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Política ELEIÇÕES 2026

O que fica depois das urnas?

O que fica depois das urnas? Que mensagem elas deixam para o país, além do resultado eleitoral?

03/11/2026 às 09h10
Por: Campelo Filho
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Certamente que uma eleição define a vitória de um candidato sobre o outro e, portanto, quem ocupará a presidência do país pelos próximos quatro anos. Mas, ao mesmo tempo, o que as urnas nos mostraram no último domingo revelam algo muito mais complexo. Não se trata apenas de uma vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro, do PT sobre o PL, da esquerda sobre a direita, do lulismo sobre o bolsonarismo.

E, se por um lado, a esquerda, liderada pelo Partido dos Trabalhadores, reafirmou sua força ao conquistar um quarto mandato, por outro, há que se reconhecer o fortalecimento da direita. E isso representa uma responsabilidade proporcional à dimensão desse avanço. Ao ampliar significativamente sua presença na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, o PL, e por extensão, a direita, passarão a ser cobrados não apenas como força de oposição ou voz de contestação. Passam a ser cobrados também como forças de construção.

A eleição mostrou que uma parcela maior dos eleitores (51,79%) escolheu Lula, mas também revela que quase metade dos votos válidos (48,21%) foi destinada a Flávio Bolsonaro, ou seja, o favoritismo da esquerda não significa o desaparecimento da direita. Significa que o eleitorado não está integralmente alinhado a um único campo político, tampouco definitivamente capturado pelo outro.

O que há, sobretudo, é um país dividido. E se milhões de pessoas votaram de maneira diferente, há mensagens que precisam ser compreendidas. A primeira delas é que reduzir as eleições de 2026 a uma disputa entre “direita e esquerda/bolsonaristas e lulistas” seria empobrecer a mensagem eleitoral. Outra é que os votos destinados à esquerda não podem ser reduzidos à mera resistência da direita ou ao “medo” do bolsonarismo. Da mesma forma, o avanço da direita no Congresso Nacional não representa só o fortalecimento de uma ideologia. Pode representar, também, uma manifestação de insatisfação, um desejo de mudança, uma cobrança por resultados, a rejeição de determinadas práticas políticas e a procura por novas respostas.

Não há mal nenhum nisso, como também não há mal na escolha da maioria dos brasileiros por mais um ano de governo de esquerda. Esse é o jogo político e estamos em uma democracia. Aqui, vai uma consideração importante: esse crescimento da direita não pode ser ignorado pela população, tampouco pelos partidos políticos, especialmente se considerarmos os últimos fatos pós-eleições envolvendo Flávio Bolsonaro. E independentemente das razões que levaram o senador a ir para os Estados Unidos – sem entrar no mérito de serem legítimas ou não – tal decisão pode também significar o começo do fim do bolsonarismo, considerando que ele era o principal representante da direita com seus quase 60 milhões de votos. Natural, portanto, que se tornasse a principal liderança opositora ao governo.

A incógnita agora é saber quem assumirá esse papel. Tarcísio de Freitas, governador reeleito de SP, é o nome da vez, mas não dá para fazer exercício de futurologia. Até porque, o que temos de fato é um país dividido, uma direita “órfã”, e um governo cheio de desafios pela frente economicamente, politicamente e institucionalmente falando.

Respondendo à pergunta que abre esse artigo: não se trata de uma mensagem apenas. Na verdade, são muitos ruídos e muitas perguntas difíceis de responder. Uma delas e talvez a mais difícil é: “o que o presidente reeleito pretende fazer com o poder que tem em mãos pela quarta vez?”.  Antes de tudo, é preciso compreender que esse poder lhe foi conferido pelo povo. Cabe-lhe, no mínimo, olhar para o país para além de qualquer ideologia, de polarização e partido político. É preciso compreender que a sociedade é muito maior do que os grupos que disputam o poder e dos percentuais que contabilizam votos.

O que existem são homens e mulheres, seres humanos e suas expectativas sobre um projeto para o país, com oportunidades de trabalho, serviços públicos melhores, segurança pública, educação, saúde, lazer, enfim, um Estado que funcione, um Estado próspero (só para usar a palavra de ordem durante a campanha eleitoral). Esse é o grande desafio dos políticos. Maior, até mesmo, do que vencer uma eleição.

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Sobre Francisco Soares Campelo Filho é advogado empresarial, professor, escritor e palestrante. É pós-doutor em Direito e Novas Tecnologias pelo Mediterranea International Centre for Human Rights Research, em Reggio Calabria, Itália. Doutor em Direito e Políticas Públicas pela UNICEUB, em Brasília-DF, Brasil, com cursos de extensão em ESG, Inovação e Transformação Tecnológica pela Sorbonne, em Paris, França, e em Proteção de Dados e Inteligência Artificial pela Faculdade de Jurisprudência da Universidade Sapienza, em Roma, Itália. Mestre em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), no Rio Grande do Sul, Brasil. É membro consultor da Comissão Especial de Proteção de Dados do Conselho Federal da OAB, diretor do Serviço Social do Comércio (SESC), Administração Regional do Estado do Piauí, e conselheiro do Serviço de Apoio às Pequenas e Microempresas (SEBRAE), representando a Federação do Comércio do Estado do Piauí (FECOMERCIO).
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