
A água, ou melhor, a falta dela, persiste no Piauí.
E já não é possível tratar o problema como uma reclamação isolada de moradores de um ou outro município. A crise ganhou dimensão política, espalhou-se pelo Estado e provocou reações de Norte a Sul, de Leste a Oeste.
O povo está indo às ruas. Prefeitos estão cobrando. A Justiça está sendo acionada. E a classe política finalmente percebeu que a água que não chega à torneira pode chegar, e com força, ao debate eleitoral.
Os movimentos acontecem praticamente todos os dias.
Em Uruçuí, o episódio mais recente ganhou repercussão estadual. O prefeito Gilberto Júnior foi pessoalmente até o bairro São Francisco II, onde moradores enfrentavam problemas no abastecimento, e cobrou explicações de funcionários da Águas do Piauí que trabalhavam em uma obra no local. Uma moradora relatou estar havia cinco dias sem água. A situação já havia chegado à Justiça, que determinou multa diária de R$ 10 mil à concessionária diante do problema no abastecimento.
O episódio é simbólico.
Justamente num bairro onde a população sofre com a falta d’água, lá estava a concessionária fazendo uma obra. E o prefeito foi conferir de perto, cobrar e questionar.
Não é mais apenas o cidadão reclamando na calçada.
É o prefeito cobrando na obra.
E não é somente Uruçuí.
Em Castelo do Piauí, no Norte do Estado, moradores denunciaram interrupções que chegaram a deixar famílias até seis dias sem água. Sem abastecimento, muita gente precisou comprar água mineral para beber, cozinhar e realizar tarefas básicas de higiene.
Em Santo Inácio do Piauí, a própria Prefeitura recorreu à Justiça alegando períodos prolongados de desabastecimento e pedindo providências contra a concessionária.
Em Várzea Branca, o Ministério Público também acionou a Justiça após receber reclamações sobre interrupções frequentes e prolongadas no fornecimento.
Ou seja, a crise não está concentrada em uma única região.
Ela se espalha.
E, quando um problema se espalha dessa maneira, deixa de ser apenas operacional. Torna-se problema de gestão pública.
A oposição percebeu o tamanho do problema e decidiu bater forte.
Joel Rodrigues transformou a água na torneira em uma das principais bandeiras de sua campanha. O candidato do Progressistas afirma que o governo precisa resolver o que considera básico antes de apresentar grandes projetos. Em discurso recente, disse que Rafael Fonteles é “bom em cálculos e números”, mas que não teria resolvido problemas essenciais como saúde e água.
Em outro momento da campanha, Joel colocou a questão de maneira ainda mais direta: “água na torneira dos piauienses” está entre as prioridades que pretende adotar caso seja eleito.
No debate da O Dia TV, o assunto também provocou confronto direto entre os dois candidatos. Joel afirmou que “o povo do Piauí passa sede”, enquanto Rafael respondeu atribuindo o problema à incapacidade operacional da antiga Agespisa e defendeu as medidas adotadas pelo governo para ampliar o abastecimento.
A discussão, portanto, está posta.
E dificilmente desaparecerá enquanto houver piauienses abrindo a torneira e encontrando apenas ar.
É importante reconhecer que o Governo do Estado apresenta ações e investimentos no setor e que a própria Águas do Piauí anuncia intervenções, manutenção de poços e medidas emergenciais em diversos municípios. A concessionária, inclusive, mantém uma operação específica para o período do B-R-O-Bró, quando a demanda por água aumenta.
Mas existe uma diferença entre anunciar obras e garantir água regularmente.
Entre instalar equipamentos e fazer a água chegar.
Entre divulgar números e abrir a torneira.
É justamente nessa diferença que está o desgaste político.
Porque o cidadão não bebe anúncio.
Não cozinha com propaganda.
Não toma banho com estatística.
Ele precisa de água.
Rafael Fonteles chega à reta final do mandato tendo de administrar uma contradição politicamente incômoda.
De um lado, um governo que apresenta projetos de grande porte e uma agenda de desenvolvimento para o Estado.
De outro, uma população que, em diferentes municípios, ainda enfrenta um problema básico: água dentro de casa.
O próprio Plano de Governo registrado para um eventual segundo mandato coloca saneamento e recursos hídricos entre os eixos estratégicos da administração.
Mas é justamente o básico que está sendo cobrado agora.
O hidrogênio verde pode esperar.
O porto pode esperar.
Grandes projetos de infraestrutura podem esperar.
A água, não.
Quem está com a torneira seca não quer saber do futuro distante. Quer saber quando a água vai chegar.
E é por isso que a falta d’água se transformou, talvez, no calcanhar de Aquiles político do governo.
Não porque a oposição diga isso.
Mas porque o problema deixou os discursos, atravessou as fronteiras partidárias, chegou aos prefeitos, aos promotores, aos juízes e, principalmente, às casas dos piauienses.
A água virou assunto de campanha.
Virou assunto de prefeitura.
Virou assunto de Justiça.
E, acima de tudo, virou assunto de rua.
Agora, a pergunta que fica para o Governo do Estado é simples:
quanto tempo ainda será necessário para que o piauiense possa abrir a torneira e encontrar aquilo que deveria ser o mais básico dos serviços públicos, água?
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