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Editorial Crônica 17

O Céu nos Olhos de Angelina: A Crônica do Nosso Maior Orgulho

A síntese poética das duas avós, uma detentora de céus no olhar e a outra, de um verde-esmeralda inesquecível

25/09/2026 às 08h08
Por: Arthur Feitosa
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O Céu nos Olhos de Angelina: A Crônica do Nosso Maior Orgulho

Há datas em que o tempo não apenas corre; ele se dobra, reverente, para testemunhar o milagre da continuidade. Em 11 de janeiro de 2013, o mundo não ganhou apenas mais uma manhã ensolarada, mas o elo dourado que selaria o destino de duas famílias. Do ventre formoso de Gisela emanou a luz de uma mocinha cujos olhos azul-turquesa, límpidos e cristalinos, pareciam guardar a profundeza do mar e a serenidade dos céus, uma claridade tão intensa e formosa que chegava a doer na retina de quem a contemplava.

​Jeiko e Gisela não lhe deram um nome ao acaso. Chamaram-na Angelina, reconhecendo nela a figura celestial enviada para arrematar a felicidade daquela casa. Ela nasceu alva como a brisa, trazendo no olhar o mosaico perfeito de suas origens:a síntese poética das duas avós, uma detentora de céus no olhar e a outra, de um verde-esmeralda inesquecível. Angelina trazia o legado genético como uma pintura viva em constante transformação.

​Foi aos dois anos de idade que a pequena conheceu a vastidão do Oceano Atlântico, quando os pés tocaram a orla desenhada por Deus, do litoral piauiense. Menina branquinha, de asas invisíveis, entregou-se ao sol do Nordeste com tal generosidade que dali voltou morena e com olhinhos verdes e uma tonalidade dourada da qual jamais se afastaria, como se o próprio litoral quisesse assinar na sua pele a primeira grande herança da terra. A genética materna prevalecia em contornos singulares, sem jamais diminuir o vigor do nascedouro paterno; pelo contrário, multiplicando o encanto.

​O tempo, esse cronista apressado, corria com a urgência de quem precisa consagrar a infância para depois deixá-la seguir devagar. Para as vovós, os passeios eram celebrações diárias de afeto. Já aos avôs, ébrios daquele amor que rejuvenesce até as almas mais cansadas, coube a doce responsabilidade dos mimos e a nobre missão do ir e vir escolar.

​Passear no shopping era um ritual quase sagrado. As pernas dos avôs, que o peso dos anos já ameaçava desacelerar, ganhavam um vigor impensado diante das desabaladas carreiras da pequena pelos imensos corredores. Angelina testava os limites físicos de todos ao redor, ignorando o cansaço que impunha àqueles passos velhos. Mas que cansaço abençoado! O peito se enchia de um orgulho incontido quando os transeuntes paravam, deslumbrados com aquela carinha de anjo, e perguntavam por ela. Os avós, tropeçando nas próprias palavras pela pressa de exultar, bradavam em coro: " É a nossa netinha Angelina!" 

​Afinal, ela não era apenas uma criança. Era a primeira do primeiro filho e da primeira filha, a primeira bisneta, a primeira trina e a quinta geração viva a entrelaçar o sangue, a história e a alma de duas famílias inteiras.

​Entre os múltiplos capítulos dessa infância luminosa, um em especial ficou gravado na memória afetiva da vovó Lilian. Numa tarde qualquer, enquanto passeavam orgulhosas pelas calçadas do condomínio, o destino colocou diante delas o rastro incontornável de um totó desavisado, um pequeno monte esquecido na calçada por quem não soubera guardar o devido decoro digestivo. Vovó Lilian, num reflexo quase atlético para evitar o trágico escorregão, deu um salto e alertou com urgência dramática:
— Angelina, cuidado com o cocô! 

​A menininha, que ainda navegava pelas primeiras descobertas da lexicografia humana, parou, olhou para o obstáculo com a gravidade de um filólogo e a solenidade de um sábio, contestando a avó no ato:
— Não é cocô não, vovó... É meuda! 

​A solenidade do momento ruiu na mais pura gargalhada. A merda, ainda impossibilitada de sua pronúncia correta pela língua infantil, virou meuda, a pérola de inocência que eternizou a comédia ingênua da infância nos anais da família.

​O tempo seguiu seu curso poético. Cinco anos após a chegada da anja tutelar, a casa voltou a se encher de risos com a chegada do irmaozinho Paulo, o companheiro constante para completar a folia dos dias.

​Hoje, beirando os quatorze anos, aquela garotinha dedicada, eficiente e extremamente inteligente desabrocha diante dos olhos de todos. Angelina vai se transformando numa jovem de beleza ainda mais estonteante, trazendo no porte a elegância da maturidade que se aproxima e no coração a essência pura de quando corria pelos corredores do shopping.
​Ver Angelina crescer é a confirmação do mistério mais belo da vida. Feliz das famílias que, ao olharem para a juventude radiante de uma neta, compreendem que podem caminhar um dia rumo ao Reino Eterno com a paz do dever cumprido, certos de que o seu patrimônio mais valioso, o amor e a sua própria genética, permanecerão vivos, continuados e infinitos na Terra.

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Sobre Arthur Feitosa - Executivo e articulista político do portal Gazeta Hora1
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