
O espetáculo da política piauiense acaba de nos brindar com mais uma amostra pedagógica do abismo que separa a oligarquia encastelada no poder e a realidade do povo que ela pretende representar. O protagonista da vez é Vinícius Dias, médico de formação, detentor de todos os mimos que a aristocracia estatal pode financiar e rebento direto da mais influente dinastia política do estado: filho de Wellington Dias, Ministro de Estado e quatro vezes governador, e de Rejane Dias, ex-deputada, ex-secretária de Educação e hoje acomodada na vitaliciedade das poltronas do Tribunal de Contas do Estado.
Ao tentar prestar uma homenagem à cidade de Parnaíba por sua emancipação política, o jovem postulante a uma cadeira na Assembleia Legislativa gravou um vídeo que rapidamente viralizou pelo tom farsesco. Com a insegurança típica de quem decorou um jogral sem entender o texto, afirmou categoricamente que a “Princesa do Igaraçú” teria sido a primeira capital do Piauí. O erro historiográfico, que envergonharia qualquer estudante do ensino fundamental, não é mero deslize: é um atestado vivo de alienação, ignora o básico da terra onde nasceu e escancara a indigência intelectual de quem quer ditar os rumos do estado.
Não sejamos levianos em culpar as instituições privadas de ensino. O jovem médico nunca colocou os pés no chão esburacado, janelas quebradas de uma escola pública piauiense, aquelas mesmas que sua mãe geriu como Secretária e seu pai abandonou ao sucateamento e à penúria durante longos dezesseis anos de governo. Não. O herdeiro frequentou os bancos mais caros e exclusivos da iniciativa privada, dotados da melhor infraestrutura que o dinheiro pode pagar. Se nada aprendeu sobre a história do próprio Piauí, a culpa não é do currículo ou dos professores: é da pura inapetência, do desinteresse e do desprezo acadêmico de quem cresceu ciente de que o sobrenome lhe garantia a vida sem a necessidade de grande esforço intelectual. Enquanto o filho da classe trabalhadora estuda em salas muitas vezes sem ventilador e luta por um livro didático, o filho do poder flana de jatinho para praias paradisíacas, blindado de qualquer rigor ou cobrança.
A piada, no entanto, é trágica e traduz o modelo de governança que se instalou no Piauí. O projeto de poder hegemônico concentrou-se em distribuir pequenos nacos de influência a lideranças locais, vereadores, prefeitos e presidentes de associações, fechando todas as janelas para a renovação real. O resultado desse loteamento é a transformação do Parlamento Estadual em um condomínio familiar caríssimo, um cartório homologatório de luxo mantido com o dinheiro do contribuinte apenas para carimbar empréstimos em regime de urgência e ratificar a vontade soberana do Palácio de Karnak.
É nesse cenário de submissão e pequenez institucional que se tenta emplacar mais um herdeiro. Querem transformar a Assembleia Legislativa em extensão da sala de estar da família, estendendo aos filhos as mesmas prerrogativas dos pais, sem exigir em troca o mínimo de bagagem cultural ou preparo técnico.
Apagar o vídeo das redes sociais, como fez o doutor candidato após a repercussão vexatória, é inútil. A internet preserva a memória e escancara a fraude. O erro de Vinícius Dias expõe as entranhas de um sistema que fatia o estado e espera que a população aceite a mediocridade como destino. Legislar e fiscalizar exigem preparo, massa cinzenta e respeito às raízes de um povo; não são dons transmitidos por hereditariedade ou garantidos por um diploma de medicina. Se falta ao candidato o conhecimento elementar da historiografia piauiense, sobra-lhe a arrogância dos privilegiados. Resta saber se o eleitor continuará aceitando ser representado por quem sequer sabe de onde o Piauí veio, mas já aprendeu perfeitamente como se servir dele.
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