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Editorial Crônica 18

​A saga de Osvaldo Mendes de Oliveira: o patriarca das veredas e o sangue da terra

​A semente de Simplício Mendes e o sacrifício nobre

02/10/2026 às 08h43 Atualizada em 02/10/2026 às 09h39
Por: Arthur Feitosa Fonte: FAVAS CONTADAS
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​A saga de Osvaldo Mendes de Oliveira: o patriarca das veredas e o sangue da terra

Há uma poética silenciosa no atrito entre o casco do jumento e a pedra bruta do sertão. Na Simplício Mendes da década de 1930, onde o tempo parecia dilatado pelo sol inclemente do semiárido, a história da família de Joaquim Mendes de Oliveira e Dona Isabel Elisa ergueu-se não sobre a abstração dos livros, mas sobre a materialidade dos cortes de pano, das peles de carneiro e do câmbio miúdo das feiras quinzenais. Dezesseis filhos nasceram daquela cepa ancestral, uma prole numerosa e abençoada que se converteria na própria espinha dorsal da vida pública, intelectual e civil do Piauí. Dali brotaram nomes respeitados da história regional, como o economista, deputado federal e ex-vice-governador Felipe Mendes de Oliveira, além de seu irmão Sílvio Mendes de Oliveira, pai do atual prefeito de Teresina, Sílvio Mendes, ao lado de juízes, médicos, contadores e professores universitários.

Entretanto, em uma decisão de profunda nobreza que desafia as convenções do progresso social, Osvaldo, nascido a vinte e oito de abril de mil novecentos e trinta e três e carinhosamente chamado por todos de Vaduca, foi desfiado dessa renda acadêmica. Enquanto os irmãos rumavam à capital para desfrutar da erudição dos diplomas, coube a Vaduca permanecer na matriz com o pai, sustentando nos ombros o trabalho pesado e diário que custearia os estudos e as formaturas de todos os outros quinze. Osvaldo converteu-se no pilar fundamental do clã: o homem da ação e da coragem. Há uma graça sutil no gracejo que ele gostava de repetir ao longo da vida, afirmando com sorriso franco que “não estudara para não ficar burro”. A tirada, longe de expressar recusa ao saber, ressoa como um hino à sabedoria empírica. Frente à erudição dos livros que por vezes afasta o homem da realidade da vida, Vaduca reivindicava a sabedoria viva da estrada, a intuição do mecânico e a perspicácia do comerciante de retalhos, amarrando cargas no lombo da tropa de animais entre Conceição do Canindé, Isaías Coelho e outras cidades ao derredor, nas feiras de outrora.

O motor diesel como fratura e as rotas do progresso

A transição do lombo do bicho para o caminhão Chevrolet e, posteriormente, para o portentoso Mercedes-Benz 321, guardado com imenso afeto na memória da família, marca a própria modernização do transporte no Piauí. Nos anos cinquenta e sessenta, rasgar a BR-020 rumo a Brasília ou transpor a mitológica Ladeira do Inferno, no trecho entre Gaturiano e Oeiras, demandava um esforço quase epopeico. Faltava força ao possante para subir a famosa escarpa. O jeito era descarregar metade dos quatro mil quilos no pé do declive para permitir que o motor vencesse a subida, voltando vazio para reembarcar tudo no topo. Não era mero contratempo, mas um ritual de iniciação terra a terra. Foi esse mesmo espírito destemido e desbravador que o levou até os garimpos de diamante em Gilbués, no extremo sul, onde aviões a hélice pousavam em pistas de cascalho trazendo gente de todos os cantos do país, ávida pela pedrinha translúcida e valiosa.

Pioneiro por temperamento, o receio do fogo, testado ao ver um caminhão-tanque incendiar-se na Praça Saraiva, bem no centro da capital, reconfigurou o seu destino. Com medo legítimo de perder o patrimônio e ter de voltar a ser empregado, Vaduca largou a carga pesada pela mobilidade das ruas urbanas. Trocou o caminhão pelo ônibus e deu início às rotas entre o Centro e a Tabuleta, fundando a Empresa Dois Irmãos, formalizada no final dos anos sessenta para conectar Teresina a Timon através da antiga ponte metálica. O piso de pranchas de madeira, projetado originalmente para a passagem do trem, erguia-se como um obstáculo severo para os ônibus. Essa dificuldade fez da empresa um elo quase exclusivo, tornando-a a artéria viva que costurava duas populações irmãs sobre as águas do Rio Parnaíba.

