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Listas negras, boicote e intolerância política: a perigosa lógica de transformar divergências ideológicas em perseguição empresarial

Cláudio Humberto resgata episódios históricos para questionar a tentativa de identificar, expor e constranger empresários por suas posições políticas. Da Alemanha nazista aos episódios de boicote envolvendo marcas brasileiras, a discussão vai além do consumo: trata-se dos limites da intolerância política e do direito de discordar sem sofrer retaliações.

02/11/2026 às 13h16 Atualizada em 02/11/2026 às 13h34
Por: Douglas Ferreira
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As listas criadas na Alemanha nazista chegaram o Brasil com os esquerdistas - Foto: Reprodução/Arte
As listas criadas na Alemanha nazista chegaram o Brasil com os esquerdistas - Foto: Reprodução/Arte

Cláudio Humberto resgata episódios históricos para questionar a tentativa de identificar, expor e constranger empresários por suas posições políticas. Da Alemanha nazista aos episódios de boicote envolvendo marcas brasileiras, a discussão vai além do consumo: trata-se dos limites da intolerância política e do direito de discordar sem sofrer retaliações.

A coluna Poder, Política e Bastidores, do jornalista Cláudio Humberto, publicada nesta segunda-feira (2), traz uma reflexão que merece ser examinada com atenção. O assunto é a reação de consumidores que passaram a defender boicotes a empresas cujos proprietários manifestaram apoio político a Lula ou participaram de manifestações favoráveis ao Partido dos Trabalhadores.

Mas a discussão levantada pelo colunista vai muito além de comprar ou deixar de comprar determinado produto. O ponto central está na identificação pública de empresários, na circulação de listas com nomes de empresas e na tentativa de transformar preferências políticas em instrumentos de constrangimento comercial.

Campanha nazista contra os comerciantes judeuz - Foto: Reprodução

A pergunta é: qual é o limite entre a liberdade de escolha do consumidor e a perseguição ideológica? Um cidadão tem o direito de deixar de frequentar uma empresa por discordar das posições políticas de seu proprietário? Evidentemente. Da mesma forma, o empresário tem o direito de manifestar suas convicções, apoiar candidatos e participar do debate público. O problema começa quando a divergência deixa de ser manifestação individual e passa a alimentar campanhas de intimidação, ameaças ou retaliações.

É justamente nesse ponto que Cláudio Humberto estabelece uma comparação histórica bastante forte: a perseguição aos comerciantes judeus durante a Alemanha nazista. A analogia exige contextualização, porque os acontecimentos históricos tiveram dimensões e consequências incomparavelmente mais graves. Mas a reflexão sobre a identificação pública de pessoas por sua origem, crença ou posicionamento e sua posterior exposição ao constrangimento merece ser discutida.

Vamos aos pontos levantados pelo jornalista.

1. A lista negra: quando a divergência política vira instrumento de exposição

O primeiro ponto da coluna é também o mais delicado. Cláudio Humberto afirma que uma força-tarefa ligada ao governo Lula estaria envolvida na elaboração de listas de pessoas e empresas que não desejam manter relações comerciais com determinados grupos políticos.

A denúncia merece atenção porque uma lista dessa natureza pode assumir diferentes finalidades. Uma coisa é organizar informações públicas para que consumidores exerçam livremente suas escolhas. Outra, completamente diferente, é identificar empresários, comerciantes e profissionais para constrangê-los, intimidá-los ou estimular retaliações por suas convicções políticas.

A discussão ganhou dimensão nacional. Em 30 de outubro, a Agência Brasil noticiou que entidades empresariais, representantes da OAB e o Ministério Público do Trabalho manifestaram preocupação com a disseminação de listas destinadas a identificar empresas e profissionais por suas preferências político-partidárias.

Portanto, não se trata apenas de uma disputa entre consumidores e empresários. Existe uma preocupação institucional com os limites da liberdade de expressão, da atividade econômica e da discriminação política.

2. A comparação com a Alemanha nazista: o precedente histórico

Aqui está o trecho mais forte da argumentação de Cláudio Humberto.

