
Recebi do amigo jornalista Josafá Torres - o Nêgo do Rosário -, da nossa querida Oeiras, primeira capital do Piauí, um texto que merece uma leitura atenta. Com sua conhecida verve jornalística, Josafá apresenta uma reflexão instigante sobre o resultado do segundo turno das eleições, realizado no último dia 25 de outubro. A pergunta que dá título à sua análise é provocativa: Flávio Bolsonaro sofreu uma derrota ou, na verdade, teve um livramento?
A reflexão é cirúrgica e emblemática porque desloca o debate para uma questão que vai muito além do resultado das urnas: a situação econômica que o próximo período de governo terá de enfrentar. Josafá chama atenção para o verdadeiro festival de benefícios eleitorais promovidos por Lula durante a campanha, o chamado pacote de bondades, numa sequência de anúncios, reajustes, renegociações de dívidas, subsídios e promessas que pareciam não ter limites quando o objetivo era conquistar votos.
O problema é que a conta não desaparece depois da eleição. O dinheiro público utilizado para alimentar a estratégia eleitoral tem consequências, e a realidade das contas públicas não pode ser escondida indefinidamente atrás de discursos e propagandas governamentais.
Eis que surge uma das maiores contradições do momento político brasileiro. Depois de passar praticamente todo o governo afirmando que a economia estava bem, que o Brasil crescia e que o país vivia uma transformação, Lula agora fala em arrumar a casa, organizar as finanças, recuperar a confiança e criar condições para atrair investimentos.
É como se estivesse recebendo um país devastado por um tsunami financeiro provocado por algum adversário político. Mas não! Lula é o presidente. Foi ele quem escolheu os ministros, estabeleceu as prioridades e conduziu a política econômica. A casa que agora precisa de arrumação é a mesma que ele próprio administrou durante quase quatro anos.
E é justamente nesse ponto que a reflexão de Josafá ganha força. Caso a Justiça Eleitoral tivesse reconhecido a vitória de Flávio Bolsonaro, toda essa herança econômica, marcada pelo endividamento, pelo desequilíbrio fiscal e pelas dificuldades de recuperar a confiança dos investidores, cairia no colo do novo presidente.
Seria um verdadeiro pepino! Flávio teria de começar o governo enfrentando uma situação que não construiu, assumindo o desgaste de medidas impopulares e tentando reorganizar uma economia pressionada pelas escolhas de seu antecessor.
Na linguagem popular, como bem sugere a reflexão de Josafá, não há mal que não traga algum bem. O que aparentemente foi uma derrota eleitoral pode acabar representando um livramento político. Afinal, a bomba de efeito retardado montada durante o governo Lula continuará sob a responsabilidade de quem a construiu.
Desta vez, Lula terá muito mais dificuldade para transferir a terceiros a responsabilidade pelos problemas que vierem à tona. Não poderá atribuir a conta ao governo anterior, nem apresentar um adversário político como responsável pelas dificuldades econômicas. A administração é sua, as escolhas são suas e a responsabilidade também.
Naturalmente, isso não significa que Flávio Bolsonaro tenha deixado de sofrer uma derrota nas urnas. Significa apenas que existe uma outra maneira de interpretar o resultado, considerando o cenário econômico e o tamanho dos desafios que aguardam o país.
A provocação de Josafá Torres merece ser compartilhada justamente por isso. Às vezes, aquilo que parece uma derrota no calor dos acontecimentos pode se revelar uma oportunidade de escapar de um problema muito maior.
Flávio Bolsonaro perdeu uma eleição ou escapou de herdar uma bomba que poderá comprometer o próximo governo?
É uma pergunta que o tempo, a economia e a realidade brasileira tratarão de responder.
Douglas Ferreira é jornalista e articulista da Gazeta Hora1
Derrota ou livramento?
O pleito eleitoral passou, cheio de coisas que até Deus duvida.
Desde a campanha até o seu desfecho, naquele inusitado dia 25 de outubro de 2026, não faltaram episódios controversos.
Proclamado o resultado, nem mesmo alguns apoiadores do governo pareciam acreditar na vitória. Para aumentar as desconfianças, houve ainda uma prorrogação de duas horas no processo de votação.
Os problemas e as consequências começaram a aparecer.
Cortes de verbas na educação, na saúde, no transporte e na infraestrutura. Sem contar os cortes de repasses do programa Bolsa Família, que têm tirado o sono e o juízo de milhares de pessoas que acreditaram em uma mudança promovida por quem nunca fez o suficiente para que ela acontecesse.
Imediatamente após a divulgação do resultado eleitoral, um ministro do STF pediu o recolhimento dos passaportes do candidato considerado "derrotado", Flávio Bolsonaro, que, numa estratégia cinematográfica, deixou o Brasil e hoje está nos Estados Unidos.
Flávio perdeu ou teve um livramento?
Além do rombo e do caos financeiro em que se encontra o país, estamos diante da possibilidade de uma terceira guerra mundial, enquanto dirigentes de grandes potências orientam suas populações a estocar itens básicos de primeira necessidade, principalmente alimentos.
Imagine o tamanho da cobrança que recairia sobre os ombros de um governante que não tivesse afundado o país e seu povo em dívidas, mas que, diante desse cenário, tivesse a obrigação de conduzir os destinos da nação praticamente de mãos atadas?
Fica, novamente, a pergunta:
Flávio perdeu ou se livrou de carregar esse fardo?
Josafá Torres
Jornalista – Oeiras, Piauí
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