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Editorial ​Crônica 21

O Boqueirão: Epopeia da Memória e do Tempo

​O Caminho dos Ventos e da Poeira

31/10/2026 às 11h25
Por: Arthur Feitosa Fonte: ​Por Arthur Feitosa
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O Boqueirão: Epopeia da Memória e do Tempo

​Ir à Fazenda Boqueirão do Adolfo, encravada no coração da zona rural de José de Freitas, era, em meados dos anos 1960, um verdadeiro rito de passagem que desafiava a geografia, as distâncias e o próprio tempo. O trajeto já se iniciava como uma grande aventura a bordo do famoso “pau de arara” do Seu Antônio Oliveira, aquele veículo quase fabuloso, misto de caminhão de carga e transporte de gente. A estrada de piçarra, entregue ao esquecimento no trecho entre a Estaca Zero (onde a via dobrava rumo a José de Freitas) e o povoado Mocambo, desenhava-se nas duras “costelas de vaca”: ondulações implacáveis no chão que impunham um ritmo lento, rasteiro, em que tentar passar de quarenta quilômetros por hora era pedir para o caminhão desmontar pelo caminho.

​Ainda assim, havia uma alegria contagiante e inesquecível em viajar na companhia do Seu Antônio. A carroceria de madeira era dividida com engenho: na frente, a parte coberta abrigava os bancos compridos, com duas portinhas nas laterais de cada fileira; nos fundos, num espaço aberto, as mercadorias de todo tipo viajavam numa convivência animada e barulhenta com perus, bodes, carneiros, porcos, galinhas e capotes destinados às feiras do Mercado Central de Teresina. Sobre a cabine de madeira, erguia-se um cercadinho com grades de ferro onde se empilhavam sacos pesados de arroz, açúcar, feijão e rolos de fumo, uma infinidade de gêneros que viravam sustento e dinheiro vivo nas feiras da capital ou de José de Freitas, o destino final daquela jornada. Havia também a opção de fazer o trajeto no ônibus do Zé Chaves; contudo, aquele veículo parecia não ter alma e não oferecia graça alguma. A verdadeira iniciação da infância estava mesmo no vento batendo forte no rosto e na coragem ingênua de viajar naquele cercadinho no alto da cabine, sem cinto nem segurança, onde íamos de peito aberto, confiando apenas na mão da Providência Divina a nos segurar pelo caminho.

​A parada no Mocambo era o ponto de virada obrigatório. Ali o motor finalmente silenciava e o restante do caminho exigia a calma do lombo de um burro ou o maior dos luxos possíveis para a época: o balanço manso e cadenciado de uma carroça puxada a animais rumo à Fazenda Boqueirão do Adolfo. A jornada valia cada solavanco, e os doze quilômetros que separavam o povoado da Casa Grande eram vencidos com entusiasmo e uma ansiedade boa no peito. Era ali que os netos do Coronel Adolfo de Araripe Sales se lambuzavam nas férias de fim de ano. E que férias extraordinárias! As aulas se encerravam no final de novembro e só voltavam no fim de fevereiro, presenteando a meninada com três meses inteiros de pura e ininterrupta liberdade.

​Os dias começavam bem cedo, com um banho gelado e revigorante nas águas do açude, seguido por uma corrida animada no imenso “mangal”. Ali, numa disputa de corrida quase infantil com vacas e touros pelo pasto, buscávamos cada “manguito do correio” que despencava das galhas das gigantescas e seculares árvores frutíferas daquela espécie. Em seguida, a fome apertada nos guiava em disparada à Casa Grande, onde o cheiro gostoso e inconfundível do café torrado na hora se espalhava pelo ar e tomava conta de todo o terreiro.

​O Coração da Morada e o Banquete Patriarcal

​Na imensidão daquela casa com mais de trinta e cinco cômodos, o verdadeiro coração da vida familiar batia na cozinha. O destaque absoluto era o monumental fogão a lenha de doze bocas, feito sob medida: começava numa primeira boca bem miúda, feita para acomodar a bunda de um bule de alumínio, e ia crescendo em tamanho até chegar à maior panela de ferro fundido, onde cozinhavam os fartos guisados servidos no almoço.

