
O sistema está se autoprotegendo ou protegendo apenas Alexandre de Moraes? Difícil saber. Mas uma coisa já é possível dizer: o Supremo Tribunal Federal entrou numa crise de confiança que passou a atingir a própria imagem da Corte. Ministros divergem sobre quem deve investigar, quem pode investigar e até sobre os limites da investigação.
No caso Master, o Conselho Superior do MPF decidiu, por 5 votos a 4, manter Paulo Gonet à frente do caso e rejeitou a abertura de investigação contra o PGR por supostos vínculos com Daniel Vorcaro. O relator afirmou não ter encontrado mensagens diretas ou o contato de Gonet no celular do banqueiro. É a Suprema Corte se protegendo? É Moraes sendo protegido? Ou é simplesmente o sistema tentando impedir que uma crise institucional fique ainda maior? A resposta, por enquanto, pertence aos fatos que ainda precisam ser apurados.
O problema mais grave está nas chamadas “relações perigosas” entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Há elementos concretos que não podem simplesmente desaparecer debaixo do tapete institucional: mensagens extraídas do celular de Vorcaro, encontros, ligações e um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Relatório da PF também registrou contatos entre Moraes e Vorcaro e mensagens nas quais o banqueiro buscaria a intervenção do ministro junto à PF e à PGR.
Depois veio o episódio do banquete em Campos do Jordão, organizado por Vorcaro para Moraes, com caviar, vieiras, trufas e vinhos de alto valor, segundo mensagens obtidas pela imprensa e incluídas em relatório da PF. E agora surgiu o áudio de Fabiano Zettel, cunhado e apontado como operador financeiro de Vorcaro, dizendo: “O Xandão é melhor amigo do Daniel. Tô contando com ele. Melhor amigo, faz jantar junto, sai junto.” A gravação não prova, sozinha, favorecimento ou irregularidade, mas certamente acrescenta mais uma peça ao quebra-cabeça.
E há ainda o episódio dos voos. Reportagem de Lauro Jardim revelou que Viviane Barci de Moraes cancelou, poucas horas depois da prisão de Vorcaro, reservas feitas para um jato Legacy e um helicóptero administrados pela Prime You. A imagem de Moraes e da esposa desembarcando de aeronave ligada à empresa também foi verificada pelo Comprova como autêntica; posteriormente, o escritório da advogada reconheceu que o casal utilizou serviços da empresa, embora tenha negado vínculo pessoal ou advocatício com Vorcaro.
É tudo prova de crime? Não. Contrato, jantar, mensagens, viagens e proximidade não equivalem automaticamente a corrupção ou tráfico de influência. Mas, diante da posição institucional ocupada por Moraes e dos valores envolvidos, a pergunta jornalística é inevitável: o que mais seria necessário para justificar uma apuração plenamente independente, transparente e capaz de afastar tanto a culpa quanto a suspeita?
E chegamos ao ponto mais delicado: quem investiga os investigadores? Paulo Gonet aparece nas discussões sobre o caso e esteve, ao lado de Andrei Rodrigues, em evento patrocinado pelo Banco Master em Roma. O Conselho Superior do MPF, porém, decidiu não abrir investigação contra o PGR. Andrei Rodrigues também foi alvo de questionamentos: o Banco Master custeou despesas de sua participação em fórum jurídico em Londres, segundo documentos e informações obtidas pela imprensa; posteriormente, ele chegou a ser afastado por decisão de André Mendonça, medida cuja manutenção foi submetida ao STF.
Davi Alcolumbre, por sua vez, foi citado em uma proposta de delação de Vorcaro que mencionava suposto repasse de US$ 30 milhões; o presidente do Senado negou categoricamente ter recebido qualquer valor. Ou seja: há alegações, documentos, relações e fatos que precisam ser separados cuidadosamente das conclusões ainda não comprovadas. O que não parece razoável é simplesmente fingir que nada está acontecendo.
No fim das contas, a pergunta talvez seja menos “quem é culpado? - isso cabe à investigação e à Justiça - e mais “por que o Brasil está tendo tanta dificuldade para produzir uma investigação que todos aceitem como independente?”
Quando ministros do Supremo entram no centro das suspeitas, quando o PGR também é questionado, quando o diretor-geral da PF aparece no entorno do caso e quando o presidente do Senado é alvo de acusações que ele nega, a sensação pública é a de que as instituições estão presas umas às outras por uma teia de relações. E aí o STF corre o risco de cometer a pior das autofagias: em vez de destruir seus adversários, acabar destruindo a própria credibilidade.
E, diante de tanta gente poderosa, de tantos interesses cruzados e de tantas versões, fica a pergunta inevitavelmente bem-humorada: quem poderá nos salvar? Só mesmo o Chapolin Colorado. Isso, claro, se o Vorcaro não tiver comprado também.
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