nacional os resultados de sua passagem pelo governo cearense.

A contradição é evidente. Lula prometeu endurecer o combate ao crime organizado e tem repetido que a segurança pública precisa ser tratada como prioridade nacional. Se a escolha recair sobre Camilo, o governo terá de explicar por que considera adequado entregar uma das áreas mais sensíveis do país a um político cuja gestão estadual terminou marcada pelo avanço das facções.

A decisão ainda não está tomada, e a eventual indicação de Camilo não significa, por si só, qualquer compromisso com o crime organizado. Mas o histórico do Ceará é um elemento incontornável nessa discussão. O Brasil precisa de um ministro da Segurança Pública comprometido com o enfrentamento das facções, não de uma escolha destinada a acomodar disputas internas do PT. Lula terá de decidir de que lado quer estar nessa batalha.

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