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Política PESQUISAS FALHARAM

Flávio surpreende, Lula perde terreno e o segundo turno começa do zero

A urna contrariou a fotografia das últimas pesquisas: Flávio Bolsonaro terminou na frente, Lula ficou a 1,87 ponto, e mais de 9 milhões de votos de candidatos eliminados agora entram no jogo

05/10/2026 às 07h40
Por: Douglas Ferreira
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Contrariando os institutos de pesquisa Flávio Bolsonaro assegura um segundo turno numericamente a frente de Lula - Foto: Reprodução
Contrariando os institutos de pesquisa Flávio Bolsonaro assegura um segundo turno numericamente a frente de Lula - Foto: Reprodução

O primeiro turno terminou e deixou uma pergunta inevitável: o que aconteceu com as pesquisas?

A resposta não está simplesmente em dizer que os institutos “erraram”. Alguns erraram mais do que outros, mas a fotografia produzida às vésperas da eleição já mostrava uma disputa extremamente apertada. O problema foi que, na hora em que as urnas falaram, Flávio Bolsonaro apareceu acima daquilo que quase todos os principais levantamentos haviam captado.

Com 99,99% das urnas apuradas, Flávio recebeu 56,1 milhões de votos, ou 47,03% dos válidos. Lula ficou com 53,88 milhões, 45,16%. A diferença foi de pouco mais de 2,2 milhões de votos, apenas 1,87 ponto percentual.

O contraste com as últimas pesquisas é significativo. Na véspera, apenas o Gerp colocava Flávio numericamente à frente. Datafolha, PoderData e Quaest apontavam Lula na frente, embora em alguns casos dentro da margem de erro. O Atlas também mantinha Lula à frente. O Gerp foi o que mais se aproximou do resultado de Flávio: 46%, contra os 47,03% efetivamente obtidos.

Isso ajuda a explicar o que aconteceu.

Lula não desapareceu eleitoralmente. Flávio é que cresceu além do que boa parte das pesquisas conseguiu registrar.

O Datafolha, por exemplo, apontava Lula com 45% dos votos válidos e Flávio com 42%. A Quaest registrava 46% para Lula e 45% para Flávio. A CNT/MDA era ainda mais distante: 47,8% para Lula contra 42,1% para Flávio. Na urna, a fotografia foi invertida.

Há, portanto, uma diferença importante entre errar o vencedor e errar a dimensão do movimento eleitoral.

Os institutos captaram a polarização e captaram que Lula e Flávio estavam muito próximos. O que não conseguiram medir adequadamente foi a intensidade da migração final para Flávio.

E aí entra a segunda pergunta: por que isso aconteceu?

Não existe uma única explicação comprovada. O resultado parece combinar fatores diferentes. Flávio conseguiu consolidar o eleitorado identificado com a direita, avançou em segmentos conservadores e terminou o primeiro turno com uma votação superior à de seu pai em determinadas regiões e grupos. Análises posteriores ao resultado também apontam peso de temas como segurança pública, insatisfação econômica e mobilização do eleitorado evangélico.

Há ainda um dado político relevante: a direita não ficou restrita à candidatura presidencial. O desempenho do PL no Legislativo reforçou a percepção de que houve um movimento eleitoral mais amplo, e não apenas uma votação concentrada no nome de Flávio.

Mas isso significa que Lula derreteu?

A resposta exige cuidado.

Se a comparação for com o patamar que Lula já alcançou em outras eleições e com a expectativa de vitória no primeiro turno alimentada pelo próprio campo petista, o resultado representa um recuo político importante. O presidente terminou atrás e não conseguiu transformar a força histórica de seu nome em uma vantagem confortável.

