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Editorial FAVAS CONTADAS

PIAUÍ — A SUÍÇA DE PAPEL E A CONTA DAS PRÓXIMAS GERAÇÕES

O problema começa quando a propaganda termina e o cidadão volta para casa.

30/08/2026 às 07h58
Por: Arthur Feitosa Fonte: Arthur Feitosa
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PIAUÍ — A SUÍÇA DE PAPEL E A CONTA DAS PRÓXIMAS GERAÇÕES

Nas peças publicitárias que ocupam as telas de televisão, as emissoras de rádio, os blogs, os portais de notícias e as redes sociais, o Piauí apresentado pelo governo parece viver uma transformação quase sem precedentes. É um estado que se anuncia digital, moderno, internacionalizado, protagonista da transição energética e capaz de oferecer serviços públicos cada vez mais eficientes. Aos poucos, constrói-se no imaginário coletivo uma espécie de “Suíça nordestina”, cuidadosamente produzida nos gabinetes e estúdios de comunicação do Palácio de Karnak.

O problema começa quando a propaganda termina e o cidadão volta para casa.

É nesse intervalo entre o Piauí anunciado e o Piauí vivido que surge uma pergunta incômoda: quanto dessa prosperidade já existe de fato e quanto ainda pertence ao território das promessas, dos projetos, dos memorandos, dos financiamentos e das peças publicitárias?

A educação talvez seja um dos exemplos mais interessantes porque exige reconhecer os avanços antes de fazer qualquer crítica. O Piauí obteve, de fato, resultados expressivos no IDEB de 2025. Segundo o Inep, a rede pública alcançou 4,9 no ensino médio, acima dos 4,3 registrados em 2023, enquanto o resultado considerando todas as redes chegou a 5,0. É o melhor desempenho do estado na série histórica e um avanço que merece ser reconhecido.

Mas reconhecer um indicador positivo não significa transformar uma estatística em certificado absoluto de excelência.

O IDEB combina desempenho em avaliações com fluxo escolar e taxas de aprovação. É um instrumento importante para medir a evolução do sistema, mas não fotografa sozinho todas as dimensões da qualidade educacional. Não mede integralmente as condições físicas de cada escola, a qualidade cotidiana da infraestrutura, a disponibilidade de professores em todas as disciplinas, as diferenças entre regiões, a formação efetivamente recebida pelos estudantes ou a distância existente entre unidades consideradas exemplares e aquelas que ainda convivem com carências históricas.

O risco surge quando um avanço estatístico real deixa de ser apresentado como avanço e passa a funcionar como prova publicitária de que os problemas estruturais foram resolvidos.

Na saúde, a distância entre a modernização anunciada e a experiência cotidiana de parte da população merece atenção ainda maior. O Piauí Saúde Digital foi apresentado como uma das grandes vitrines tecnológicas do governo, com a promessa legítima e necessária de levar consultas especializadas a municípios onde o acesso presencial é difícil. A telemedicina pode, de fato, representar uma ferramenta extraordinária em um estado extenso, desigual e marcado por grandes vazios assistenciais.

Mas inovação não elimina a obrigação de transparência.

O Contrato nº 340/2023, firmado pela Secretaria de Estado da Saúde para a plataforma de telemedicina, tornou-se objeto de questionamentos públicos justamente por sua dimensão financeira e pelo modelo de contratação. Celebrado por inexigibilidade de licitação, o contrato aparece em levantamentos recentes feitos a partir de registros do Portal da Transparência com valor original de aproximadamente R$ 180 milhões e valor total registrado superior a R$ 522 milhões.

Mais de meio bilhão de reais transforma qualquer política pública em assunto de interesse permanente dos órgãos de controle e da sociedade.

A discussão correta, portanto, não é se a telemedicina deve existir. Evidentemente deve. A pergunta é outra: quanto está sendo pago, por quais serviços, com quais critérios, quantos atendimentos efetivamente foram realizados e qual o custo real de cada atendimento entregue ao cidadão?

Tecnologia pública sem indicadores transparentes de custo e resultado corre o risco de produzir mais deslumbramento do que eficiência.

Ao mesmo tempo, hospitais, unidades de saúde e serviços presenciais continuam sendo a porta pela qual entra a maioria dos piauienses que depende do SUS. É justamente aí que a modernidade anunciada precisa encontrar a realidade. Não basta colocar a medicina na tela do celular se faltarem medicamentos, especialistas, exames, leitos, manutenção, climatização adequada ou condições dignas de atendimento na ponta. A tecnologia deve complementar uma rede presencial eficiente, nunca servir de cortina para suas deficiências.

