
O maior país da América Latina começa a assistir a uma mudança silenciosa, mas profundamente significativa, no mapa econômico e humano da região.
Durante décadas, o Brasil foi visto como o gigante inevitável da América do Sul. O maior mercado, a maior economia, a principal porta de entrada para empresas estrangeiras e um dos centros naturais de atração de investimentos do continente.
Mas o cenário regional mudou.
Hoje, países menores, com mercados internos incomparavelmente inferiores ao brasileiro, passaram a disputar aquilo que antes parecia naturalmente destinado ao Brasil: empresas, investimentos, profissionais qualificados, empreendedores, estudantes e novos residentes.
O Paraguai tornou-se um dos símbolos mais visíveis desse movimento. O Uruguai aposta em estabilidade, residência e incentivos tributários. A Argentina busca reconstruir sua capacidade de atração por meio de mudanças econômicas e facilidades para determinados perfis. O Chile mantém políticas voltadas para profissionais e interiorização. A Costa Rica transformou sua tributação territorial em um atrativo para estrangeiros e trabalhadores remotos.
A disputa deixou de ser apenas por fábricas.
Agora, os países disputam capital, inteligência, tecnologia e gente.
E a pergunta que começa a incomodar o Brasil é inevitável: por que tantos vizinhos parecem estar correndo para atrair investimentos enquanto o gigante latino-americano continua enfrentando dificuldades para tornar seu ambiente mais competitivo?
O Paraguai percebeu uma oportunidade.
Com um mercado interno pequeno, o país não poderia competir com o Brasil pelo tamanho do consumo. Então passou a competir por outros caminhos: carga tributária mais simples, custos operacionais menores, incentivos à industrialização, energia competitiva e localização estratégica ao lado do maior mercado da América do Sul.
Para grupos empresariais brasileiros, a proximidade geográfica também pesa.
Não é necessário atravessar oceanos para transferir uma operação. Em muitos casos, basta cruzar a fronteira.
O empresário encontra no país vizinho uma combinação que pode ser atraente para determinados setores: menor complexidade tributária, custos menores e políticas específicas de incentivo à instalação de indústrias voltadas inclusive à exportação.
Esse movimento não significa que todas as empresas brasileiras estejam deixando o país, nem que o Paraguai tenha se transformado, de repente, em uma potência econômica maior que o Brasil.
A questão é outra.
O Paraguai entendeu que não precisa ser maior para ser mais atraente em determinados nichos.
E é justamente aí que a competição se torna desconfortável para o Brasil.
Um país de dimensões continentais, com mercado de mais de 200 milhões de consumidores, recursos naturais abundantes e uma das maiores economias do mundo não deveria depender apenas do tamanho para manter empresas e atrair novos investimentos.
Tamanho ajuda.
Mas competitividade decide.
O Uruguai escolheu outro caminho.
O país combina estabilidade institucional, qualidade de vida e regras voltadas para a atração de novos residentes.
Segundo o guia Viver pelo Mundo, do jornal O Globo, o Uruguai oferece aos cidadãos abrangidos pelo Acordo do Mercosul uma rota de residência e mantém um regime tributário que pode conceder a novos residentes um período de até 11 anos de isenção sobre determinados rendimentos de origem estrangeira.
O país também aposta fortemente em tecnologia.
A estratégia é reveladora.
O Uruguai não tenta competir com o Brasil em território ou população.
Tenta competir em previsibilidade, regras claras e capacidade de atrair pessoas e empresas que podem escolher onde viver e investir.
No mundo atual, esse detalhe é decisivo.
Um profissional de tecnologia pode trabalhar de Montevidéu para uma empresa americana.
Um empreendedor pode abrir uma empresa em um país e vender para outro.
Um investidor pode escolher sua residência fiscal.
A geografia continua importante, mas já não aprisiona o capital como antes.
A competição não está limitada ao Paraguai e ao Uruguai.
A Argentina oferece facilidades decorrentes dos acordos regionais e criou mecanismos para trabalhadores remotos e programas de bolsas voltados para estudantes latino-americanos.
