
Em pleno século XXI, enquanto o Estado apresenta projetos de desenvolvimento, investimentos em tecnologia, energias renováveis, infraestrutura e transformação digital, o abastecimento regular de água continua sendo um problema cotidiano para moradores de diferentes regiões.
A questão deixou de ser apenas uma reclamação pontual de moradores e passou a ocupar o centro do debate eleitoral. No segundo debate entre os candidatos ao Governo do Piauí, realizado pela TV Clube em 29 de setembro, o abastecimento de água esteve entre os temas sorteados e provocou um dos principais confrontos entre o governador e candidato à reeleição, Rafael Fonteles (PT), e o candidato da oposição Joel Rodrigues (Progressistas).
A discussão sobre a água também traz uma pergunta inevitável: por que um problema tão antigo ainda não foi definitivamente solucionado?
O Piauí passou por diferentes administrações nas últimas duas décadas, mas o grupo político liderado pelo PT permaneceu no comando do Estado durante a maior parte desse período. Wellington Dias governou o Piauí por quatro mandatos, entre 2003 e 2010 e entre 2015 e 2022. Rafael Fonteles assumiu o Governo do Estado em 2023.
Nesse intervalo, também houve o governo de Wilson Martins (PSB), entre 2011 e 2014, e o período de Zé Filho (MDB), em 2014. Por isso, não é tecnicamente correto afirmar que o PT governou sozinho e ininterruptamente o Piauí durante 20 anos. Mas é possível apontar uma continuidade política do grupo que esteve à frente do Estado durante grande parte desse período.
E é justamente essa longa permanência no poder que torna a questão da água uma cobrança política relevante em 2026.
O próprio discurso do atual governo reconhece que existem problemas históricos de abastecimento.
Em julho deste ano, durante agenda em Jaicós, Rafael Fonteles afirmou que o abastecimento era o “problema mais grave e secular” da região e anunciou uma adutora de R$ 130 milhões, financiada no âmbito do Novo PAC, como solução definitiva para o município.
O episódio revela uma situação que se repete em diferentes regiões do Estado: obras e investimentos são anunciados para resolver problemas que, em muitos casos, atravessam décadas.
A pergunta que chega às urnas, portanto, não é apenas quanto dinheiro está sendo anunciado, mas por que o cidadão ainda precisa esperar por uma nova obra para ter acesso regular a um serviço básico.
A mudança no modelo de gestão do saneamento não encerrou o problema.
A antiga Agespisa foi substituída, no serviço concedido, pela Águas do Piauí, após contrato de concessão firmado em dezembro de 2024, com vigência de 35 anos. O contrato estabelece a meta de alcançar 99% de cobertura de água tratada até 2033 e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2040, com previsão de R$ 9,6 bilhões em investimentos ao longo da concessão.
Na prática, porém, o período de transição e os investimentos previstos passaram a ser acompanhados de perto por deputados, órgãos de fiscalização e pela população.
Em fevereiro de 2026, a Assembleia Legislativa do Piauí recebeu respostas da concessionária e da Microrregião de Água e Esgoto sobre problemas de abastecimento em pelo menos cinco municípios. Os documentos também registraram divergências sobre o prazo para apresentação do plano de investimentos.
A situação também chegou ao Ministério Público.
Em Pedro II, a 2ª Promotoria de Justiça realizou, em 28 de setembro, uma audiência extrajudicial para discutir a regularidade, continuidade e adequação do abastecimento de água. O procedimento foi instaurado após reclamações relacionadas a interrupções e deficiências no fornecimento.
Durante a audiência, foram relatados períodos prolongados de desabastecimento em determinadas localidades do município.
O caso demonstra que a questão não está restrita ao discurso dos candidatos. Ela chegou aos órgãos de controle e representa uma demanda concreta da população.
O problema ultrapassa a torneira vazia.
Sem abastecimento regular, uma cidade enfrenta impactos na saúde pública, no funcionamento de escolas, hospitais e estabelecimentos comerciais, na agricultura, na indústria e na própria qualidade de vida.
Por isso, a discussão eleitoral sobre água não deveria se limitar à promessa de perfuração de poços, construção de adutoras ou ampliação de redes.
O eleitor também pode cobrar planejamento: quantos municípios ainda enfrentam abastecimento irregular? Quais obras estão em andamento? Quanto já foi investido? Quais são os prazos? Quem fiscaliza os contratos? Quais metas precisam ser cumpridas e quando?
A eleição de 2026 transformou a água em uma das principais vitrines do debate sobre o futuro do Piauí.
O governo apresenta obras e investimentos como resposta a problemas históricos. A oposição, por outro lado, utiliza a permanência da falta d’água como argumento para questionar a capacidade das administrações que estiveram no comando do Estado.
No meio desse confronto político está o cidadão que, independentemente de partido, precisa abrir a torneira e encontrar água.
Depois de décadas de governos e bilhões anunciados em investimentos, a questão que permanece para o Piauí é simples — e básica:
quando o acesso regular à água deixará de ser promessa de campanha e passará a ser uma realidade permanente para a população?
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