
Na Fazenda Boqueirão do Adolfo, o dia começava muito antes de o sol aparecer no horizonte. Primeiro vinham os galos, despertando o terreiro ainda úmido pelo orvalho; depois, o mugido das vacas, o tinido dos baldes e as vozes dos vaqueiros conduzindo o rebanho para a ordenha. Mais adiante, o velho engenho de ferro começava a ranger, movido pelo passo paciente de parelhas de bois cevados que giravam durante horas esmagando a cana-de-açúcar. O caldo corria pelas bicas de madeira e terminava nos grandes tachos, de onde saíam a rapadura, o mel de engenho, o vinagre e uma cachaça afamada nas redondezas. Era assim que amanhecia o Boqueirão, uma propriedade de criação de gado e terras férteis que pertencera ao ex-governador do Piauí Miguel Rosa e que agora prosperava sob o comando firme do Capitão Adolfo.
Quase tudo o que se consumia era produzido ali mesmo, como acontecia nas grandes propriedades rurais de um tempo em que as fazendas eram pequenos mundos quase autossuficientes. O leite saía do curral para a mesa ainda quente, o queijo coalho e a manteiga da terra eram preparados na própria fazenda, enquanto da cozinha de lenha chegavam o cheiro do café torrado e pilado em casa, do cuscuz de milho, da macaxeira, da batata-doce e dos ovos de galinha caipira. Nos dias de mesa mais farta havia carne de sol, paçoca socada no pilão, carneiro cozido, capão guisado e leitão assado. Nos tachos de cobre engrossavam o doce de leite e as compotas de caju, goiaba e mamão, enquanto, no tempo da moagem, o cheiro adocicado do caldo de cana fervendo se espalhava pelo terreiro e se confundia com a fumaça da lenha. Não havia luxo no sentido urbano da palavra, mas havia abundância, e talvez fosse justamente essa fartura rústica que dava à vida no Boqueirão uma grandeza que hoje dificilmente se poderia reproduzir.
Entre os costumes da fazenda, um dos mais curiosos era guardar os chifres dos bois mais bonitos e imponentes que haviam passado pelos currais. Depois de cuidadosamente cortados, polidos e trabalhados à mão, transformavam-se em copos reluzentes, alguns rajados de castanho e âmbar, outros quase negros. Beber neles o leite mugido, ainda morno e coberto de espuma, era uma tradição e também uma espécie de luxo caboclo, algo que, na simplicidade da roça, tinha para os moradores do Boqueirão o mesmo valor que os cálices de cristal exibidos nas mansões da capital.
Foi entre o curral, os cavalos e aqueles copos de chifre que começou a história de Alzira e Fernando. Alzirinha, como era chamada desde pequena, era filha do vaqueiro mais antigo da propriedade, homem respeitado e de inteira confiança do Capitão Adolfo, uma espécie de capataz e autoridade natural entre os trabalhadores. Sua mãe, senhora distinta e dedicada, colaborava na rotina da casa-grande. A menina chamava atenção pelos longos cabelos muito loiros, que sob o sol adquiriam reflexos dourados, pela pele clara e pelos olhos de um azul-turquesa pouco comum naquela região. Mas bastavam alguns minutos ao seu lado para perceber que sua característica mais marcante não era a beleza. Era a coragem. Alzira gostava dos animais, aprendia depressa tudo o que o pai lhe ensinava e, mal terminava as obrigações da escola, corria para o curral. Ainda muito nova já montava cavalos que assustavam meninos mais velhos e parecia compreender, pelo movimento das orelhas ou pelo jeito de pisar, quando um animal estava tranquilo ou prestes a disparar.