Na segurança pública, talvez esteja um dos exemplos mais reveladores da distância que pode existir entre uma estatística agregada e a vida cotidiana.

Os indicadores oficiais precisam ser reconhecidos. O Atlas da Violência 2026, com dados referentes a 2024, colocou o Piauí com a menor taxa de homicídios do Nordeste. A própria Secretaria de Segurança Pública também divulgou reduções expressivas nos homicídios, roubos com arma de fogo, roubos de veículos e furtos gerais em Teresina.

São números relevantes e não devem ser simplesmente ignorados.

O problema é imaginar que eles, sozinhos, descrevam a segurança que o cidadão encontra quando abre a porta de casa ou levanta a porta de sua loja pela manhã.

No Centro de Teresina, o cotidiano recente dos comerciantes apresenta uma fotografia desconcertante quando colocada ao lado da estatística oficial. Em menos de um mês, 48 boletins de ocorrência relacionados a furtos de máquinas de ar-condicionado, condensadores, fiação elétrica e arrombamentos foram contabilizados pelo Sindicato dos Lojistas do Comércio do Estado do Piauí. A concentração dos casos levou representantes do Sindilojas a procurar a própria Secretaria de Segurança Pública e reivindicar reforço do policiamento noturno.

Não estamos, portanto, falando apenas de “sensação de insegurança”.

Estamos falando de boletins de ocorrência.

De estabelecimentos arrombados.

De fios arrancados.

De equipamentos de climatização retirados das fachadas.

De comerciantes que chegam para trabalhar e encontram suas lojas sem energia elétrica ou sem condições de funcionar.

A situação tornou-se suficientemente grave para que, no início de agosto, comerciantes realizassem manifestação pública no Centro da capital pedindo segurança. Poucos dias depois, o próprio Sindilojas levou formalmente o problema à cúpula da segurança pública. E, em 21 de agosto, a Polícia Civil realizou operação que resultou em prisões relacionadas à receptação e ao furto de condensadores de aparelhos de ar-condicionado, cobre, alumínio e outros materiais na região central.

Existe, portanto, um contraponto que precisa ser explicado.

Se os indicadores gerais apontam queda tão expressiva da criminalidade, por que comerciantes de uma das regiões economicamente mais importantes da capital precisam se reunir com o secretário de Segurança Pública para pedir policiamento?

Se os furtos diminuíram, por que 48 boletins de ocorrência desse tipo foram registrados em um intervalo inferior a um mês justamente no coração comercial de Teresina?

A resposta talvez esteja menos numa suposta falsidade dos números e mais na maneira como os números são selecionados e apresentados.

Uma estatística estadual ou municipal pode demonstrar redução de homicídios e roubos em determinado período e, ao mesmo tempo, esconder concentrações territoriais de criminalidade extremamente graves. Uma média positiva para toda a cidade não consola o comerciante que foi arrombado duas ou três vezes na mesma rua. Da mesma forma, a queda percentual de uma modalidade criminosa não significa que determinadas regiões estejam protegidas.

Segurança pública não pode ser reduzida a uma coleção de percentuais favoráveis.

A estatística deve servir para compreender a realidade, não para substituí-la.

Quando a experiência concreta de dezenas de comerciantes começa a divergir radicalmente da fotografia institucional apresentada à população, cabe ao poder público explicar a divergência, abrir os dados por região e modalidade criminosa e demonstrar, com transparência, onde os crimes estão ocorrendo, com que frequência e quais providências estão sendo tomadas.

Do contrário, corre-se o risco de produzir também na segurança uma realidade de papel: impecável nos gráficos e irreconhecível para quem precisa abrir uma loja todas as manhãs.

E então chegamos à mais ambiciosa das vitrines: o hidrogênio verde.

O governo apresenta o Piauí como futuro protagonista mundial dessa nova economia energética. Projetos anunciados para a Zona de Processamento de Exportação de Parnaíba chegaram a ser divulgados com perspectiva de investimentos da ordem de centenas de bilhões de reais e capacidade projetada de produção em escala gigantesca.

Mas entre anunciar uma potência energética e construir uma potência energética existe uma longa distância.