A genética do campo e a sabedoria da roça

Cumprida a missão civilizatória de formar seus quatro filhos em Direito, Medicina, Fonoaudiologia e Psicologia, Vaduca redirecionou seu espírito desbravador de volta para a terra. Foi na pecuária e na agricultura que sua intuição visionária ganhou alcance nacional, atraindo a equipe da conceituada revista Globo Rural, que viajou ao Piauí para documentar seu pioneirismo no cruzamento genético da raça italiana Chianina, o célebre gado Chianina, com o nosso zebu rústico adaptado ao semiárido. Buscando o melhoramento do rebanho, a precocidade no abate e o ganho de massa muscular sem perder a resistência ao sol, ele antecipou em décadas as modernas práticas de criação de gado de corte.

Durante a famosa entrevista à imprensa nacional, ao ser perguntado com bom humor sobre o que não criava em suas terras, soltou a resposta clássica que entrou para o anedotário da família: dizia que a única coisa que não criava era “juízo e pato”, revelando a veia folclórica do sertanejo autêntico que mantinha o riso leve mesmo diante das agruras do clima e dos negócios. Ao lado de sua inseparável companheira, Dona Petronila, a quem, por hábito e por amor eterno, chamava carinhosamente de Petinha, com quem construiu um lar abençoado, Osvaldo viveu cercado de suas memórias. Desfrutava da paz de suas propriedades, rendendo-se ao sabor único do pequi do Piauí e cuidando com carinho de sua lendária vaca Manguita, a primeira res do imenso rebanho, comprada com o dinheiro obtido da venda das mangas de seu próprio pomar.

Fez-se lenda a história de que Vaduca detestava o fruto dos cerrados, aquele que alimenta e dá força ao sertanejo para vencer as hostilidades do clima severo do Nordeste brasileiro. O pequi não conseguia atrair o seu paladar porque o olfato não combinava. Certa vez, Vaduca recebeu a notícia de que seu possante havia quebrado na estrada que liga Timon a Presidente Dutra e precisava de socorro mecânico urgente. Seu Osvaldo tomou a direção de uma picape na companhia dos mecânicos da empresa para resgatar o caminhão. Entretanto, a própria picape acabou atolada no lamaçal da estrada sem pavimento. Era tarde, e a fome batia palmas nas costelas, dando sinal de que saco vazio não para em pé. Não havia mantimento algum, nem socorro possível para acalmar o ronco intermitente do estômago, exceto pela safra de pequi que, àquela época do ano, fazia-se abundante. Os mecânicos logo voltaram com um enorme vasilhame repleto da exótica fruta, de quem Osvaldo prontamente disse não gostar do cheiro nem do sabor. As horas passavam, o resgate para salvar os que ali estavam não aparecia e a fome só aumentava. Vaduca, vencido pelos apelos urgentes do estômago, capitulou e pediu para provar. Desde aquele dia, tornou-se um apaixonado pelo pequi, servindo-se dele com imenso prazer pelo restante dos seus muitos dias de vida.

A transmutação espiritual e o legado eterno

A trajetória de Osvaldo Mendes de Oliveira revela que a verdadeira grandeza de uma linhagem não se mede apenas nos gabinetes ou nos discursos formais, mas na capacidade de transformar o trabalho duro em instrução para os seus, sem jamais perder a simplicidade e o amor ao solo patrial. Sua partida recente não representa ausência ou esquecimento, mas uma transmutação espiritual para as pastagens infinitas da eternidade.

Chamado pelo Criador para servir ao Divino Espírito Santo, ele agora percorre veredas luminosas, descansando na paz das árvores celestiais ao lado dos seus antepassados. Deixa para trás a lembrança viva de um homem que foi, ao mesmo tempo, estrada e destino, força e poesia, o eterno patriarca que nos ensinou que a maior nobreza da vida consiste em honrar a família, servir ao próximo e manter as raízes profundamente fincadas no chão natal.

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