
Houve um tempo em que Lula não era apenas candidato. Era um fenômeno eleitoral. Seu nome puxava votos, ajudava a eleger deputados, senadores, governadores e prefeitos e funcionava como uma espécie de locomotiva eleitoral do PT e de seus aliados.
Esse Lula, porém, parece ter ficado no passado.
As pesquisas divulgadas neste sábado (3) pela Quaest e pelo Datafolha projetam uma derrota para lá de amarga do presidente no Senado. O PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro e do presidenciável Flávio Bolsonaro, aparece com potencial para eleger 19 senadores, o equivalente a 35% das 54 cadeiras em disputa. O PT de Lula, por sua vez, aparece com apenas 7 eleitos.
É claro que pesquisa para o Senado tem suas particularidades e margem de erro. Os números podem mudar até a abertura das urnas. Mas há algo que não depende de precisão estatística: a direção do vento.
E o vento, neste momento, parece soprar contra Lula.
O problema para o presidente não é apenas a possibilidade de perder a eleição presidencial. É descobrir que seu nome deixou de produzir aquilo que durante décadas foi sua principal força política: agregar, somar e transferir votos.
Lula deixou de ser um puxador de votos capaz de carregar uma bancada inteira nas costas e passou a representar, em determinadas disputas, um fator de divisão. Em vez de somar votos para candidatos aliados, seu nome pode estar subtraindo.
E isso explica muito do que está acontecendo no Senado.
Dos candidatos que aparecem com mais de 15% das intenções de voto, 26 são do PL, quase metade das vagas que estarão em disputa. O PT aparece muito atrás. Outros cinco candidatos superam os 15%, mas não ocupam as duas primeiras posições nas pesquisas.
O contraste é brutal para quem conhece a história eleitoral recente do Brasil.
Lula já foi capaz de transformar sua popularidade em enormes bancadas parlamentares. Seu nome funcionava como uma marca eleitoral poderosa. Bastava estar associado a uma candidatura para produzir uma espécie de bônus eleitoral.
Agora, o fenômeno parece ser outro.
Lula vem derretendo no terceiro mandato. E o mais curioso é que boa parte do petismo parece ter percebido o problema apenas parcialmente — ou simplesmente se recusado a acreditar nele.
É o velho problema do negacionismo político: quando a realidade não combina com a narrativa, tenta-se desacreditar a realidade.
Mas pesquisa pode até errar. A realidade, não.
A perda de popularidade não acontece no vácuo. Ela é alimentada pela percepção de falta de entregas, pelo desgaste político, pelo aumento da rejeição e por um governo que não conseguiu reproduzir o mesmo ambiente político dos dois primeiros mandatos.
A isso se soma o peso histórico dos escândalos de corrupção que atingiram governos petistas e que continuam fazendo parte da memória de uma parcela significativa do eleitorado.
O eleitor também mudou.
E talvez Lula e o PT ainda não tenham compreendido completamente essa mudança.
O presidente continua apostando em uma fórmula política que funcionou durante muito tempo: o confronto permanente com o bolsonarismo, o medo da direita e a lembrança dos tempos de maior popularidade.
Só que memória não substitui desempenho.
E popularidade passada não é cheque em branco para o futuro.
O resultado das pesquisas para o Senado é particularmente preocupante porque revela algo maior do que uma eventual derrota de candidatos petistas. Revela a dificuldade de Lula de transferir capital eleitoral para aqueles que dependem de seu nome.
Se essa tendência se confirmar nas urnas, o presidente não terá apenas uma bancada menor no Senado. Terá diante de si um Congresso potencialmente muito mais hostil, com uma oposição fortalecida e um PL ocupando uma posição de enorme relevância na Casa.
E há uma ironia nisso tudo.
Lula, que durante anos ajudou a eleger bancadas inteiras, pode terminar esta eleição ajudando a eleger uma legião de adversários.
A política tem dessas coisas.
Quem um dia foi locomotiva pode acabar virando âncora.
E se as urnas confirmarem as projeções, Lula descobrirá da maneira mais dura que popularidade não é patrimônio eterno, transferência de votos não é automática e o eleitor não é obrigado a repetir o passado.
O negacionismo pode adiar o diagnóstico. Não muda o resultado.
A pergunta, agora, é outra: quantos aliados Lula ainda consegue carregar consigo quando já não consegue carregar nem sequer o próprio capital eleitoral?
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