Fernando, filho varão do Capitão Adolfo, era seu companheiro inseparável. Menino forte, inquieto e destemido, crescera com a liberdade das crianças criadas em fazenda, onde os limites do mundo pareciam terminar apenas depois das últimas cercas. Os dois corriam pelo terreiro, disputavam cavalos, atravessavam riachos depois das chuvas, acompanhavam os vaqueiros a distância e desapareciam por horas pelas estradas da propriedade. Quando o cansaço chegava, sentavam-se sobre as grossas cercas feitas de troncos de carnaúba e sapucaia, bebiam leite quente nos copos de chifre e conversavam sobre o futuro com aquela segurança que somente as crianças possuem. Fernando dizia que um dia conheceria cidades grandes; Alzira respondia que não via motivo para abandonar o Boqueirão. Ele dizia que partiria, mas voltaria. Ela dizia que esperaria.
Foi debaixo de uma velha figueira próxima ao curral que os dois transformaram a brincadeira em promessa. Fernando segurou a mão de Alzirinha e jurou que, não importava para onde a vida o levasse, um dia retornaria. Ela acreditou com a naturalidade de quem ainda não aprendera que o mundo dos adultos era governado por interesses, conveniências e diferenças sociais. Naquele momento eram apenas duas crianças e, para elas, isso bastava.
O problema surgiu quando deixaram de ser crianças. À medida que Fernando crescia e Alzira se transformava numa bonita adolescente, os pais do rapaz começaram a observar aquela proximidade com outros olhos. Na sociedade rural daquele tempo havia fronteiras invisíveis, mas muito bem demarcadas. O filho do proprietário podia brincar com a filha do vaqueiro, cavalgar ao lado dela, dividir frutas e beber no mesmo copo; o que não se admitia era que aquela amizade atravessasse a adolescência e ameaçasse transformar-se em casamento. Fernando era o herdeiro da fazenda. Alzira, por mais querida e respeitada que fosse sua família, continuava sendo a filha de um empregado.
O Capitão Adolfo e sua esposa não quiseram constranger os pais da menina, gente dedicada à fazenda havia muitos anos. Preferiram uma solução comum entre famílias abastadas daquele período: Fernando iria para a capital estudar, formar-se, tornar-se doutor e preparar-se para um dia assumir os negócios da família. Ninguém precisou dizer que a distância também serviria para fazê-lo esquecer Alzira e, quem sabe, aproximá-lo de alguma jovem de família tradicional. Na manhã da partida, porém, antes que o carro deixasse a fazenda, Fernando procurou Alzirinha junto à velha figueira e repetiu a promessa. Voltaria. Ela permaneceu ali vendo o automóvel desaparecer pela estrada de terra, envolvido por uma nuvem avermelhada de poeira, até que já não fosse possível distinguir coisa alguma.
Dez anos se passaram. Na capital, Fernando cumpriu tudo aquilo que a família planejara para ele. Estudou, formou-se, tornou-se um homem influente, de porte atlético e formação acadêmica impecável, aprendeu os códigos da vida urbana e passou a circular pelos ambientes frequentados pelas famílias mais importantes. Não lhe faltavam festas, clubes, restaurantes e jovens interessadas naquele rapaz que reunia boa aparência, diploma e patrimônio. O problema é que, por mais que tentasse adaptar-se à nova vida, alguma parte dele permanecia no Boqueirão. Em momentos inesperados, voltavam o cheiro da terra molhada, o barulho do engenho, o leite quente no copo de chifre, a sombra da figueira e a imagem de uma menina loira galopando à sua frente.
Alzira, por sua vez, havia se transformado numa mulher de beleza impressionante e temperamento ainda mais indomável. Alta, forte, ágil e excelente cavaleira, recusou a vida pacata que muitos imaginavam para uma moça de sua condição e tornou-se uma amazona conhecida nas redondezas. Participava de provas e torneios de derrubada de boi, enfrentando com naturalidade vaqueiros experientes e despertando admiração por onde passava. Não lhe faltaram pretendentes. Alguns apareciam nos torneios com o pretexto de competir, outros inventavam razões para acompanhá-la nas cavalgadas, mas nenhum conseguia permanecer muito tempo ao seu lado. Alzira nunca explicava suas recusas. Guardava consigo a lembrança do menino que partira e uma promessa que, depois de tantos anos, qualquer pessoa sensata já teria considerado esquecida.
