
Ora, quem diria! O ministro Wellington Dias (PT-PI) está revoltado com o Banco Central. E o motivo? A decisão de interromper o ciclo de redução da taxa básica de juros, a Selic. Em entrevista exclusiva ao Metrópoles, nesta quinta-feira (5), o ministro disparou: “Não me conformo”. Curioso é que essa indignação parece ter endereço certo: a autoridade monetária. Para a gastança desenfreada do governo do qual faz parte, a revolta não aparece com a mesma intensidade.
Wellington Dias questiona a manutenção dos juros em 13,75%, argumentando que taxas elevadas prejudicam o capital produtivo, os investimentos, a geração de empregos e o crescimento econômico. Também defende uma discussão sobre a meta de inflação, que considera difícil de alcançar. É uma posição que pode ser debatida. O problema começa quando o ministro parece querer discutir as consequências sem enfrentar as causas.
Afinal, de onde vem a pressão inflacionária? O descontrole das contas públicas, a expansão dos gastos e a falta de credibilidade fiscal estão entre os fatores que pesam sobre as expectativas econômicas e dificultam o trabalho de combate à inflação. E é justamente nesse terreno que o governo Lula deveria concentrar suas preocupações.
Mas Wellington Dias não parece tão inconformado com a gastança de Brasília. Não demonstra a mesma indignação diante dos escândalos que atingem a administração federal, dos esquemas investigados envolvendo bilhões de reais em prejuízos a aposentados e pensionistas do INSS, nem das controvérsias envolvendo a revisão e o corte de beneficiários de programas sociais.
Por que a indignação ministerial se manifesta com tanta facilidade contra o Banco Central, mas não ganha a mesma intensidade quando o assunto é a gestão dos recursos públicos?
O ministro não é um neófito na política. Tem experiência suficiente para compreender que a política monetária não funciona isoladamente e que o combate à inflação exige responsabilidade também do governo. O Banco Central tem a obrigação institucional de perseguir a estabilidade dos preços, dentro das metas e dos instrumentos estabelecidos. Cobrar juros menores sem enfrentar o desequilíbrio fiscal é tentar resolver o problema pela metade.
A indignação de Wellington Dias, nesse contexto, soa mais como uma encenação política do que como uma cobrança efetiva por mudanças na economia. Afinal, é muito mais confortável apontar o dedo para o Banco Central do que cobrar do próprio presidente da República uma mudança de comportamento.
O ministro deveria começar pelo próprio governo. Reconhecer que a inflação e os juros elevados também sofrem os efeitos das escolhas fiscais do Executivo. Defender austeridade, exigir controle dos gastos e cobrar de Lula o fim da gastança sem limites. Menos discursos contra os juros e mais responsabilidade com o dinheiro público.
Porque não adianta reclamar da temperatura quando se insiste em alimentar o incêndio. Se Wellington Dias está realmente inconformado com os juros, deveria começar cobrando explicações de quem administra o orçamento da República. Afinal, o Banco Central não é o responsável por administrar a gastança do governo Lula.
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