
Os laços de amizade entre Lula e a família Fonteles remontam ao tempo em que o hoje governador Rafael Fonteles ainda era um moleque de calças curtas. Isso é fato. Nas passagens de Lula pelo Piauí, o então deputado federal Nazareno Fonteles era um dos anfitriões. O pequeno Rafa circulava entre os adultos, ouvia conversas políticas e até posava para fotografias no colo do atual presidente da República. O menino cresceu, entrou para a política, chegou ao Palácio de Karnak e Lula acaba de conquistar um quarto mandato presidencial, um feito histórico.
Rafael, por sua vez, teve participação elogiada na campanha petista. Não apenas pela expressiva votação de Lula no Piauí, nos dois turnos, mas também por sua atuação na coordenação nacional durante o segundo turno. Era natural, portanto, que o governador e seus aliados alimentassem expectativas de reconhecimento político. O problema começou quando a expectativa passou a ser tratada como possibilidade concreta de ocupar um dos cargos mais importantes da República: o Ministério da Fazenda.
Os mais afoitos chegaram a alardear um suposto convite de Lula para que Rafael Fonteles assumisse o comando da economia brasileira. A notícia ganhou espaço na imprensa, atravessou fronteiras estaduais e repercutiu nacionalmente. Mas uma pergunta elementar ficou sem resposta: o convite existiu de fato? Lula chegou a conversar com Rafael sobre o assunto? O nome do governador foi efetivamente colocado na mesa? Houve alguma sondagem por meio de interlocutores do presidente?
Ao que tudo indica, não. Segundo a coluna de Cláudio Humberto, o nome de Rafael sequer estaria sendo discutido nos círculos petistas ou no Planalto. A escolha do ministro da Fazenda seria uma decisão pessoal de Lula, que não teria feito convite algum ao governador piauiense. Mais do que isso: o excesso de declarações sobre a possibilidade de assumir o ministério teria provocado incômodo no presidente. A leitura atribuída a aliados é que Fonteles estaria testando a receptividade do mercado financeiro e, de alguma maneira, tentando emparedar Lula publicamente. Uma estratégia que, se foi essa mesmo, parece ter produzido o efeito contrário.
O episódio lembra uma passagem protagonizada pelo saudoso governador Alberto Silva, mestre na arte de lidar com os personagens e as vaidades da política. Conta-se que, quando algum político ou liderança chegava insinuando-se para uma secretaria, perguntando se era verdade que estava cotado para integrar o governo, Alberto devolvia a pergunta: “O que estão dizendo nos bastidores?”. O interlocutor respondia: “Que o senhor vai me convidar para uma secretaria. O que digo a eles?”. E vinha a resposta, que entrou para o folclore político piauiense: “Ora, diga que eu o convidei, mas que você não aceitou o cargo”. Simples assim. Esse era o Dr. Alberto.
A diferença é que, naquela história, Alberto Silva tinha o controle da situação e sabia administrar a vaidade dos interessados. No caso de Rafael, a impressão é que os entusiastas da indicação se anteciparam ao próprio Lula. E política tem dessas coisas: uma conversa que nunca aconteceu pode ganhar manchetes, produzir expectativas e, depois, deixar constrangimentos quando a realidade bate à porta.
Mas há outros elementos na reportagem de Cláudio Humberto. Petistas também estariam avaliando o impacto de uma eventual saída de Rafael do governo do Piauí logo no início do mandato, além das alianças políticas construídas no Estado. Há, ainda, dúvidas sobre a capacidade de Washington Bandeira, vice-governador eleito na chapa de Fonteles, de assumir o comando do Executivo estadual e manter a unidade política do grupo. Ou seja, a sucessão no Karnak também entra na equação de uma eventual mudança para Brasília.
Nesse cenário, uma das possibilidades mencionadas é que Rafael permaneça no governo estadual por mais um ou dois anos, até que surja uma oportunidade de integrar a Esplanada dos Ministérios. Mas convém não confundir possibilidade com convite, muito menos expectativa com compromisso presidencial. Até aqui, o que existe é uma hipótese, não uma nomeação em gestação.
E Lula, o que pensa de toda essa movimentação? Terá a mesma sagacidade de Alberto Silva para perceber quando alguém tenta transformar uma especulação em fato consumado? O presidente conhece a política como poucos e não costuma entregar um ministério estratégico apenas para satisfazer expectativas regionais ou recompensar entusiasmo eleitoral. A Fazenda, sobretudo, não é secretaria de governo estadual nem prêmio de consolação para aliado.
Rafael Fonteles, ao que parece, já percebeu a frieza do Planalto e tratou de esclarecer que não recebeu convite para assumir o ministério. Demorou, porém, a desfazer os rumores. E, na política, o silêncio prolongado também comunica. A impressão que fica é a de que houve mais entusiasmo entre os admiradores piauienses do que disposição concreta no Palácio do Planalto.
No fim das contas, o governador pode até chegar à equipe de Lula. Um ou dois anos, quem sabe. Mas, por enquanto, a Fazenda continua sendo uma cadeira cuja chave está exclusivamente nas mãos do presidente. E há uma velha lição da política que Rafael talvez deva guardar: antes de anunciar a viagem, é prudente confirmar se o convite foi mesmo feito.
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