O jornalista recupera o episódio de 1º de abril de 1933, quando o regime nazista promoveu um boicote nacional aos estabelecimentos pertencentes a judeus. Antes da campanha, os nazistas prepararam listas de comerciantes. Depois, integrantes das organizações do regime foram colocados diante das lojas para intimidar clientes e proprietários. Vitrines receberam inscrições discriminatórias e a Estrela de Davi passou a ser utilizada para identificar estabelecimentos judaicos.

Não estamos falando de uma simples campanha de consumo. Era uma política de perseguição antissemita organizada pelo Estado, que contribuiu para a exclusão econômica e social dos judeus alemães e integrou o processo histórico que culminaria no Holocausto.

O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos documenta detalhadamente esse episódio, inclusive a preparação das listas de estabelecimentos e a intimidação dos consumidores.

A comparação feita por Cláudio Humberto deve ser compreendida como um alerta sobre mecanismos de identificação e exclusão, não como afirmação de que os episódios brasileiros tenham a mesma dimensão ou equivalência histórica.

O ensinamento é importante: quando a identificação de pessoas por suas convicções passa a servir de instrumento de intimidação econômica, a sociedade precisa discutir seriamente os limites dessa prática.

3. Madero e Havan: empresários identificados por suas posições políticas

O colunista cita inicialmente duas empresas: Madero e Havan.

O Madero, fundado por Junior Durski, e a Havan, de Luciano Hang, estiveram entre as marcas brasileiras que enfrentaram campanhas de boicote em 2020, em meio à polarização política durante o governo Jair Bolsonaro.

Naquele período, manifestações públicas de apoio ao presidente por parte de empresários passaram a provocar reações de consumidores que defendiam deixar de comprar dessas marcas.

A revista Veja registrou, em junho de 2020, que Havan, Madero, Centauro, Riachuelo, Smart Fit, Bio Ritmo e outras empresas estavam sendo atingidas por ameaças de boicote relacionadas ao posicionamento político de seus controladores ou fundadores.

O que Cláudio Humberto procura demonstrar é que a exposição empresarial por razões ideológicas não começou agora. O fenômeno já estava presente na polarização de 2020 e, segundo sua interpretação, volta a ganhar força com a inversão do ambiente político.

O ponto central não é impedir que consumidores escolham onde gastar seu dinheiro. É questionar a transformação da divergência política em campanha de hostilidade contra pessoas e negócios.

4. Riachuelo: quando a posição do acionista entra na vitrine

A segunda referência é a Riachuelo, varejista cujo acionista majoritário, Flávio Rocha, tornou públicas posições conservadoras e liberais na economia.

Cláudio Humberto afirma que a empresa entrou na chamada lista negra em razão dessas posições.

O exemplo chama atenção porque revela uma questão importante: até que ponto a identidade política de um acionista deve determinar a relação do consumidor com uma empresa que emprega milhares de trabalhadores e atende milhões de brasileiros?

Uma empresa não se confunde automaticamente com todas as opiniões pessoais de seus controladores. Da mesma forma, o consumidor não é obrigado a separar completamente suas escolhas comerciais de suas convicções pessoais.

O que precisa ser preservado é o direito de ambos existirem sem ameaças, constrangimentos ou tentativas de silenciamento.

5. Smart Fit e Bio Ritmo: a política ultrapassa os limites das academias

Cláudio Humberto utiliza uma expressão em latim, Mens sana in corpore sano, que significa mente sã em corpo são, para introduzir outro exemplo: as redes Smart Fit e Bio Ritmo, associadas ao empresário Edgard Corona.

Segundo o colunista, as empresas também foram alvo de manifestações de rejeição depois que o fundador foi identificado como alguém de direita.

O episódio expõe uma contradição que merece reflexão. Academias são estabelecimentos comerciais destinados à atividade física, à saúde e ao bem-estar. Seus clientes possuem diferentes opiniões políticas, crenças e convicções.

Por que transformar a posição ideológica de um empresário em motivo para hostilizar uma rede de academias?

A liberdade de pensamento não deveria ser condicionada à atividade profissional, ao patrimônio ou à orientação política de quem empreende.

6. Coco Bambu e Centauro: a extensão da disputa ideológica

O colunista encerra sua relação de exemplos citando Coco Bambu e Centauro.

No primeiro caso, uma rede de restaurantes. No segundo, uma das conhecidas varejistas do segmento esportivo.