Mas dizer que Lula “derreteu” como se tivesse perdido sua base eleitoral seria exagero. Ele recebeu quase 54 milhões de votos e terminou apenas 1,87 ponto atrás de Flávio. Além disso, as últimas pesquisas estavam próximas o suficiente para identificar uma eleição apertada. O que a urna demonstrou foi menos um colapso de Lula e mais uma disputa que se tornou mais competitiva do que a fotografia final das pesquisas sugeria.

O segundo turno começa, portanto, com uma montanha de votos em disputa.

Augusto Cury recebeu 3,45 milhões. Renan Santos, 2,68 milhões. Ronaldo Caiado, 2,61 milhões. Somados, os três chegam a aproximadamente 8,7 milhões de votos. Os demais candidatos acrescentaram centenas de milhares de votos ao espólio eleitoral dos derrotados.

É justamente aí que começa a verdadeira eleição.

Cury terminou em terceiro e, até o momento, não declarou apoio a nenhum dos dois. Renan também construiu sua candidatura criticando tanto Lula quanto Flávio e havia dito que não apoiaria nenhum deles. Caiado, por sua vez, indicou que conversaria com Gilberto Kassab antes de definir sua posição.

Isso significa que não existe transferência automática de votos.

Um eleitor de Cury não necessariamente votará em Lula porque Cury não apoia Flávio. Um eleitor de Renan não necessariamente migrará para Flávio porque se identifica com a direita. E o eleitor de Caiado pode simplesmente escolher não votar em nenhum dos dois.

Além disso, há um terceiro eleitorado que pode ser ainda mais importante: os que não votaram.

Mais de 33 milhões de eleitores ficaram ausentes no primeiro turno, número superior em muitas vezes à diferença entre Flávio e Lula. A mobilização desse contingente pode alterar significativamente a composição do eleitorado efetivamente presente no segundo turno.

E aqui está uma das grandes incógnitas de 25 de outubro.

Quem tem mais chance?

O resultado do primeiro turno dá a Flávio a vantagem objetiva de ter terminado na primeira colocação. Mas isso, isoladamente, não permite afirmar quem vencerá o segundo turno.

As últimas simulações divulgadas antes da votação estavam divididas. No conjunto de 14 pesquisas analisadas pelo Poder360, Flávio aparecia numericamente à frente em seis, Lula em seis e duas registravam empate numérico.

O próprio Datafolha apontava, antes do primeiro turno, 48% para Lula e 45% para Flávio no segundo turno, diferença dentro da margem de erro. A AtlasIntel, em levantamento anterior, registrava praticamente empate: 47,6% para Flávio e 47,7% para Lula.

Ou seja: as pesquisas de segundo turno não autorizavam, antes mesmo da votação, falar em favoritismo consolidado. E o resultado do primeiro turno também não resolve a questão.

O que existe agora é uma disputa entre dois eleitorados já conhecidos e uma massa considerável de votos que precisa ser conquistada.

Flávio entra no segundo turno com a vantagem matemática de ter terminado na frente e com a demonstração de força de um eleitorado que as últimas pesquisas subestimaram.

Lula entra com uma base de quase 54 milhões de votos, experiência eleitoral acumulada e a possibilidade de disputar diretamente os eleitores que rejeitam o retorno da família Bolsonaro.

Entre os dois, abre-se agora uma batalha por Cury, Renan, Caiado, pelos demais candidatos e, principalmente, pelos milhões que ficaram em casa.

O primeiro turno produziu uma mensagem clara: a eleição não pertence a Lula, nem a Flávio. Pertence ao eleitor que ainda não decidiu para onde levará seu voto.

E é justamente por isso que o segundo turno começa com uma certeza e uma incógnita.

A certeza é que Flávio Bolsonaro terminou na frente.

A incógnita é se os votos que o colocaram na liderança são suficientes para sustentar essa vantagem depois que a disputa deixar de ser entre vários candidatos e passar a ser, novamente, uma escolha binária.

Agora são 20 dias de campanha. E, desta vez, nenhuma pesquisa poderá votar no lugar do eleitor.

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