​O almoço era uma verdadeira reunião de festa, servido numa mesa enorme de madeira de lei, cercada de ponta a ponta por compridos bancos de madeira para acomodar a penca de filhos e netos. Nas cabeceiras, postado com seu porte calmo e respeitado, reinava o vovô Adolfo, exercendo sua autoridade sem precisar erguer a voz. O Coronel Adolfo de Araripe Sales, com a cabeça branquinha de cabelo parecendo neve, trazia nos olhos azuis uma poesia e uma profundeza tão marcantes que ninguém, por mais distraído que fosse, conseguia passar sem parar para admirar seu olhar.

​A mesa vivia posta com fartura, e a comida caseira da fazenda era o maior deleite dos netos. Foi ali que aprendemos a gostar do tempero forte e autêntico da nossa terra: o guisado saboroso de bode ou carneiro apurado no leite de coco fresco, a galinha caipira ou o capote ao molho pardo, o assado de leitão com a pele estalando de tão pururuca e os famosos sarapateus de Dona Conceição, prato tradicionalíssimo feito com todo o esmero no preparo dos miúdos de bode e carneiro.

​A Fortaleza do Alto do Morro

​Construída bem no topo do morro e abençoada pela sombra generosa de um majestoso tamboril secular, a Casa Grande trazia em suas pedras as marcas vivas do século XVII. Adquirida pelo Coronel Adolfo de Araripe Sales das mãos do ex-governador Miguel Rosa, ela exibia uma fachada imponente. A entrada principal se dava por uma gigantesca porta de duas folhas, feita do mais puro cedro, que impressionava a todos não só pelo tamanho, mas pela chave monumental que abria a fechadura do casarão.

​Uma escadaria de pedra maciça, com degraus firmes e bem alinhados, subia suavemente até a varanda de entrada. Essa escada era emoldurada por um guarda-corpo de madeira trabalhado com capricho por artesãos da região. De cada lado dos degraus, frondosos pés de sapoti espalhavam uma sombra boa e frutos doces que viravam motivo de gritaria e disputas rápidas entre a primaiada.

​Ao cruzar a porta de entrada, o casarão revelava um mundo de salas compridas, alpendres arejados e depósitos de suprimentos. Ponto de grande respeito e devoção era a sala do altar, onde Dona Conceição, nossa querida e adorada vozinha, puxava os terços, as ladainhas e as orações em gratidão ao Divino. Logo atrás do altar ficava o quarto do casal. A partir dali, dobrando pelas alas da casa, espalhava-se uma infinidade de quartos, saletas e outros cômodos por aquele casarão de paredes grossas, erguidas em pedra de fogo, blocos cortados e encaixados com argamassa numa precisão incrível, difícil de imaginar como foi feita sem as ferramentas da engenharia moderna. Nos armários de madeira, cheios de molduras e entalhes, trancados a chave por fora e por dentro, guardavam-se as porcelanas chinesas mais finas, relíquias preciosas que só saíam das prateleiras em dias de grande festa.

​A Casa de Farinha, a Boladeira e o Rito das Farinhadas

​Ao lado do casarão principal, mantendo o mesmo porte, erguia-se a casa de farinha. Era ali que tomavam vida as tradicionais farinhadas, ocorrendo em especial entre os meses de junho e agosto. Durante todo o mês de julho, o tempo era dedicado exclusivamente a colher as enormes roças de mandioca do Coronel Adolfo.

​Nessa época, a casa de farinha se transformava num galpão fervilhante de movimento. Ali reluziam os fornos de chapa de ferro sob o calor do fogo a lenha, as gamelas de madeira nobre entalhadas à mão e as redes de pano murim, costuradas para lavar a massa e separar a goma fresca da mandioca que iria virar farinha. Para triturar as raízes no caititu, o motor da casa era a boladeira: uma engrenagem rústica e essencial que rodava sem parar, movida pela força dos bois e pela batida certa dos tocadores.

​Para espremer a massa já lavada, entrava em cena a prensa de madeira dura e resistente. Ela segurava os fardos de massa empilhados em sacos, uns sobre os outros, que eram apertados no braço e no suor com a força de um grosso parafuso de pau-d'arco. Esse trabalho pesado exigia a força braçal de caboclos calejados na lida da roça, que iam apertando a madeira até escorrer toda a água e a massa ficar no ponto perfeito para peneirar e torrar no forno.

​No fim de julho, comemorando a fartura da safra do Coronel, acontecia a inesquecível “beijuzada”. Era um dia de festa comunitária para celebrar o bom trabalho com todo mundo que ajudou: as mulheres que passavam o dia lavando a massa na goma, os torradores na beira do forno quente, os tocadores de boi da boladeira, os homens da prensa e toda a família reunida. Tudo servido com fartura: beiju quentinho feito na hora com coco babaçu, café fresco coado sem parar, leite tirado no curral e o autêntico queijo coalho produzido na própria fazenda.