As duas marcas também apareceram entre as empresas atingidas pela polarização política de 2020, quando seus fundadores ou controladores foram associados a posições favoráveis ao governo Bolsonaro.

Cláudio Humberto sustenta que essas empresas passaram a enfrentar campanhas de rejeição por suas ligações com empresários identificados com ideias liberais e conservadoras.

O argumento é que o ambiente de intolerância política não se restringe aos grandes nomes da política nacional. Ele alcança o comércio, os serviços, o empreendedorismo e, consequentemente, os trabalhadores que dependem dessas atividades.

Uma campanha de boicote pode atingir muito mais gente do que o empresário que se tornou seu alvo. Funcionários, fornecedores, prestadores de serviços e pequenos comerciantes ligados à cadeia produtiva também podem sofrer consequências.

Esse é um aspecto econômico que não pode ser ignorado.

7. A inversão de posições: quando o boicote muda de lado

Existe ainda uma questão política importante na reflexão de Cláudio Humberto.

Em 2020, empresários identificados com o bolsonarismo foram alvo de campanhas de boicote. Agora, com a mudança do cenário político, surgem iniciativas que procuram identificar empresários associados ao petismo e ao apoio a Lula.

A discussão revela como a polarização pode transformar relações comerciais em extensões das disputas eleitorais.

Mas existe uma distinção fundamental: o direito individual de boicotar uma empresa não significa autorização para ameaçar, perseguir ou constranger seus proprietários, funcionários e clientes.

Esse princípio precisa valer independentemente de quem esteja no governo, de quem seja o empresário e de qual candidato tenha recebido seu apoio.

Não existe liberdade de expressão apenas para quem pensa como nós. E não existe liberdade econômica apenas para quem defende o nosso lado político.

8. A questão mais grave: existe participação do governo na elaboração dessas listas?

Aqui está um ponto que merece investigação específica.

Cláudio Humberto atribui ao governo Lula uma força-tarefa destinada à elaboração de listas negras. Entretanto, os exemplos históricos de boicotes empresariais, por si só, não comprovam a existência dessa estrutura governamental nem demonstram quem organizou as listas atualmente mencionadas.

É necessário identificar os responsáveis, a origem dos dados, a finalidade da iniciativa e eventual participação de agentes públicos.

Se houver utilização de estruturas governamentais para identificar cidadãos ou empresas por suas preferências políticas e estimular retaliações, estaremos diante de uma questão institucional de grande gravidade.

O Estado não pode funcionar como instrumento de perseguição ideológica. A administração pública deve servir à sociedade inteira, não apenas aos grupos que apoiam o governo de ocasião.

O que fica da reflexão de Cláudio Humberto?

A coluna apresenta uma discussão que não deveria ser tratada como simples provocação partidária. O problema da intolerância política não pertence exclusivamente à direita ou à esquerda. É uma questão de princípios democráticos.

O cidadão pode escolher onde comprar. Pode deixar de frequentar um restaurante, uma academia ou uma loja. Pode criticar um empresário e discordar publicamente de suas posições. Da mesma forma, o empresário pode apoiar Lula, Bolsonaro, Flávio ou qualquer outro candidato, dentro dos limites da lei.

O que não pode ser naturalizado é a transformação da divergência em perseguição, da exposição em intimidação e da liberdade de escolha em instrumento de destruição da reputação alheia.

A lembrança da Alemanha nazista é historicamente muito séria. O boicote aos estabelecimentos judaicos, em 1933, não foi uma simples disputa comercial: foi uma ação organizada de exclusão racial, acompanhada de violência e perseguição estatal. A comparação com episódios contemporâneos deve respeitar essa diferença histórica, sem perder de vista os perigos de práticas de identificação e hostilidade coletiva.

A liberdade que só vale para quem pensa igual não é liberdade. É privilégio ideológico.

E fica uma pergunta que deveria incomodar todos os brasileiros, independentemente de suas preferências eleitorais: se amanhã uma lista identificar empresas e profissionais por suas posições políticas, quem garante que o próximo alvo não será alguém que simplesmente pensa diferente de quem está no poder?

A democracia não pode transformar o pensamento divergente em motivo de punição. Esse é o debate que precisa ser enfrentado.

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