
Existe uma diferença interessante entre a identidade de uma cidade e a identidade de um Estado.
Teresina tem o caneleiro como sua árvore símbolo. E o Piauí tem agora uma ave símbolo oficial.
Sim. O Piauí tem uma ave que o representa.
Você sabe qual é?
Não? Então conheça o pica-pau.
Mas não um pica-pau qualquer.
É o Pica-pau-do-Parnaíba (Celeus obrieni), uma das aves mais raras e emblemáticas da fauna brasileira. E a escolha não aconteceu por acaso: a história da espécie está diretamente ligada ao território piauiense.
A história começa em 1926, quando um exemplar foi coletado na região de Uruçuí, no Piauí, às margens do rio Parnaíba. É justamente dessa origem geográfica que vem o nome tradicional da espécie. Registros científicos confirmam Uruçuí como sua localidade histórica de descoberta.
Depois disso, o pica-pau praticamente desapareceu do mapa.
Durante cerca de 80 anos, não houve registros confirmados suficientes para afastar o temor de que a espécie tivesse desaparecido. Até que, em 2006, um exemplar foi redescoberto em Goiatins, no Tocantins.
Era como se uma espécie que a ciência havia perdido de vista tivesse simplesmente decidido reaparecer.
É aí que começa uma discussão que vai muito além de um simples nome.
O Celeus obrieni também é conhecido como pica-pau-da-taboca, denominação relacionada ao ambiente e à vegetação de bambu utilizada pela espécie.
Mas há quem defenda a preservação do nome Pica-pau-do-Parnaíba justamente porque ele guarda a memória do local onde a espécie foi originalmente encontrada.
E essa não é uma questão meramente estética.
Nome também é memória.
Quando uma espécie recebe uma denominação associada a determinado lugar, esse nome passa a carregar uma parte da história da descoberta. No caso do Celeus obrieni, “Parnaíba” remete à própria origem do registro científico no Brasil.
E agora há um detalhe que muda a história.
Em 28 de julho de 2026, foi sancionada a Lei nº 9.081, que instituiu oficialmente o Pica-pau-do-Parnaíba (Celeus obrieni) como ave símbolo do Estado do Piauí. A norma consta no sistema legislativo oficial da Assembleia Legislativa.
Ou seja: o pica-pau deixou de ser apenas uma espécie de importância ambiental e científica.
Passou a representar oficialmente o Piauí.
O Celeus obrieni é uma espécie endêmica do Brasil e considerada ameaçada. Sua história envolve descoberta, desaparecimento aparente, redescoberta e novos registros em diferentes áreas do Cerrado.
Por isso, transformar a ave em símbolo estadual também coloca sobre o Piauí uma responsabilidade: preservar o animal e o ambiente de que ele depende.
E talvez aí esteja a maior força desse símbolo.
O Piauí não escolheu simplesmente uma ave bonita.
Escolheu uma ave com história, raridade, ciência e território.
Uma ave que foi descoberta aqui, desapareceu por décadas e voltou a ser encontrada.
O rio Parnaíba é um dos grandes elementos da identidade piauiense. Está na geografia, na história e na cultura do Estado.
No caso do pica-pau, o nome ainda funciona como uma espécie de registro histórico: lembra que foi em território piauiense que a ciência encontrou pela primeira vez aquela espécie.
Por isso, a defesa do nome Pica-pau-do-Parnaíba tem também um componente de preservação da memória científica.
Não se trata de dizer que outros nomes sejam inexistentes ou inválidos. Trata-se de reconhecer que Parnaíba conta uma história que não deveria desaparecer junto com a troca de uma denominação.
Agora, quando alguém perguntar qual é a ave símbolo do Piauí, a resposta pode ser dada sem hesitação:
É o Pica-pau-do-Parnaíba.
E talvez seja uma boa hora para os próprios piauienses conhecerem melhor essa ave.
Porque símbolo que ninguém conhece vira apenas nome de lei.
Símbolo de verdade é aquele que passa a fazer parte da memória coletiva.
E o Piauí acaba de colocar um pica-pau no seu brasão simbólico. Só que esse pica-pau carrega consigo quase um século de história.
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