
A política é tradicionalmente compreendida como uma ciência humana, mais especificamente inserida no campo das Ciências Sociais. É feita de gente, sentimentos, interesses, alianças, rejeições, simpatias e, naturalmente, algumas boas doses de imprevisibilidade. Já a contabilidade dos votos de uma eleição pertence a outro departamento: o da ciência exata.
Sim. E com os números não se discute. Quem tem a maioria vence. É assim para o Governo. É assim para o Senado Federal. A urna não quer saber de discurso bonito, pesquisa, palanque, amizade, promessa ou explicação de última hora. Ela simplesmente conta.
E é justamente aí que aparece um dado que chama atenção no resultado da eleição para o Senado no Piauí.
Dois candidatos disputaram voto a voto a segunda vaga para a Câmara Alta: Júlio César, o “Julim do Lula”, e Ciro Nogueira. No resultado estadual, Júlio César terminou em segundo, com 989.012 votos, enquanto Ciro ficou em terceiro, com 904.836. Diferença: 84.176 votos. Marcelo Castro foi o primeiro colocado e também garantiu a eleição.
Até aí, matemática pura.
Mas aí vem Teresina.
Na capital, Júlio César foi muito mais votado que Ciro Nogueira:
Júlio César (PSD): 210.977 votos — 26,66%
Ciro Nogueira (PP): 138.489 votos — 17,50%
Resultado: Julim abriu 72.488 votos de vantagem sobre Ciro somente em Teresina.
Agora faça a conta.
A diferença entre os dois em todo o Piauí foi de 84.176 votos. Só Teresina produziu uma diferença de 72.488. Em outras palavras, quase 86% da distância que separou Júlio de Ciro no resultado estadual saiu justamente da capital.

É aí que a política, aquela velha ciência humana, começa a fazer cara de quem não quer conversar com a matemática.
Porque Ciro não era um candidato qualquer. Era senador da República, presidente nacional do Progressistas e uma das principais lideranças da oposição ao grupo político comandado pelo governador Rafael Fonteles. E Teresina, convenhamos, não é uma cidade politicamente neutra nesse jogo.
Mais do que isso: Ciro foi peça importante na articulação política que ajudou a levar Silvio Mendes à Prefeitura de Teresina em 2024. E Joel Rodrigues, candidato da oposição ao Governo do Estado em 2026, tinha como vice justamente o vice-prefeito eleito na chapa de Silvio.
Então surge a pergunta que a calculadora não consegue responder:
Como Ciro Nogueira, um dos principais nomes da oposição estadual, conseguiu perder justamente na capital, onde a oposição havia demonstrado força política dois anos antes?
Faltou empenho?
Faltou dedicação?
Faltou capilaridade?
Faltou transferência de votos?
Faltou vestir a camisa?
Ou o eleitor simplesmente resolveu separar as coisas e votar em candidatos diferentes para cargos diferentes?
Essa última hipótese é perfeitamente possível. Aliás, é uma das características mais interessantes — e mais difíceis de entender — do eleitor brasileiro. O sujeito pode votar em um candidato para presidente, em outro para governador, em dois nomes diferentes para o Senado e ainda escolher um quarto candidato para deputado. A urna não exige coerência ideológica. Felizmente ou infelizmente, exige apenas uma coisa: que o eleitor escolha.
E Teresina escolheu.
Marcelo Castro foi o mais votado para o Senado na capital, com 237.486 votos. Júlio César veio em segundo, com 210.977. Ciro terminou em terceiro, com 138.489.
Há ainda outro detalhe curioso: os dois senadores eleitos pelo Piauí — Marcelo Castro e Júlio César — integram a base política do governador Rafael Fonteles. Ciro, que buscava a reeleição, ficou de fora.
É uma fotografia eleitoral que merece ser examinada com lupa. Não necessariamente para encontrar culpados, mas para compreender o comportamento do eleitorado.
Porque é justamente aqui que voltamos ao início.
Política é ciência humana.
E ciência humana não trabalha com a mesma previsibilidade de uma tabuada.
A matemática eleitoral, entretanto, é implacável. Júlio teve 84.176 votos a mais que Ciro no Estado. E, desse total, 72.488 vieram da diferença entre os dois em Teresina.
A pergunta não é se Teresina, sozinha, “decidiu” matematicamente a eleição — porque a vitória é resultado da soma de todos os municípios. A pergunta é outra: por que a capital, que poderia ser um dos grandes motores eleitorais de Ciro, acabou funcionando em sentido contrário?
E essa é uma pergunta política legítima.
Não há uma resposta matemática para ela.
Pode haver várias explicações: voto independente, transferência de votos de lideranças locais, desempenho dos candidatos, identificação com Lula, estrutura partidária, alianças municipais, rejeição, campanha, estratégia ou simplesmente a velha e imprevisível vontade do eleitor.
Agora, uma coisa é certa: o resultado foi politicamente expressivo e vai permanecer no imaginário da política piauiense por algum tempo.
Até porque a maioria das pessoas domina as quatro operações.
Somar é fácil.
Subtrair também.
Multiplicar, com alguma boa vontade, vai.
Dividir exige um pouco mais de concentração.
Agora, a matemática complica mesmo quando entra a álgebra.
Sim. Porque aí, além dos números, aparecem letras e símbolos representando valores desconhecidos.
Entendeu?
Não?
Nem eu.
Mas talvez seja justamente esse o problema de certas eleições: os números são conhecidos. O que ninguém consegue descobrir é a incógnita.
NOVA ELEIÇÃO Segundo turno é outra eleição: o que Flávio e Lula precisam fazer para conquistar o voto que falta
O POVO É SOBERANO Ciro reconhece a voz das urnas e encerra ciclo no Senado com respeito ao eleitor
CHEQUE EM BRANCO? A eleição é uma caixinha de surpresas - e o Piauí abriu a sua Mín. 23° Máx. 40°