
Há datas em que o tempo não apenas corre; ele se dobra, reverente, para testemunhar o milagre da continuidade. Em 11 de janeiro de 2013, o mundo não ganhou apenas mais uma manhã ensolarada, mas o elo dourado que selaria o destino de duas famílias. Do ventre formoso de Gisela emanou a luz de uma mocinha cujos olhos azul-turquesa, límpidos e cristalinos, pareciam guardar a profundeza do mar e a serenidade dos céus, uma claridade tão intensa e formosa que chegava a doer na retina de quem a contemplava.
Jeiko e Gisela não lhe deram um nome ao acaso. Chamaram-na Angelina, reconhecendo nela a figura celestial enviada para arrematar a felicidade daquela casa. Ela nasceu alva como a brisa, trazendo no olhar o mosaico perfeito de suas origens:a síntese poética das duas avós, uma detentora de céus no olhar e a outra, de um verde-esmeralda inesquecível. Angelina trazia o legado genético como uma pintura viva em constante transformação.
Foi aos dois anos de idade que a pequena conheceu a vastidão do Oceano Atlântico, quando os pés tocaram a orla desenhada por Deus, do litoral piauiense. Menina branquinha, de asas invisíveis, entregou-se ao sol do Nordeste com tal generosidade que dali voltou morena e com olhinhos verdes e uma tonalidade dourada da qual jamais se afastaria, como se o próprio litoral quisesse assinar na sua pele a primeira grande herança da terra. A genética materna prevalecia em contornos singulares, sem jamais diminuir o vigor do nascedouro paterno; pelo contrário, multiplicando o encanto.
O tempo, esse cronista apressado, corria com a urgência de quem precisa consagrar a infância para depois deixá-la seguir devagar. Para as vovós, os passeios eram celebrações diárias de afeto. Já aos avôs, ébrios daquele amor que rejuvenesce até as almas mais cansadas, coube a doce responsabilidade dos mimos e a nobre missão do ir e vir escolar.
Passear no shopping era um ritual quase sagrado. As pernas dos avôs, que o peso dos anos já ameaçava desacelerar, ganhavam um vigor impensado diante das desabaladas carreiras da pequena pelos imensos corredores. Angelina testava os limites físicos de todos ao redor, ignorando o cansaço que impunha àqueles passos velhos. Mas que cansaço abençoado! O peito se enchia de um orgulho incontido quando os transeuntes paravam, deslumbrados com aquela carinha de anjo, e perguntavam por ela. Os avós, tropeçando nas próprias palavras pela pressa de exultar, bradavam em coro: " É a nossa netinha Angelina!"
Afinal, ela não era apenas uma criança. Era a primeira do primeiro filho e da primeira filha, a primeira bisneta, a primeira trina e a quinta geração viva a entrelaçar o sangue, a história e a alma de duas famílias inteiras.
Entre os múltiplos capítulos dessa infância luminosa, um em especial ficou gravado na memória afetiva da vovó Lilian. Numa tarde qualquer, enquanto passeavam orgulhosas pelas calçadas do condomínio, o destino colocou diante delas o rastro incontornável de um totó desavisado, um pequeno monte esquecido na calçada por quem não soubera guardar o devido decoro digestivo. Vovó Lilian, num reflexo quase atlético para evitar o trágico escorregão, deu um salto e alertou com urgência dramática:
— Angelina, cuidado com o cocô!
A menininha, que ainda navegava pelas primeiras descobertas da lexicografia humana, parou, olhou para o obstáculo com a gravidade de um filólogo e a solenidade de um sábio, contestando a avó no ato:
— Não é cocô não, vovó... É meuda!
A solenidade do momento ruiu na mais pura gargalhada. A merda, ainda impossibilitada de sua pronúncia correta pela língua infantil, virou meuda, a pérola de inocência que eternizou a comédia ingênua da infância nos anais da família.
O tempo seguiu seu curso poético. Cinco anos após a chegada da anja tutelar, a casa voltou a se encher de risos com a chegada do irmaozinho Paulo, o companheiro constante para completar a folia dos dias.
Hoje, beirando os quatorze anos, aquela garotinha dedicada, eficiente e extremamente inteligente desabrocha diante dos olhos de todos. Angelina vai se transformando numa jovem de beleza ainda mais estonteante, trazendo no porte a elegância da maturidade que se aproxima e no coração a essência pura de quando corria pelos corredores do shopping.
Ver Angelina crescer é a confirmação do mistério mais belo da vida. Feliz das famílias que, ao olharem para a juventude radiante de uma neta, compreendem que podem caminhar um dia rumo ao Reino Eterno com a paz do dever cumprido, certos de que o seu patrimônio mais valioso, o amor e a sua própria genética, permanecerão vivos, continuados e infinitos na Terra.
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