Até que chegou a notícia: Fernando estava voltando.
O Capitão Adolfo decidiu transformar a formatura do filho numa grande celebração. Durante dias a casa-grande foi preparada para receber convidados. Os assoalhos foram encerados, as melhores louças saíram dos armários, toalhas bordadas cobriram as mesas e a cozinha trabalhou desde cedo na preparação de carneiros, leitões, capões, carne de sol, paçoca, arroz, farofas, queijos, bolos de milho e macaxeira, doces de leite e compotas de frutas. A melhor cachaça do engenho foi reservada para os convidados mais antigos, enquanto bebidas vindas da capital ocupavam as mesas do salão. Famílias importantes da região foram convidadas, muitas delas acompanhadas de filhas em idade de casar, porque o baile tinha também uma finalidade que ninguém precisava anunciar: apresentar à sociedade o Doutor Fernando e, se possível, aproximá-lo de alguma jovem considerada adequada ao nome e à posição da família.
Alzira não foi convidada. Nem seus pais.
Na noite da festa, quando os faróis do automóvel esportivo de Fernando surgiram na estrada, os convidados se aproximaram da entrada da casa-grande. O carro parou diante da escadaria de pedra e o rapaz foi recebido com aplausos. O Capitão Adolfo abriu os braços, a mãe se emocionou e todos queriam cumprimentar o jovem doutor que retornava depois de uma década. Fernando abraçou os pais e começou a receber as homenagens, mas seus olhos percorriam continuamente o salão, a varanda e os grupos de convidados. Procurava cabelos dourados e aqueles olhos azul-turquesa que nenhuma mulher da capital conseguira apagar de sua memória. Procurou uma vez, depois outra, até compreender que Alzira não estava ali.
Não precisou perguntar o motivo. Dez anos haviam passado, mas a velha fronteira continuava exatamente no mesmo lugar.
Fernando deixou os cumprimentos, atravessou o salão e desceu a escadaria. O pai ainda tentou chamá-lo, sem entender por que o homenageado abandonava a própria festa, mas ele seguiu pelo terreiro em direção ao curral. Passou pelo engenho, reconheceu a velha estrada e caminhou até ouvir, vindo da escuridão, o som de um cavalo. Alzira apareceu montada em seu alazão e puxou as rédeas ao vê-lo. Durante alguns instantes ficaram apenas se olhando, como se precisassem atravessar em silêncio os dez anos que os separavam.
Foi ela quem falou primeiro.
— Você demorou.
Fernando sorriu.
— Mas voltei.
Talvez nenhum dos dois tivesse imaginado que a promessa feita debaixo de uma figueira sobreviveria àquela distância. Alzira já não era a menina que ele deixara, e Fernando tampouco era o rapaz que partira. Ainda assim, alguma coisa essencial permanecera intacta. A notícia do encontro logo chegou à casa-grande e, pouco depois, apareceram o Capitão Adolfo, a esposa, parentes e alguns convidados. Vieram as objeções previsíveis. Falou-se na tradição, no nome da família, na formação de Fernando, nos compromissos que um homem de sua posição deveria assumir e no futuro que todos haviam planejado para ele.
Fernando ouviu o pai até o fim. Durante dez anos, respondeu, fizera tudo aquilo que lhe haviam pedido. Estudara, formara-se, aprendera a viver na capital e estava preparado para assumir suas responsabilidades. Havia apenas uma coisa que não permitiria que escolhessem em seu lugar: a mulher com quem dividiria a vida.