​A farinha pronta era guardada em baús gigantescos de madeira, com cerca de dois metros de altura por seis de comprimento, com tampas pesadas que abriam por um sistema de catracas e cordas. Para nós, as crianças, aqueles baús enormes e escuros viravam o esconderijo perfeito nas brincadeiras de pira-esconde pela imensidão do casarão.

​O Engenho e o Doce Canavial

​Do alto do morro, espiando pelas janelas da Casa Grande, tinha-se uma vista privilegiada da baixada, onde o canavial parecia não ter fim. Era de lá que vinha a cana-de-açúcar cortada para alimentar o engenho e produzir o mel, o vinagre, a rapadura, o alfinim, a cocada e, acima de tudo, a cachaça cheirosa destilada nos alambiques de cobre.

​Para a garotada, o engenho era um parque de diversões. Ficávamos ao pé da moenda tomando copos e mais copos de caldo de cana docinho, do jeito que criança gosta. O engenho de ferro era grande e movido por uma parelha de bois fortes, submetidos a uma rotina severa: os animais passavam o dia girando em círculos para fazer rodar as engrenagens de ferro. Tinas enormes de madeira recolhiam o caldo que jorrava e virava matéria-prima para todas aquelas doçuras. Era comum ver um de nós, primos, passar o dia com uma vara comprida de bambu na mão, atiçando os bois para não deixarem o ritmo cair, uma farra simples e divertida que só acabava quando a vó Conceição gritava do alpendre chamando todo mundo para almoçar.

​A Adolescência, a Paquera e o Forró de Sábado de Aleluia

​O tempo voou e dez anos se passaram: chegávamos a 1974. Vovô Adolfo já tinha partido para o céu há algum tempo, e vovó Conceição logo foi fazer-lhe companhia na eternidade. O que ficara para trás era uma constelação de memórias vivas que nem o tempo nem a distância conseguiriam apagar. No Boqueirão, sentia-se a falta do olhar calmo do velho patriarca, mas muitos tios e tias fincaram pé na terra dos pais e mantiveram a casa aberta. A essa altura, as terras já tinham sido divididas entre os dezesseis herdeiros daquela família numerosa. Tios e tias recebiam de braços abertos a enxurrada de sobrinhos que vinham de Teresina, José de Freitas, Altos e Campo Maior para passar as férias, o Carnaval e, principalmente, a Semana Santa.

​Naqueles anos 1970, a vida fluia num ritmo mais leve e sem sobressaltos. Nossos pais tinham uma única cobrança na cabeça: nossos estudos, para que tivéssemos uma profissão e independência num país que prometia crescer e mudar rápido. Entregues os boletins e cumprida a obrigação da escola, corríamos para o Boqueirão. Nessa época, o velho "pau de arara" do Seu Antônio já tinha sido aposentado e substituído pelo ônibus fechado, um transporte sem graça e sem poeira, mas que fazia a viagem bem mais rápido graças ao asfalto novo na estrada até José de Freitas.

​Já crescidos e descobrindo que melhor do que tocar boi no engenho era reparar nas primas, que o tempo tinha transformado em verdadeiras moças bonitas, logo percebemos que elas também traziam amigas da cidade. E a Semana Santa daquela época, que era sagrada e durava sete dias inteiros de folga, dava tempo de sobra para iniciar uma paquera, cultivar um dengo e tentar engatar um namoro que culminasse na grande festa do Sábado de Aleluia.

​Apesar da cabeça já voltada para os namoricos, a gente não perdia o gosto pelas farras de infância. Os dias passavam soltos e sem pressa: banhos demorados nas águas geladas do açude do Pocim, caminhadas de exploração no segundo mangal e saques constantes aos pés carregados de seriguela e tangerina. As fruteiras sofriam com a nossa fome de leão, pois nada parecia suficiente para encher a barriga de uma mocidade que não parava um segundo quieta.

​O cair da tarde chegava quando o sol, já manso, ia se escondendo por trás do contorno da Serra da Ema. Era o sinal combinado para correr para o banho, caprichar na alfazema e no sabonete cheiroso e arrumar o cabelo para tentar chamar a atenção de alguma prima ou amiga. A trilha sonora daquele tempo era embalada pelas canções de aventura do Roberto Carlos, tocadas numa vitrola a pilha — quatro pilhas grandes e pesadas que mal aguentavam tocar seis horas de música antes de darem o último suspiro.

