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Nordeste UM 'CAUSO' REAL

O “afilhado de Kennedy” que o Ceará quase esqueceu e o Amazonas transformou em político'

Um “causo” contado há quase 30 anos nas rodas de Caxias ganha agora um personagem de carne e osso: Wanderley Dallas, o menino que recebeu o nome “Dallas” em homenagem à cidade onde John Kennedy foi assassinado

19/08/2026 às 17h05 Atualizada em 19/08/2026 às 17h12
Por: Douglas Ferreira
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Desembargador Roberto Veloso e Wanderley Dallas, o afilhado de John Kennedy - Foto: Reprodução
Desembargador Roberto Veloso e Wanderley Dallas, o afilhado de John Kennedy - Foto: Reprodução

Existem histórias verdadeiras. E existem aquelas histórias que o sertanejo chama, com aquele jeito arretado de contar vantagem, de “venéreas”. São as que vão passando de boca em boca, ganhando um tempero aqui, uma pitada acolá, até ninguém mais saber onde termina a verdade e começa a invenção.

Pois bem. Essa história aqui eu conheço há quase 30 anos.

E confesso: até quarta-feira, 19 de agosto de 2026, eu ainda tinha minhas dúvidas se era verdade ou se era mais um daqueles “causos” que o povo nordestino inventa com uma criatividade de fazer inveja a qualquer roteirista de Hollywood.

Pois não é que era verdade?

E a prova apareceu de repente, como quem não quer nada, numa fotografia enviada pelo amigo Washington Torres.

Nela, o desembargador federal Roberto Veloso aparece ao lado de um senhor que, para minha surpresa, era justamente o menino dessa história.

O menino que, segundo o relato, seria afilhado de John Fitzgerald Kennedy.

Aí, meu amigo, a coisa mudou de figura.

O cabra do Crato, o rádio e o presidente dos Estados Unidos

Vamos voltar no tempo.

Estamos no início dos anos 1960.

Lá pelas bandas do Ceará, um comerciante bem-sucedido, daqueles que o povo chamava de homem abonado, novo rico, trabalhador e metido a bem informado, acompanhava o mundo pelas ondas do rádio.

Naquele tempo não havia internet, televisão em todo canto muito menos celular.

Era rádio.

Rádio Nacional, BBC de Londres e outras emissoras eram a janela para o mundo.

E o comerciante estava antenado.

Sabia das novidades do Brasil, acompanhava as notícias internacionais e tinha especial admiração por um jovem presidente americano que havia conquistado o imaginário de muita gente mundo afora:

John Fitzgerald Kennedy.

O homem gostava tanto de Kennedy que resolveu fazer uma coisa que, convenhamos, não era para qualquer cristão.

Nasceu um filho.

E o comerciante pensou:

“Pois esse menino vai ser batizado pelo presidente dos Estados Unidos.”

O povo pode até ter achado que o homem tinha tomado umas e outras.

Mas ele não estava de brincadeira.

Pegou o que naquela época se chamava de “cabo”, uma espécie de telegrama, e mandou a mensagem para a Casa Branca.

E aí vem a primeira reviravolta.

A Casa Branca respondeu.

Kennedy teria aceitado o convite.

Pronto.

Foi aquele alvoroço.

O batizado que virou o acontecimento do ano

Imagine a cena.

Um casal do interior do Ceará preparando o batizado do filho e esperando como padrinhos ninguém menos que John Kennedy e Jacqueline Kennedy.

E não era para fazer festa meia-boca, não.

O casal botou foi pra quebrar.

Orquestra contratada no Recife.

Buffet vindo de Fortaleza.

Tudo escolhido a dedo.

Tudo no capricho.

Durante semanas, não se falava noutra coisa na região.

O assunto era um só:

o presidente americano vinha batizar o menino.

Só que aí entrou em cena aquele sujeito que ninguém convida para festa, mas que sempre aparece:

o destino.

No dia do batizado, Kennedy não conseguiu comparecer.

Mas mandou representação.

O embaixador brasileiro foi ao evento para representá-lo.

Não era exatamente a mesma coisa, claro.

Mas, para o casal, a Casa Branca estava representada.

E, como bom nordestino, o dono da festa não perdeu o rebolado.

A festa continuou.

Orquestra tocando.

Comida sendo servida.

Convidados circulando.

E o menino sendo batizado.

Até que, perto do meio-dia, chegou outro “cabo”.

Só que esse não trazia notícia boa.

Era de Washington.

John Kennedy havia sido baleado em Dallas.

O presidente dos Estados Unidos estava morto.

A festa virou luto.

E foi aí que surgiu uma das frases mais extraordinárias de toda essa história.

O pai do menino, tomado pela comoção, teria dito:

“Se meu cumpade tivesse vindo, esses pistoleiros não tinham alcançado ele.”

Pronto.

Foi aquele chororô danado.

E a mulher, com os olhos marejados, não segurou o sentimento.

Olhou para o céu, levou as mãos à cabeça e soltou:

“Como não estará passando a cumade Jacqueline numa hora dessa, meu Deus!”

É ou não é uma história que parece saída de um livro de Ariano Suassuna?

Pois é.

Só que não é ficção.

E o menino?

