
Lula decidiu não participar do último debate presidencial do primeiro turno na TV Globo, marcado para esta quinta-feira (1º), às 21h30. No mesmo horário, o presidente estará no Flow Podcast. Com isso, chega ao primeiro turno sem participar de nenhum debate com os adversários.
É democrático não comparecer? Sim e não.
Sim, porque ninguém pode ser obrigado a participar de um debate. A democracia pressupõe liberdade de escolha, inclusive a de não comparecer.
Mas também não, no sentido político da coisa.
Uma eleição democrática pressupõe confronto de ideias, apresentação de propostas, explicação de decisões e, sobretudo, disposição para responder perguntas incômodas.
Lula não está disputando a direção de um sindicato.
Está pedindo ao eleitor brasileiro mais quatro anos no comando da República.
E quem quer permanecer no Palácio do Planalto precisa, naturalmente, estar disposto a explicar o que fez, e também o que não fez.
É justamente aí que a ausência ganha peso político.
A campanha de Lula sustenta que o formato do debate o colocaria como alvo dos demais candidatos. Segundo relatos publicados pela imprensa, aliados também avaliam que ele ficaria muito tempo exposto aos ataques e teria menos oportunidade para responder.
É uma estratégia legítima.
Mas estratégia legítima não significa estratégia imune a críticas.
Porque debate presidencial não é exatamente um spa eleitoral.
Quem entra no palco sabe que poderá ser questionado.
E quem está no governo sabe que será cobrado.
Faz parte do pacote.
Lula poderia usar o debate para defender sua administração, apresentar números, responder às críticas e explicar ao eleitor por que merece permanecer no cargo.
Poderia falar sobre economia, emprego, inflação, segurança, gastos públicos, programas sociais e tudo aquilo que considera positivo em seu governo.
Também poderia responder às controvérsias que seus adversários certamente levariam ao palco.
Entre elas, questões envolvendo o INSS, denúncias de corrupção e investigações que atingem pessoas próximas ao governo ou integrantes de seu círculo político. Esses temas exigem cuidado jornalístico: investigação ou suspeita não equivale a condenação, e eventuais vínculos pessoais ou políticos precisam ser demonstrados por fatos e documentos, não por ilações.
Mas justamente por isso o debate seria importante.
Perguntar não é condenar. Responder não é confessar. Explicar faz parte da democracia.
A ausência de Lula, portanto, deixa uma lacuna que ninguém precisa preencher por ele.
A cadeira estará vazia.
E cadeira vazia, em televisão, costuma ser um convite irresistível para quem gosta de fazer discurso.
Flávio Bolsonaro confirmou presença.
E sua campanha já sabe que a ausência de Lula pode ser transformada em material político. A própria dinâmica do debate permite que os candidatos façam perguntas ao ausente, deixando a cadeira vazia identificada para representar Lula.
Para Flávio, é uma oportunidade evidente de falar diretamente ao eleitor e explorar a ausência do principal adversário.
Mas existe uma segunda face nessa moeda.
Sem Lula no palco, Flávio também fica mais exposto.
Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Romeu Zema estarão diante dele.
E nenhum deles está ali para fazer decoração de estúdio.
Com Lula fora, parte da disputa pode migrar para dentro do próprio campo oposicionista, especialmente pela disputa pelo eleitorado que rejeita o PT. Análises publicadas sobre o debate apontam justamente esse risco para Flávio: transformar-se de atacante em alvo.
Ou seja: participar pode render visibilidade.
Mas também pode render pancada.
É a velha faca de dois gumes.
Flávio pode explorar a cadeira vazia de Lula, mas também poderá ser questionado sobre seus próprios pontos vulneráveis, entre eles a relação com Daniel Vorcaro e o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro, tema que já foi explorado durante a campanha.
Também poderá enfrentar questionamentos sobre conteúdos falsos que circularam a seu respeito, como a alegação de que pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O TSE já tratou publicações sobre esse assunto como desinformação em decisão envolvendo os conteúdos.
Portanto, não haverá almoço grátis para ninguém.
A ausência também não é completamente inédita.
Em 2006, quando disputava a reeleição, Lula faltou ao último debate do primeiro turno da Globo. Naquela ocasião, a ausência foi explorada pelos adversários e o próprio Lula posteriormente reconheceu que havia errado ao não participar.
Agora, quase duas décadas depois, a história ganha uma espécie de reprise.
Só que com uma diferença importante: desta vez, a cadeira vazia chega acompanhada de um detalhe impossível de ignorar.
Lula estará falando em outro lugar.
Enquanto os adversários estiverem debatendo na Globo, o presidente estará concedendo entrevista ao Flow.
E isso permite ao eleitor fazer sua própria comparação.
De um lado, perguntas de adversários.
Do outro, uma entrevista em outro formato.
A escolha é legítima.
Mas também é politicamente significativa.
Lula pode ter seus motivos.
Pode considerar o formato desfavorável.
Pode entender que os adversários pretendem cercá-lo.
Pode preferir uma conversa em que tenha mais tempo para desenvolver seus argumentos.
Tudo isso faz parte da estratégia eleitoral.
Mas existe uma pergunta que não desaparece porque o presidente decidiu não comparecer:
quem pretende governar o Brasil por mais quatro anos não deveria estar disposto a enfrentar as perguntas de quem vai decidir se lhe dará esse mandato?
Não participar não é crime.
Não é antidemocrático por si só.
Mas também não é uma decisão politicamente neutra.
Em uma eleição presidencial, ausência também comunica.
E nesta quinta-feira, enquanto quatro candidatos estiverem no palco da Globo, uma quinta presença poderá dominar a noite:
a cadeira vazia de Lula.
E talvez seja justamente essa cadeira que mais perguntas fará ao eleitor.
Porque, no fim, não será Lula quem terá de responder.
Será o eleitor que terá de decidir o que significa a ausência.
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