​O grande ponto de encontro da paquera era um areal fininho na beira da estrada, bem em frente ao campo de futebol de Manoel Tomaz, comerciante do povoado. Ali, trajando nossas calças boca de sino com fivelas prateadas no cinto e calçando tênis Bamba ou Kichute tinindo de limpos, ficávamos desfilando de um lado para o outro na esperança de fisgar um olhar de cobiça das moças. Foi numa dessas Semanas Santas que apareceu na casa da Tia Dona uma prima dos meus primos pelo lado materno: Geisa, uma loirinha sardenta, de olhos claros e feições desenhadas. O encanto foi imediato. Fiquei caidinho por ela na hora, mesmo sem ter a menor garantia se teria alguma chance naquele jogo.

​À noite, nas brincadeiras de roda que inventávamos no terreiro sob a luz do luar, enxerguei a brecha perfeita para me aproximar daquela menina que não saía do meu pensamento. A brincadeira era clássica: alguém ficava de olhos vendados e tinha que adivinhar, no tato e na intuição, quem estava em sua frente. Se acertasse, tinha o direito de escolher um prêmio entre três frutas: Pêra, Uva ou Maçã. Pêra valia um simples aperto de mão; uva rendia um abraço apertado (o que já esquentava as coisas); mas a maçã... ah, a maçã valia um beijo na boca, o passaporte carimbado para o namoro.

​Enxergando ali a oportunidade da minha vida, armei uma tática com a Teté, minha prima querida por quem eu e meus irmãos tínhamos um carinho enorme. Como a Teté era prima da Geisa por parte de mãe, não pensei duas vezes: pedi para ela dar um pisaço no meu pé no exato instante em que a loirinha parasse na minha frente. Dito e feito. Mal senti o pisão da Teté no meu tênis e já soltei o grito antes mesmo de tirar a venda: "Maçã!". O beijo estalou ali mesmo, doce e desejado, selando o nosso namoro na mesma hora.

​Logo em seguida vinha o esperado baile do Sábado de Aleluia, e a noite se enchia de luz, sonhos e uma paixão bonita que só a juventude consegue viver sem pensar no amanhã. Por quatro ou cinco Semanas Santas seguidas, o meu par certo e exclusivo foi aquela mesma loirinha do beijo da maçã. No salão decorado, ao som vivo de sanfona, zabumba e triângulo, enquanto todo mundo se acabava num forró arrastado e frenético, eu e ela dançávamos num ritmo só nosso, de rostinho colado e corpo colado, para espanto de quem olhava. Ninguém entendia como a gente conseguia dançar tão devagarzinho e apaixonadamente no meio daquele xote estridente que fazia tremer até as palhas do telhado do galpão. O que ninguém sabia é que para nós o som da banda nem chegava aos ouvidos; a verdadeira música era o compasso acelerado dos nossos corações batendo no peito e o abraço apertado de dois corpos entregues àquela poesia simples que só quem já esteve jovem e apaixonado sabe o que é.

​Mas como todo mar de rosas tem seu espinho, algo me intrigava e me deixava desconcertado: toda aquela paixão e cumplicidade pareciam evaporar assim que chegava a tarde do domingo. Na hora de arrumar as malas para voltar à rotina da cidade, a mocinha do beijo da maçã vinha até mim, conversava com a maior calma do mundo e terminava o namoro. Voltava leve e solta para a vida dela, para só reaparecer, linda e sorridente, na Semana Santa do ano seguinte. Com o tempo, aprendi que é bobagem tentar decifrar o que se passa no coração e na cabeça de uma mulher bonita.

​Foi assim que se moldaram os tempos inesquecíveis da Fazenda Boqueirão do Coronel Adolfo, meu avô. Se hoje nos fosse dado o milagre de voltar àquele tempo, mas carregando a cabeça e a vivência de agora, com certeza nada teria sido tão puro, tão mágico nem deixaria uma marca tão profunda e eterna em nossas almas.

​"O Boqueirão permanece não apenas como um lugar no mapa de José de Freitas, mas como o território sagrado da nossa infância e juventude, onde o tempo não era contado pelo relógio, mas medido pelo cheiro do café torrado nas manhãs, pela batida acelerada dos corações no forró e pela eternidade daqueles dias em que fomos plenamente felizes."

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