Aqui é que está a parte mais bonita do “causo”.

O menino não desapareceu.

Não virou lembrança de álbum antigo.

Não ficou perdido numa fotografia amarelada.

Ele cresceu.

E ganhou um nome que carregaria para o resto da vida:

José Wanderley Dallas Rei Dias.

O “Dallas” teria sido escolhido justamente em referência à cidade onde Kennedy foi assassinado.

E o menino acabou tomando outro rumo.

Muito longe do Ceará.

Foi parar no Amazonas.

Aos 14 anos, saiu do Ceará e chegou a Manaus. A biografia oficial da Assembleia Legislativa do Amazonas registra que ele nasceu em Sobral, em 19 de maio de 1959, e foi para Manaus ainda adolescente.

Ou seja, há uma correção importante na história que circulou durante décadas:

o episódio não aconteceu no Crato nem no Cariri.

A história está ligada ao Noroeste do Ceará, e o personagem nasceu em Sobral.

De menino sertanejo a político amazonense

E aí o rapaz tomou gosto pela vida.

Trabalhou de dia.

Estudou à noite.

Construiu sua trajetória.

Passou pelo rádio.

Depois foi para a televisão.

Em 1991, começou como radialista. Dois anos depois, entrou na televisão como apresentador. Mais tarde cursou Direito. Também se tornou pastor da Assembleia de Deus.

E a política veio depois.

Wanderley Dallas foi vereador de Manaus e chegou à Assembleia Legislativa do Amazonas.

Em 2002, foi eleito deputado estadual pelo PMDB com 18.710 votos, segundo o histórico eleitoral do Amazonas.

Ou seja, o menino que nasceu no Ceará e carregou no nome a lembrança de um presidente americano construiu sua vida pública no coração da Amazônia.

Mas como Roberto Veloso encontrou o “afilhado de Kennedy”?

Agora vem outra coincidência daquelas que fazem o sertanejo coçar a cabeça e dizer:

“Rapaz, isso só pode ser coisa do destino.”

Roberto Veloso já conhecia essa história havia mais de 20 anos.

Conhecia como muitos de nós conhecíamos:

pela narrativa.

Mas, em Brasília, uma colega desembargadora o chamou para ouvir uma história.

Quando ele chegou, lá estava o personagem.

Wanderley Dallas.

O próprio homem que ele conhecia apenas pelo “causo”.

Não era alguém contando a história.

Era um dos protagonistas contando a história com a própria boca.

E, segundo o relato, foi tudo “imprialzinho”, como se diz por essas bandas.

Aí não teve mais conversa.

O “causo” ganhou CPF, nome completo, rosto e fotografia.

E hoje, o que faz o “afilhado” de Kennedy?

Wanderley Dallas construiu uma longa trajetória profissional e política em Manaus.

Além da passagem pelo rádio e pela televisão, exerceu mandatos eletivos e manteve atividades empresariais.

Registros empresariais disponíveis publicamente mostram seu nome associado a empresas da família ligadas ao comércio de relógios e atividades imobiliárias.

A própria Assembleia Legislativa do Amazonas registra sua trajetória parlamentar e, em 2015, uma lei estadual concedeu a ele o título de Cidadão do Estado do Amazonas.

Então está explicado.

Dallas não ficou no sertão.

Pegou a estrada.

Atravessou o País.

Chegou a Manaus.

Entrou no rádio.

Foi para a televisão.

Virou pastor.

Estudou Direito.

Entrou na política.

Foi vereador.

Foi deputado estadual.

E carregou consigo, durante toda a vida, um nome que nasceu de uma tragédia que abalou o mundo.

De “causo” a história verdadeira

E aqui está a graça maior dessa história.

Durante quase três décadas, eu contei esse episódio com aquela ressalva:

“Não sei se é verdade. Pode ser um daqueles causos do Nordeste.”

Agora sei que pelo menos a parte essencial tem um personagem real.

O homem existe.

O nome existe.

A trajetória existe.

A origem cearense está documentada.

A carreira política no Amazonas está documentada.

E a fotografia de Wanderley Dallas ao lado do desembargador Roberto Veloso trouxe para o presente um personagem que parecia ter ficado perdido numa história contada há décadas.

Quanto ao detalhe mais extraordinário, o suposto convite de Kennedy e a resposta da Casa Branca, é preciso fazer uma ressalva jornalística: essa parte específica da narrativa histórica ainda carece de documentação primária, como o telegrama, registros diplomáticos ou documentos da Casa Branca.

Mas isso não diminui a força do encontro entre Roberto Veloso e Wanderley Dallas.

Pelo contrário.

A história acaba ficando ainda mais interessante.

Porque o menino que, segundo o relato familiar, seria batizado pelo presidente americano acabou recebendo no próprio nome a cidade que entrou para a história como o lugar onde Kennedy morreu.

E olha que coisa danada:

Kennedy não veio ao Ceará.

Mas deixou um pedaço da sua história por lá.

E esse pedaço cresceu, tomou rumo, atravessou o Brasil e foi parar no Amazonas.

No fim das contas, como diz o sertanejo:

“Quando a história é boa, a verdade dá um jeito de aparecer.”

E essa apareceu numa fotografia.

Quase 60 anos depois.

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