
O que alavancou a direita brasileira e, consequentemente, a candidatura de Flávio Bolsonaro? Pergunta complexa, de resposta igualmente complexa. Para a oposição, a explicação está no cansaço diante das promessas não cumpridas dos governos de esquerda. Na fadiga com o PT e Lula. Na percepção de que o presidente parou no tempo e no espaço, insistindo em fórmulas políticas que já não respondem às aspirações de uma parcela crescente da sociedade. Lula, o PT e a esquerda seriam, nessa leitura, mercadores de ilusões, vendedores de um futuro que nunca chega para quem continua esperando.
O brasileiro teria finalmente despertado para a necessidade de correr atrás do tempo perdido e descoberto que a esquerda não detém o monopólio das soluções. Viu como a resposta é complexa? Pois é. Difícil mesmo explicar.
Mas, para a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, a chave pode estar justamente dentro do PT, nas próprias políticas públicas implantadas pelos governos de esquerda. Como assim? Ora, as chamadas classes aspiracionais.
Segundo a pesquisadora, uma parcela dos brasileiros que ampliou seu acesso ao consumo e às oportunidades durante os governos Lula agora se frustra com a realidade econômica e passa a enxergar o Estado como obstáculo à própria ascensão social. A tese é instigante, sobretudo porque sugere um paradoxo: o mesmo processo que ampliou as expectativas de mobilidade social pode ter ajudado a formar um eleitorado que hoje se afasta da esquerda.
Em entrevista ao jornal O Globo, Rosana explica como esse fenômeno pode influenciar a disputa presidencial entre Flávio Bolsonaro e Lula. Vamos entender.
Na interpretação da antropóloga, as classes aspiracionais são formadas por pessoas que passaram a sonhar mais alto, ampliaram suas possibilidades de consumo e vislumbraram oportunidades de crescimento, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar essas expectativas em prosperidade duradoura. As políticas de redistribuição de renda contribuíram para ampliar horizontes, mas não eliminaram a precariedade de parcelas dessa população.
O ser humano se alimenta de sonhos!
É justamente aí que aparece a contradição. Quando alguém experimenta uma melhora de vida, passa a desejar mais. Quer ganhar melhor, empreender, conquistar patrimônio e proporcionar um futuro diferente à família. O problema surge quando a realidade parece andar mais devagar que as expectativas. A frustração se acumula, e o eleitor começa a procurar explicações para as dificuldades que enfrenta.
Isso faz parte da natureza humana.
Rosana sustenta que, nesse processo, parte dessas pessoas perde de vista a contribuição histórica das políticas sociais e passa a associar a perda do poder de compra ao governo de turno. O Estado, antes percebido como instrumento de inclusão, começa a ser visto como uma estrutura que cobra, burocratiza e atrapalha.
É nesse ambiente que a direita, especialmente sua vertente mais radical, encontra espaço para avançar. Na análise da pesquisadora, discursos que prometem autonomia individual, liberdade econômica e enriquecimento pelo próprio esforço conseguem dialogar com pessoas cansadas de esperar por soluções coletivas.
E o brasileiro já esperou demais.
A retórica antissistema oferece culpados, questiona o funcionamento do Estado e transforma o empreendedorismo em uma espécie de caminho individual para a prosperidade. Nas redes sociais, influenciadores, coaches e personagens do universo financeiro vendem a ideia de que o sucesso depende sobretudo da iniciativa pessoal, da disciplina e da capacidade de romper com as estruturas tradicionais.
O oposto do que a esquerda, o PT, Lula e seu governo pregam e fazem.
Rosana chama atenção para o crescimento desse ambiente digital, que reúne marketing, investimentos, criptomoedas e promessas de independência financeira. É um universo que conversa diretamente com trabalhadores por conta própria, empreendedores e pessoas que desejam ingressar nesse mercado.
É a veia empreendedora fustigando os dependentes do Estado.
