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Piauí virou uma terra sem lei? A violência nas ruas desafia o discurso oficial

De Água Branca a Pio IX, passando por Timon e Teresina, uma sequência de ocorrências violentas expõe a sensação de insegurança da população. O governo apresenta números de redução da criminalidade e reforço das forças policiais. Mas, diante do noticiário diário, a pergunta permanece: o cidadão está realmente mais seguro?

24/09/2026 às 09h21 Atualizada em 24/09/2026 às 09h31
Por: Douglas Ferreira
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A criminalidade escalou no Piauí - Foto: Reprodução/Imagem gerada por IA
A criminalidade escalou no Piauí - Foto: Reprodução/Imagem gerada por IA

A escalada da criminalidade tornou o Piauí uma espécie de terra sem lei?

Pode até ser que não. Mas a impressão que se tem, diante do noticiário diário, é exatamente essa.

Basta abrir um portal de notícias minimamente informado. As manchetes são estarrecedoras. E não estamos falando de acontecimentos de meses atrás. Estamos falando do que o piauiense encontrou nas telas nesta quinta-feira, 24 de setembro.

Veja só.

“Tiroteio em bar deixa uma pessoa morta e outras cinco feridas em Água Branca”.

O ataque aconteceu na noite de quarta-feira, no centro da cidade, no Médio Parnaíba. Segundo as informações divulgadas, quatro homens chegaram ao local em um carro e efetuaram disparos. Um dos envolvidos morreu e outro ficou ferido e acabou preso.

Se fosse apenas essa ocorrência, já seria suficientemente grave.

Mas não foi.

Outra manchete: “Acusado de estuprar criança em igreja evangélica em Timon é preso no Ceará.” O suspeito, natural de Esperantina, foi localizado e preso em Fortaleza. Timon fica no Maranhão, mas é uma cidade conurbada com Teresina. 

E aqui é preciso fazer uma ressalva jornalística importante: ser acusado ou investigado não significa, automaticamente, ser condenado. A prisão e a investigação precisam seguir o devido processo legal. O fato concreto, neste caso, é que um homem apontado pela investigação como suspeito de estupro de criança foi preso.

E ainda não acabou.

Em Pio IX, uma mulher grávida foi baleada na cabeça e perdeu o bebê. Segundo as informações divulgadas, o principal suspeito é o próprio marido, que teria armado uma emboscada contra ela e uma amiga. As duas permanecem internadas em estado grave, enquanto o suspeito é procurado pelas forças de segurança.

É preciso parar e pensar.

Uma morte em um bar. Cinco pessoas feridas.

Uma criança vítima de um crime sexual, segundo a investigação.

Uma mulher grávida atingida por um tiro na cabeça, com a perda do bebê.

E esses são apenas alguns dos casos que chegaram às manchetes em um intervalo de horas.

E não é apenas no interior

A violência não escolhe CEP.

Está no interior, como em Água Branca.

Está no litoral, onde ocorrências violentas também fazem parte do cotidiano noticiado.

E está na capital, onde operações policiais, prisões, confrontos e crimes violentos continuam ocupando espaço diariamente no noticiário.

Nesta quinta-feira, por exemplo, a Polícia Civil deflagrou mais uma etapa da Operação Cerco Fechado, com cumprimento de mandados contra investigados em diferentes cidades do Estado.

É justamente aí que surge a contradição que precisa ser discutida.

De um lado, o governo Rafael Fonteles apresenta números positivos. A Secretaria da Segurança Pública afirma que o Piauí fechou 2025 com o menor número de homicídios da última década e redução de 49% nos roubos em relação a 2022.

Em 2026, a SSP também divulgou reduções expressivas nos primeiros meses do ano, incluindo queda de homicídios, roubos e feminicídios. Em Teresina, o levantamento oficial apontou redução de 35,71% nos homicídios entre janeiro e maio, na comparação com o mesmo período de 2025.

Portanto, seria irresponsável afirmar que todos os indicadores de criminalidade estão subindo. Os próprios dados oficiais apontam o contrário em diversos crimes e períodos.

Mas também seria um erro concluir que números positivos eliminam o problema.

Porque existe uma diferença enorme entre reduzir estatisticamente a criminalidade e fazer o cidadão sentir-se seguro.

E é justamente nessa distância entre a estatística e a vida real que mora o problema.

Mais policiais resolvem?

