
Certamente que uma eleição define a vitória de um candidato sobre o outro e, portanto, quem ocupará a presidência do país pelos próximos quatro anos. Mas, ao mesmo tempo, o que as urnas nos mostraram no último domingo revelam algo muito mais complexo. Não se trata apenas de uma vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro, do PT sobre o PL, da esquerda sobre a direita, do lulismo sobre o bolsonarismo.
E, se por um lado, a esquerda, liderada pelo Partido dos Trabalhadores, reafirmou sua força ao conquistar um quarto mandato, por outro, há que se reconhecer o fortalecimento da direita. E isso representa uma responsabilidade proporcional à dimensão desse avanço. Ao ampliar significativamente sua presença na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, o PL, e por extensão, a direita, passarão a ser cobrados não apenas como força de oposição ou voz de contestação. Passam a ser cobrados também como forças de construção.
A eleição mostrou que uma parcela maior dos eleitores (51,79%) escolheu Lula, mas também revela que quase metade dos votos válidos (48,21%) foi destinada a Flávio Bolsonaro, ou seja, o favoritismo da esquerda não significa o desaparecimento da direita. Significa que o eleitorado não está integralmente alinhado a um único campo político, tampouco definitivamente capturado pelo outro.
O que há, sobretudo, é um país dividido. E se milhões de pessoas votaram de maneira diferente, há mensagens que precisam ser compreendidas. A primeira delas é que reduzir as eleições de 2026 a uma disputa entre “direita e esquerda/bolsonaristas e lulistas” seria empobrecer a mensagem eleitoral. Outra é que os votos destinados à esquerda não podem ser reduzidos à mera resistência da direita ou ao “medo” do bolsonarismo. Da mesma forma, o avanço da direita no Congresso Nacional não representa só o fortalecimento de uma ideologia. Pode representar, também, uma manifestação de insatisfação, um desejo de mudança, uma cobrança por resultados, a rejeição de determinadas práticas políticas e a procura por novas respostas.
Não há mal nenhum nisso, como também não há mal na escolha da maioria dos brasileiros por mais um ano de governo de esquerda. Esse é o jogo político e estamos em uma democracia. Aqui, vai uma consideração importante: esse crescimento da direita não pode ser ignorado pela população, tampouco pelos partidos políticos, especialmente se considerarmos os últimos fatos pós-eleições envolvendo Flávio Bolsonaro. E independentemente das razões que levaram o senador a ir para os Estados Unidos – sem entrar no mérito de serem legítimas ou não – tal decisão pode também significar o começo do fim do bolsonarismo, considerando que ele era o principal representante da direita com seus quase 60 milhões de votos. Natural, portanto, que se tornasse a principal liderança opositora ao governo.
A incógnita agora é saber quem assumirá esse papel. Tarcísio de Freitas, governador reeleito de SP, é o nome da vez, mas não dá para fazer exercício de futurologia. Até porque, o que temos de fato é um país dividido, uma direita “órfã”, e um governo cheio de desafios pela frente economicamente, politicamente e institucionalmente falando.
Respondendo à pergunta que abre esse artigo: não se trata de uma mensagem apenas. Na verdade, são muitos ruídos e muitas perguntas difíceis de responder. Uma delas e talvez a mais difícil é: “o que o presidente reeleito pretende fazer com o poder que tem em mãos pela quarta vez?”. Antes de tudo, é preciso compreender que esse poder lhe foi conferido pelo povo. Cabe-lhe, no mínimo, olhar para o país para além de qualquer ideologia, de polarização e partido político. É preciso compreender que a sociedade é muito maior do que os grupos que disputam o poder e dos percentuais que contabilizam votos.
O que existem são homens e mulheres, seres humanos e suas expectativas sobre um projeto para o país, com oportunidades de trabalho, serviços públicos melhores, segurança pública, educação, saúde, lazer, enfim, um Estado que funcione, um Estado próspero (só para usar a palavra de ordem durante a campanha eleitoral). Esse é o grande desafio dos políticos. Maior, até mesmo, do que vencer uma eleição.
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