Produzir hidrogênio verde em escala industrial exige enormes volumes de energia renovável, infraestrutura de transmissão, água, plantas de eletrólise, logística, armazenamento, transformação em derivados como amônia, infraestrutura portuária, contratos internacionais de longo prazo, licenciamento ambiental e compradores dispostos a pagar um preço competitivo pelo produto.

Projetos dessa magnitude levam anos para amadurecer mesmo em economias dotadas de infraestrutura industrial e portuária consolidada. No Piauí, portanto, é prudente distinguir aquilo que já está contratado, financiado e construído daquilo que ainda constitui intenção de investimento.

Memorando não é fábrica.

Protocolo de intenções não é emprego.

Pedra fundamental não é produção industrial. 

E investimento anunciado não é dinheiro necessariamente investido.

É justamente nesse ponto que a discussão deixa o terreno da propaganda e entra no território das finanças públicas.

Enquanto o Piauí do futuro é apresentado em eventos nacionais e internacionais, o Piauí do presente amplia seu endividamento. Segundo o Relatório de Gestão Fiscal do próprio Estado, a dívida consolidada passou de aproximadamente R$ 10,5 bilhões no encerramento de 2023 para R$ 13,18 bilhões ao final de 2024. Em apenas um exercício, portanto, houve um aumento nominal de cerca de R$ 2,68 bilhões.

Não se trata de afirmar que todo endividamento público seja ruim. Estados investem por meio de crédito, e operações financeiras podem ser instrumentos legítimos para antecipar obras de infraestrutura capazes de gerar desenvolvimento durante décadas.

A questão essencial é outra: qual dívida está sendo contratada, a que custo, por quanto tempo e para produzir exatamente quais resultados?

O próprio governo anunciou uma operação de crédito de R$ 2 bilhões com o Banco do Brasil, destinada a investimentos em infraestrutura, mobilidade, saúde, segurança, transformação digital e outras áreas.

Dois bilhões não são apenas um número numa autorização legislativa.

São recursos que terão de ser pagos.

Com juros.

Por governos futuros.

Com receitas futuras.

Por contribuintes que talvez hoje ainda estejam na escola, ou sequer tenham nascido.

É aqui que a “Suíça de papel” encontra sua conta.

Governos passam. Governadores deixam o Palácio de Karnak. Campanhas publicitárias desaparecem. Outdoors são retirados. Vídeos institucionais envelhecem. Slogans são substituídos.

A dívida permanece.

Por isso, a discussão sobre o futuro do Piauí não deveria ser travada entre os que acreditam em tudo que o governo anuncia e aqueles que desejam negar qualquer avanço. Essa polarização interessa justamente a quem prefere propaganda a fiscalização.

O estado avançou em determinados indicadores. Isso é fato.

Possui extraordinário potencial energético. Também é fato.

Pode transformar sua posição geográfica, sua produção de energia renovável e seus projetos logísticos em instrumentos de desenvolvimento. É perfeitamente possível.

Mas potencial não é patrimônio realizado, promessa não é receita, propaganda não é política pública e empréstimo não é riqueza.

Há ainda outro componente indispensável nessa equação: a qualidade do contraditório. Democracias saudáveis dependem de imprensa independente, oposição atuante, órgãos de controle fortes e sociedade civil capaz de perguntar sem constrangimento onde, como e por que o dinheiro público está sendo gasto. Quando governos passam a ocupar excessivamente o espaço informativo por meio de publicidade institucional e relações financeiras com veículos de comunicação, cresce a responsabilidade desses próprios veículos de separar informação, publicidade e interesse público.

Nenhum governo deveria temer fiscalização. Ao contrário: quanto maior o projeto anunciado, maior deve ser a transparência exigida.

O Piauí não precisa ser a Suíça.

Precisa ser um Piauí que funcione.

Um estado em que a escola pública ensine de verdade, o hospital atenda com dignidade, a tecnologia reduza distâncias em vez de apenas produzir manchetes, a polícia proteja o cidadão, os grandes projetos ultrapassem a fase das apresentações de PowerPoint e cada real tomado emprestado deixe como herança um patrimônio público maior do que a dívida contraída para financiá-lo.

Porque existe uma diferença fundamental entre investir no futuro e hipotecá-lo.

A primeira escolha constrói uma geração.

A segunda apenas transfere a conta para ela.

E talvez seja essa a pergunta que nenhuma campanha publicitária consiga responder: quando as luzes da propaganda se apagarem, o que restará aos piauienses, as obras, os empregos e o desenvolvimento prometidos ou apenas as prestações daquilo que foi anunciado em seu nome?

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