Alzira, entretanto, hesitou. A exclusão da festa ainda lhe doía. Não queria ser tolerada, muito menos entrar na casa-grande como uma concessão feita pelo filho do patrão à filha do vaqueiro. Fernando então tomou sua mão e caminhou com ela de volta à festa. Ao chegar à casa, não procurou a cozinha, a entrada lateral ou qualquer passagem discreta. Subiu com Alzira pela escadaria principal.
O salão silenciou quando os dois apareceram. Fernando estava vestido como o doutor que todos haviam ido receber. Alzira ainda trazia a roupa da cavalgada, as botas marcadas pela poeira do terreiro e os cabelos desarrumados pelo vento. Não baixou os olhos nem procurou justificar sua presença. Entrou ao lado dele e, sem que ninguém precisasse pronunciar uma palavra, uma das fronteiras mais antigas daquela casa começava a ruir.
A resistência não desapareceu naquela noite, como quase nunca desaparecem de uma hora para outra os preconceitos construídos durante gerações. Mas a determinação de Fernando e, sobretudo, a dignidade de Alzira acabaram transformando resistência em resignação e, com o tempo, resignação em respeito. Ela passou a fazer parte do destino do Boqueirão sem abandonar aquilo que sempre fora. Continuou montando, participando das cavalgadas, acompanhando a vida dos currais e preferindo o cheiro da terra depois da chuva ao perfume dos salões. Fernando conhecera a cidade grande e regressara doutor, mas talvez seu aprendizado mais importante tivesse sido descobrir que nenhuma formação valeria muito se, para ser aceito pelo próprio mundo, precisasse renunciar àquilo que realmente amava.
O tempo continuou seu galope e também passou sobre o Boqueirão. Os bois deixaram de mover o engenho, os carros de madeira desapareceram das estradas, os velhos vaqueiros foram morrendo e levando consigo histórias que ninguém teve o cuidado de escrever. As cercas de troncos cederam lugar a outros materiais, as estradas receberam asfalto e as fazendas passaram a comprar na cidade o queijo, a manteiga, os doces e tantas outras coisas que antes saíam dos próprios currais, roçados e cozinhas. A modernidade trouxe conforto e facilidade, mas levou consigo uma forma de viver que dificilmente voltará.
Talvez por isso a história de Fernando e Alzira pareça hoje tão distante. Não porque aquele passado tenha sido necessariamente melhor. Era um mundo duro, desigual e marcado por preconceitos que separavam pessoas pela origem e pela posição social. Mas havia também nele uma relação com o tempo que já não existe. Uma carta podia levar dias para chegar, uma viagem durava horas ou jornadas inteiras, uma ausência podia atravessar anos e uma promessa feita na infância ainda encontrava espaço para sobreviver.
Hoje, provavelmente, os antigos copos de chifre estariam numa estante, como peças de um tempo que os mais jovens conheceriam apenas pelas histórias dos avós. O engenho talvez fosse ruína, o curral já não teria as mesmas toras de carnaúba e a velha estrada por onde Fernando partiu poderia estar coberta de asfalto. Nada disso, porém, diminuiria o que aconteceu ali.
Gosto de imaginar que, muitos anos depois, Fernando e Alzira ainda voltavam de vez em quando à velha figueira. Talvez já não tivessem a pressa dos cavalos nem a juventude das primeiras cavalgadas, mas bastaria permanecer algum tempo em silêncio para que o Boqueirão antigo reaparecesse diante deles: os galos anunciando a madrugada, os vaqueiros chegando ao curral, os bois fazendo girar o engenho, o cheiro da rapadura nos tachos, o leite espumando nos copos de chifre e duas crianças sentadas sobre uma cerca acreditando, com a inocência que somente aquele tempo permitia, que uma promessa poderia durar para sempre.
O mundo mudou, e talvez histórias assim já não encontrem lugar nele. O Boqueirão também mudou. O tempo levou os engenhos, os velhos costumes, as distâncias e quase todos os personagens daquele interior pretérito.
Mas não levou a promessa.
Algumas, afinal, atravessam o tempo a galope.
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