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Política A ALGEBRA DAS URNAS

A matemática eleitoral, a álgebra e o misterioso caso de Ciro em Teresina

Política é ciência humana. A contabilidade dos votos, não. E quando a calculadora entra em cena, certas explicações políticas começam a ficar mais difíceis do que uma equação de primeiro grau

06/10/2026 às 00h08
Por: Douglas Ferreira
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Ciro, Júlio e a matemática que esbarra nas ciência humana e social - Foto: Reprodução/Arte gerada por IA
Ciro, Júlio e a matemática que esbarra nas ciência humana e social - Foto: Reprodução/Arte gerada por IA

A política é tradicionalmente compreendida como uma ciência humana, mais especificamente inserida no campo das Ciências Sociais. É feita de gente, sentimentos, interesses, alianças, rejeições, simpatias e, naturalmente, algumas boas doses de imprevisibilidade. Já a contabilidade dos votos de uma eleição pertence a outro departamento: o da ciência exata.

Sim. E com os números não se discute. Quem tem a maioria vence. É assim para o Governo. É assim para o Senado Federal. A urna não quer saber de discurso bonito, pesquisa, palanque, amizade, promessa ou explicação de última hora. Ela simplesmente conta.

E é justamente aí que aparece um dado que chama atenção no resultado da eleição para o Senado no Piauí.

Dois candidatos disputaram voto a voto a segunda vaga para a Câmara Alta: Júlio César, o “Julim do Lula”, e Ciro Nogueira. No resultado estadual, Júlio César terminou em segundo, com 989.012 votos, enquanto Ciro ficou em terceiro, com 904.836. Diferença: 84.176 votos. Marcelo Castro foi o primeiro colocado e também garantiu a eleição.

Até aí, matemática pura.

Mas aí vem Teresina.

Na capital, Júlio César foi muito mais votado que Ciro Nogueira:

Júlio César (PSD): 210.977 votos — 26,66%

Ciro Nogueira (PP): 138.489 votos — 17,50%

Resultado: Julim abriu 72.488 votos de vantagem sobre Ciro somente em Teresina.

Agora faça a conta.

A diferença entre os dois em todo o Piauí foi de 84.176 votos. Só Teresina produziu uma diferença de 72.488. Em outras palavras, quase 86% da distância que separou Júlio de Ciro no resultado estadual saiu justamente da capital.

É aí que a política, aquela velha ciência humana, começa a fazer cara de quem não quer conversar com a matemática.

Porque Ciro não era um candidato qualquer. Era senador da República, presidente nacional do Progressistas e uma das principais lideranças da oposição ao grupo político comandado pelo governador Rafael Fonteles. E Teresina, convenhamos, não é uma cidade politicamente neutra nesse jogo.

Mais do que isso: Ciro foi peça importante na articulação política que ajudou a levar Silvio Mendes à Prefeitura de Teresina em 2024. E Joel Rodrigues, candidato da oposição ao Governo do Estado em 2026, tinha como vice justamente o vice-prefeito eleito na chapa de Silvio.

Então surge a pergunta que a calculadora não consegue responder:

Como Ciro Nogueira, um dos principais nomes da oposição estadual, conseguiu perder justamente na capital, onde a oposição havia demonstrado força política dois anos antes?

Faltou empenho?

Faltou dedicação?

Faltou capilaridade?

Faltou transferência de votos?

Faltou vestir a camisa?

Ou o eleitor simplesmente resolveu separar as coisas e votar em candidatos diferentes para cargos diferentes?

Essa última hipótese é perfeitamente possível. Aliás, é uma das características mais interessantes — e mais difíceis de entender — do eleitor brasileiro. O sujeito pode votar em um candidato para presidente, em outro para governador, em dois nomes diferentes para o Senado e ainda escolher um quarto candidato para deputado. A urna não exige coerência ideológica. Felizmente ou infelizmente, exige apenas uma coisa: que o eleitor escolha.

E Teresina escolheu.

Marcelo Castro foi o mais votado para o Senado na capital, com 237.486 votos. Júlio César veio em segundo, com 210.977. Ciro terminou em terceiro, com 138.489.

Há ainda outro detalhe curioso: os dois senadores eleitos pelo Piauí — Marcelo Castro e Júlio César — integram a base política do governador Rafael Fonteles. Ciro, que buscava a reeleição, ficou de fora.

É uma fotografia eleitoral que merece ser examinada com lupa. Não necessariamente para encontrar culpados, mas para compreender o comportamento do eleitorado.

Porque é justamente aqui que voltamos ao início.

Política é ciência humana.

E ciência humana não trabalha com a mesma previsibilidade de uma tabuada.

A matemática eleitoral, entretanto, é implacável. Júlio teve 84.176 votos a mais que Ciro no Estado. E, desse total, 72.488 vieram da diferença entre os dois em Teresina.

A pergunta não é se Teresina, sozinha, “decidiu” matematicamente a eleição — porque a vitória é resultado da soma de todos os municípios. A pergunta é outra: por que a capital, que poderia ser um dos grandes motores eleitorais de Ciro, acabou funcionando em sentido contrário?

E essa é uma pergunta política legítima.

Não há uma resposta matemática para ela.

Pode haver várias explicações: voto independente, transferência de votos de lideranças locais, desempenho dos candidatos, identificação com Lula, estrutura partidária, alianças municipais, rejeição, campanha, estratégia ou simplesmente a velha e imprevisível vontade do eleitor.

Agora, uma coisa é certa: o resultado foi politicamente expressivo e vai permanecer no imaginário da política piauiense por algum tempo.

Até porque a maioria das pessoas domina as quatro operações.

Somar é fácil.

Subtrair também.

Multiplicar, com alguma boa vontade, vai.

Dividir exige um pouco mais de concentração.

Agora, a matemática complica mesmo quando entra a álgebra.

Sim. Porque aí, além dos números, aparecem letras e símbolos representando valores desconhecidos.

Entendeu?

Não?

Nem eu.

Mas talvez seja justamente esse o problema de certas eleições: os números são conhecidos. O que ninguém consegue descobrir é a incógnita.

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