
A força do nome Bolsonaro nesta eleição pode ser medida de várias formas. Uma delas está justamente onde o ex-presidente Jair Bolsonaro não poderá aparecer como candidato: no número de concorrentes que decidiram levar seu sobrenome para a urna.
Segundo levantamento com base nos registros do DivulgaCand, sistema de divulgação de candidaturas da Justiça Eleitoral, o sobrenome Bolsonaro aparece em 25 pedidos de nome de urna nas eleições de 2026. O número supera os registros das eleições anteriores e transforma o sobrenome em uma espécie de marca eleitoral espalhada por diferentes disputas pelo país.
Jair Bolsonaro está inelegível e cumpre prisão domiciliar, portanto não disputa nenhum cargo nestas eleições. Ainda assim, seu nome estará presente, direta ou indiretamente, em uma quantidade recorde de candidaturas.
E isso levanta uma pergunta inevitável: o que explica tamanha presença?
É a força do bolsonarismo? É a força pessoal de Jair Bolsonaro? É a tentativa de candidatos de se associarem a uma marca política reconhecida nacionalmente? Ou é tudo isso ao mesmo tempo?
O fato é que o sobrenome deixou de ser apenas uma identificação familiar. Tornou-se uma marca política capaz de ser utilizada como estratégia eleitoral.
O caso mais simbólico é o de Jair Renan Valle Bolsonaro, filho do ex-presidente e atual vereador de Balneário Camboriú.
Na disputa por uma vaga de deputado federal por Santa Catarina, Jair Renan pretende utilizar novamente o nome “Jair Bolsonaro” na urna.
Não é uma novidade. Em 2024, quando disputou uma vaga de vereador em Balneário Camboriú, ele também utilizou o nome do pai. Foi eleito com 3.033 votos, tornando-se o candidato mais votado daquela eleição municipal na cidade.
Agora, a estratégia ganha uma dimensão ainda maior.
Jair Renan não estará disputando uma eleição municipal, mas uma vaga na Câmara dos Deputados. E o nome que aparecerá para o eleitor será exatamente aquele que consagrou o pai na eleição presidencial de 2018.
Na prática, Jair Bolsonaro estará na urna de Santa Catarina, embora o candidato seja Jair Renan.
A legislação eleitoral permite que candidatos utilizem nomes pelos quais sejam conhecidos, desde que não haja dúvida sobre sua identidade e sejam respeitadas as regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral. O próprio TSE mantém regras específicas para a formação do nome de urna.
O uso de nomes associados a grandes lideranças políticas não é novidade.
Em 2022, levantamento realizado a partir dos registros do TSE identificou 41 candidatos que utilizavam Bolsonaro no nome de urna e 16 que utilizavam Lula. O fenômeno chegou a envolver candidatos de diferentes partidos, inclusive pessoas sem relação familiar com os dois líderes.
Isso demonstra que o sobrenome Bolsonaro já funcionava como uma espécie de ativo eleitoral antes mesmo da atual eleição.
A novidade de 2026 está em outro aspecto: o recorde ocorre justamente quando Jair Bolsonaro está fora da disputa.
O líder político não precisa estar na cédula para estar presente na campanha.
Está nos discursos, nas manifestações, nos ataques dos adversários, nos eventos de campanha e, principalmente, nos nomes escolhidos por candidatos que acreditam que a associação com Bolsonaro pode ajudar a conquistar votos.
A história recente mostra que o fenômeno não é exclusivamente bolsonarista.
Em 2018, quando Luiz Inácio Lula da Silva estava preso em Curitiba e impedido de disputar a Presidência, o nome Lula apareceu em 16 registros de candidatos, segundo levantamento baseado nos dados eleitorais daquele pleito.
Naquele ano, Lula chegou a ser registrado como candidato à Presidência pelo PT, mas sua candidatura foi posteriormente barrada pela Justiça Eleitoral com base na Lei da Ficha Limpa.
O paralelo com 2026 é evidente: dois dos maiores líderes políticos brasileiros tiveram seus nomes transformados em referências eleitorais mesmo quando estavam fora da disputa presidencial.
Neste ano, o nome Lula aparece em 12 pedidos de nome de urna, abaixo dos 15 registrados em 2022 e dos 16 de 2018, segundo o levantamento apresentado.
Mas existe uma ressalva importante: nem todo candidato que utiliza “Lula” no nome de urna necessariamente está fazendo referência ao presidente.
O apelido também pode derivar de nomes próprios como Luiz, Luís ou Luciana.
É o caso de candidatos como “Lula da Fonte”, do PP de Pernambuco, e “Dr. Célio, Lula do Bem”, do PL de São Paulo. Há também registros curiosos, como “Lula Tio do Biscoito”, em Minas Gerais, e “Samanda de Lula”, no Rio Grande do Norte.
Ou seja, o número bruto precisa ser analisado com cuidado. Nem todo Bolsonaro é bolsonarista e nem todo Lula é lulista.
Mas isso não elimina a força simbólica das duas marcas políticas.
Não.
E essa talvez seja a parte mais importante da história.
Um nome conhecido pode facilitar o reconhecimento do candidato, despertar identificação e funcionar como atalho para o eleitor. Mas nome não garante voto, muito menos eleição.
O desempenho eleitoral depende de uma combinação de fatores: partido, estrutura de campanha, recursos, alianças, exposição, posição política, território eleitoral e, principalmente, identificação do eleitor.
O próprio fato de dezenas de candidatos utilizarem Bolsonaro ou Lula como nome de urna não significa que todos tenham apoio dos respectivos líderes.
Em 2022, por exemplo, o levantamento apontava dezenas de candidatos com o sobrenome Bolsonaro, mas apenas uma pequena parcela tinha parentesco com o então presidente.
Há, portanto, uma diferença enorme entre usar um nome e ter o apoio político de seu dono.
É justamente aí que está o aspecto mais interessante desta eleição.
O sobrenome Bolsonaro parece ter adquirido uma autonomia eleitoral que ultrapassa a candidatura de Jair Bolsonaro.
Mesmo inelegível, o ex-presidente continua sendo uma referência central da disputa política nacional. Seu nome é utilizado por aliados, explorado por adversários e incorporado à identidade eleitoral de candidatos que buscam capitalizar sua popularidade.
O recorde de 25 pedidos de nome de urna é, nesse sentido, um indicador curioso da permanência do fenômeno.
Mas não é prova, isoladamente, do tamanho do bolsonarismo.
É um sinal de que o sobrenome possui valor político e eleitoral.
A pergunta que as urnas responderão é outra: quanto desse valor se transforma efetivamente em votos?
Porque uma coisa é carregar Bolsonaro no nome.
Outra, muito diferente, é carregar os votos de Bolsonaro.
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