A pesquisadora utiliza o termo “autoritariado” para descrever esse segmento que combina traços conservadores e autoritários com uma visão libertária da economia e da vida individual. Nesse imaginário, cada um deve cuidar de si e da própria família, enquanto o Estado passa a ser tratado como parte do problema.
Até porque o Estado engessa o indivíduo dependente de auxílios e benefícios governamentais e também o cidadão que tenta empreender.
Aqui está o ponto mais interessante da tese. As políticas públicas podem melhorar as condições de vida de uma parcela da população sem garantir que essa melhora se converta em segurança econômica permanente. E, quando as expectativas crescem mais rapidamente que as oportunidades, o resultado pode ser a frustração.
O fenômeno não significa, necessariamente, que os beneficiados pelas políticas sociais tenham se tornado contrários a toda forma de proteção estatal. Tampouco permite concluir que todos os empreendedores ou integrantes das classes aspiracionais tenham migrado para a direita. A própria Rosana reconhece que esse segmento está dividido.
Mas a hipótese levanta uma questão incômoda para o PT: a ampliação do consumo e da renda, por si só, é suficiente para construir lealdade política duradoura?
Se o eleitor deseja prosperar, conquistar independência e deixar para trás a precariedade, transferências de renda e programas sociais podem ser importantes, mas talvez não bastem. Emprego de qualidade, produtividade, segurança econômica, acesso a oportunidades e perspectiva de mobilidade social também pesam na avaliação que cada cidadão faz do governo.
Na leitura da antropóloga, segmentos das classes aspiracionais encontram na direita respostas para seus projetos de vida. É nesse contexto que ela procura compreender o avanço da direita no Congresso e o desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro.
A interpretação não significa que a candidatura tenha uma única explicação ou que esse grupo, isoladamente, determine o resultado das urnas. O voto é influenciado por diferentes fatores, entre eles economia, segurança pública, valores culturais, avaliação do governo e identificação política.
Ainda assim, a análise aponta para uma disputa que vai além da comparação entre programas sociais. Está em jogo a capacidade de cada campo político de convencer o eleitor de que pode oferecer um caminho concreto para melhorar de vida.
O PT procura preservar sua ligação histórica com os trabalhadores e aposta, entre outras pautas, no sucesso do fim da escala 6x1. Mas enfrenta o desafio de dialogar também com uma população que valoriza autonomia, flexibilidade de horários e empreendedorismo, inclusive entre aqueles que não se identificam com o emprego formal tradicional.
A direita, por sua vez, procura ocupar esse espaço com o discurso da liberdade individual e da prosperidade pelo esforço próprio. O desafio é transformar essas promessas em respostas concretas para as dificuldades econômicas que atingem milhões de brasileiros.
A entrevista de Rosana Pinheiro-Machado oferece uma interpretação relevante sobre a mudança de comportamento de parte do eleitorado. Mas também expõe uma questão que merece ser examinada para além das disputas ideológicas: governos não são avaliados apenas pelo que entregaram no passado, mas também pelo que as pessoas esperam conquistar no futuro.
Quem saiu da pobreza quer mais do que continuar fora dela. Quer progredir. Quer melhorar de vida. Quer oferecer aos filhos oportunidades que não teve. E pode se frustrar quando percebe que o esforço diário não produz os resultados esperados.
A questão, portanto, não é simplesmente saber se o Estado ajuda ou atrapalha. É compreender por que pessoas que tiveram acesso a políticas públicas passam a acreditar que seu próximo passo depende de caminhos diferentes daqueles oferecidos pelo governo que inicialmente contribuiu para ampliar suas oportunidades.
Se a tese da antropóloga estiver correta, a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro também será uma disputa pelo significado da ascensão social. De um lado, a defesa da proteção social e dos direitos. De outro, a promessa de autonomia, liberdade econômica e prosperidade individual.
No fim das contas, há uma pergunta que o PT não pode ignorar: se o partido ajudou a ampliar os sonhos de uma parcela dos brasileiros, por que não consegue convencer todos eles de que ainda é capaz de ajudá-los a realizá-los?
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