
Eleição é, de fato, uma caixinha de surpresas. E o pleito de 2026 parece ter decidido provar isso em escala nacional e estadual.
Quantos resultados fora da curva, não é mesmo? Flávio Bolsonaro no segundo turno e em primeiro lugar, com 47,03% dos votos válidos. Pesquisas que chegaram ao fim da corrida sem conseguir capturar integralmente o movimento das urnas. Candidaturas que surpreenderam para cima e para baixo. E, no Piauí, uma surpresa particularmente expressiva: Rafael Fonteles reeleito no primeiro turno, com 70,90% dos votos válidos. Foram 1.436.697 votos.
Quem diria?
O governador que chegou à campanha cercado por cobranças da oposição terminou a eleição com uma votação acachapante. Joel Rodrigues ficou com 27,54%. A diferença foi de mais de 878 mil votos.
É a velha e implacável lógica das urnas: o eleitor pode ouvir uma coisa, ler outra, acompanhar uma terceira e, na hora H, apertar um botão completamente diferente daquele imaginado pelos analistas.
No caso de Fonteles, há uma questão política que merece ser examinada sem paixão: como explicar uma votação tão expressiva diante das críticas acumuladas ao primeiro mandato?
A oposição passou a campanha apontando uma extensa lista de promessas e projetos que, em sua avaliação, não foram entregues ou não alcançaram os resultados anunciados. Entre as cobranças estão o Porto de Luís Correia, o projeto de hidrogênio verde, iniciativas relacionadas à integração hídrica do Estado, o abastecimento de água, a política de instalação de hidrômetros, a cobrança sobre geração de energia solar, além de críticas às áreas de saúde e educação.
Essas são críticas políticas da oposição, e não podem ser transformadas automaticamente em fatos comprovados apenas porque foram repetidas durante a campanha. Mas também não desaparecem porque o governador venceu. Cabe ao jornalismo e à sociedade continuar verificando o que foi prometido, o que foi efetivamente entregue e o que ainda está no terreno das promessas.
E foi justamente aí que a eleição produziu sua maior ironia.
O eleitor ouviu as críticas e, ainda assim, deu a Fonteles mais de sete em cada dez votos válidos.
Não há instituto de pesquisa, comentarista, adversário ou jornalista que possa modificar esse resultado. A urna falou. E falou muito alto.
Havia, inclusive, quem trabalhasse com a hipótese de que um eventual revés de Lula no cenário nacional poderia contaminar o resultado do Piauí. A lógica parecia simples: se o padrinho político perdesse força em Brasília, o afilhado poderia pagar a conta em Teresina.
Não aconteceu.
Fonteles não apenas sobreviveu a essa hipótese como saiu da eleição politicamente fortalecido.
E aqui mora a parte mais interessante — e talvez mais preocupante, dependendo da ótica.
Uma vitória de 70,90% não é apenas uma vitória. É um mandato político extraordinariamente robusto.
O eleitor piauiense entregou ao governador um segundo mandato com uma margem de confiança que reduz drasticamente o espaço eleitoral da oposição imediata. E isso aumenta, na mesma proporção, a responsabilidade do próprio governador.
Porque o cheque eleitoral foi grande.
Agora vem a cobrança.
Se havia obras, projetos e promessas do primeiro mandato que a oposição considerava pendentes, o segundo mandato terá de responder a elas. Se havia problemas de abastecimento, saúde, educação ou infraestrutura, será preciso enfrentá-los. Se as políticas implantadas pelo governo são corretas, será preciso demonstrar seus resultados.
A eleição encerrou a disputa eleitoral. Não encerrou a fiscalização.
E é aí que entra a velha piada piauiense sobre empréstimos.
Diante de uma vitória desse tamanho, alguém poderia até imaginar que o governo ganhou um cheque em branco. Se dependesse do humor dos críticos, Rafael pediria um novo empréstimo antes da diplomação e mais dois antes da posse.
Duvida?
Depois desta eleição, sinceramente, fica difícil duvidar de qualquer coisa.
Mas há uma diferença fundamental: o eleitor não entregou autorização para governar sem fiscalização. Entregou um mandato.
E mandato democrático não é salvo-conduto.
Até onde os dados oficiais permitem afirmar, o processo de votação transcorreu dentro da normalidade, e o TSE registrou a totalização de 100% das urnas no Piauí.
Portanto, ao bom democrata resta fazer aquilo que a democracia exige: respeitar o resultado, reconhecer a vontade do eleitor e continuar cobrando o eleito.
Quem votou em Fonteles tem o direito de comemorar.
Quem não votou tem o mesmo direito de fiscalizar.
E a imprensa tem a obrigação de fazer as duas coisas: registrar a vitória quando ela acontece e cobrar as promessas quando chegar a hora de entregar.
Porque, no fim das contas, pesquisa pode errar, analista pode errar, adversário pode errar, governo pode errar e oposição também pode errar.
Mas, numa democracia, a decisão soberana pertence ao eleitor.
E no dia 4 de outubro de 2026, o eleitor piauiense falou.
Falou com 70,90% dos votos válidos.
Agora é esperar para ver o que o governador fará com tamanho voto de confiança.
A eleição acabou. O mandato, não.
O POVO É SOBERANO Ciro reconhece a voz das urnas e encerra ciclo no Senado com respeito ao eleitor
PESQUISAS FALHARAM Flávio surpreende, Lula perde terreno e o segundo turno começa do zero
FIM DA ERA LULA! Eis o grande derrotado! Mín. 21° Máx. 40°