O governador costuma destacar o reforço das forças de segurança.

E há, de fato, números expressivos. A própria Secretaria da Segurança informa que o governo já nomeou mais de 3 mil profissionais e anunciou novos concursos para ampliar o efetivo.

Mas segurança pública não se resume a quantidade.

Não basta colocar mais homens nas ruas se a inteligência não consegue antecipar o crime.

Não basta ter viaturas se a investigação não consegue chegar aos autores.

Não basta prender se criminosos voltam rapidamente às ruas.

Não basta fazer operações espetaculares se as organizações criminosas continuam encontrando espaço para recrutar, financiar-se, distribuir drogas, circular armas e disputar território.

Segurança pública exige policiamento ostensivo, investigação, inteligência, tecnologia, integração entre as forças, estrutura, equipamentos e, principalmente, estratégia.

E existe ainda um componente que não aparece em nenhuma planilha: vontade política.

O governador precisa ser cobrado

É Rafael Fonteles quem, em última instância, define as prioridades do Executivo estadual.

É o governador quem estabelece metas, direciona recursos, cobra resultados e responde politicamente pela política pública de segurança.

Portanto, não basta apresentar números positivos quando o noticiário cotidiano produz uma sensação completamente diferente.

É preciso explicar.

É preciso mostrar onde estão os resultados.

É preciso dizer por que, apesar das reduções anunciadas oficialmente, episódios violentos continuam produzindo uma sensação tão forte de insegurança.

E, sobretudo, é preciso admitir que uma política pública pode apresentar avanços em determinados indicadores e, ainda assim, apresentar problemas graves em outros.

Isso não é derrotismo.

É gestão.

Negar problemas não ajuda.

Transformar qualquer crítica em ataque político também não.

Segurança pública não pode ser tratada como propaganda eleitoral. Ela precisa ser tratada como política de Estado.

E há outro problema: o sistema de Justiça

A polícia prende.

Investiga.

Produz provas.

Desarticula quadrilhas.

Cumpre mandados.

Mas a segurança pública não termina na porta da delegacia.

Existe um sistema inteiro depois dela, formado pelo Ministério Público, Judiciário e sistema penitenciário.

Se a investigação é bem feita, mas o processo não avança, existe um problema.

Se o criminoso é condenado, mas o sistema penitenciário não consegue impedir que organizações criminosas continuem operando de dentro das prisões, existe outro problema.

Se as leis não produzem o efeito esperado, o Congresso precisa ser cobrado.

E se decisões judiciais geram controvérsias ou dificultam a atuação do Estado contra organizações criminosas, o Judiciário também precisa prestar contas à sociedade dentro dos limites constitucionais.

Não existe política de segurança eficiente sem integração entre todos esses atores.

O cidadão quer uma coisa muito simples

Quer sair de casa e voltar.

Quer abrir o comércio sem medo.

Quer que o filho vá para a escola sem ser abordado por criminosos.

Quer poder frequentar um bar, uma praça ou uma igreja sem imaginar que uma troca de tiros pode transformar uma noite comum em tragédia.

Quer, simplesmente, viver.

E talvez seja exatamente aí que esteja o maior desafio do governo.

Porque números são importantes.

Estatísticas são indispensáveis.

Mas nenhuma estatística consegue convencer uma família que acabou de perder alguém de que ela está vivendo em segurança.

O governo tem o direito de apresentar seus números. A oposição tem o direito de questioná-los. E a imprensa tem o dever de confrontar os dois com os fatos.

Porque, no final, segurança pública não se mede apenas pelo número de policiais contratados, pelo número de operações realizadas ou pela quantidade de armas apreendidas. Mede-se também pela capacidade do Estado de impedir que o cidadão comum se torne refém do medo.

E quando o noticiário de uma única manhã reúne tiroteio, morte, estupro de criança e tentativa de feminicídio, alguma coisa precisa ser discutida.

Sem propaganda.

Sem maquiagem.

Sem discurso pronto.

Com números, inteligência, cobrança e resultado.

Porque, se o Estado não consegue garantir ao cidadão o direito elementar de viver sem medo, pouco importa quantas operações foram realizadas.

A polícia continuará prendendo.

O governo continuará anunciando.

O Judiciário continuará julgando.

E a sociedade continuará perguntando:

quem, afinal, está ganhando essa guerra?

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A NOTÍCIA E O FATO
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Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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