O Chile aposta, entre outras iniciativas, em programas para levar profissionais e técnicos a regiões afastadas dos grandes centros, oferecendo remuneração, benefícios e apoio para estimular a ocupação de áreas que precisam de mão de obra qualificada.
A Costa Rica adotou uma característica particularmente atrativa para determinados estrangeiros: a tributação territorial, pela qual, em determinadas condições, rendimentos obtidos fora do país não são tributados localmente.
O resultado é uma verdadeira corrida.
Cada país tenta descobrir qual é o seu produto na prateleira global.
Uns vendem impostos menores.
Outros vendem estabilidade.
Outros oferecem residência.
Há quem ofereça vistos para nômades digitais.
Existem bolsas para estudantes.
Programas para pesquisadores.
Benefícios para descendentes.
Incentivos para quem aceita viver no interior.
Subsídios para empreendedores.
A imigração deixou de ser tratada apenas como um problema de controle de fronteiras.
Em muitos países, ela passou a ser também uma política de desenvolvimento.
Quando se fala em imigração, o imaginário brasileiro costuma olhar imediatamente para Europa, Estados Unidos ou Canadá.
Mas o levantamento de 36 países citado pelo guia do O Globo mostra um quadro mais complexo.
Em matéria de incentivos fiscais e facilidades para determinados perfis de imigrantes, países latino-americanos e do sul da Europa aparecem com mecanismos bastante agressivos.
A Grécia, por exemplo, oferece condições tributárias especiais para determinados novos residentes. A Croácia criou programas de incentivo para descendentes que desejam empreender. Portugal, Chile e Austrália possuem iniciativas voltadas para atrair moradores e profissionais para regiões fora dos grandes centros.
A disputa é global.
Mas os europeus não têm exclusividade na corrida pelos talentos.
A América Latina descobriu que também pode competir.
E começou a fazê-lo.
É aqui que a discussão se torna inevitavelmente mais incômoda.
O Brasil continua sendo uma potência econômica regional.
Possui um mercado consumidor gigantesco, universidades, centros de pesquisa, agronegócio competitivo, matriz energética diversificada, indústria, tecnologia e enorme potencial em áreas estratégicas.
Mas, para uma empresa decidir onde instalar uma nova fábrica, esses atributos não são os únicos considerados.
O investidor também faz perguntas simples.
Quanto custa produzir?
Quanto custa contratar?
Como funciona o sistema tributário?
Quanto tempo demora uma autorização?
Quais são os riscos jurídicos?
Quanta burocracia será necessária?
Qual será o custo da energia?
É possível planejar investimentos de longo prazo?
E, principalmente: as regras serão previsíveis amanhã?
O Brasil enfrenta justamente o desafio de melhorar sua resposta a essas perguntas.
A complexidade tributária, o elevado custo burocrático e as incertezas regulatórias são temas historicamente apontados por empresários e entidades econômicas como obstáculos ao ambiente de negócios.
Enquanto isso, países menores perceberam que podem utilizar sua própria dimensão como vantagem.
Um sistema menor pode ser mais simples.
Uma legislação pode ser mais ágil.
Uma estratégia pode ser mais focada.
É preciso separar o impacto político da realidade econômica.
O Brasil continua sendo, pelo tamanho de sua economia e de seu mercado, a maior potência econômica do Mercosul e da América Latina.
Não há evidência de que Paraguai ou Uruguai tenham substituído o Brasil como centro econômico regional.
Mas existe uma mudança importante: o tamanho brasileiro já não garante, sozinho, que o país será automaticamente o destino preferencial de empresas e investidores.
Essa é a verdadeira transformação.
O Brasil não está deixando de ser grande.
O problema é que os vizinhos estão tentando se tornar mais competitivos em áreas específicas.
E quando uma empresa decide instalar uma unidade industrial no Paraguai, estabelecer uma residência fiscal no Uruguai ou levar profissionais para outro país, o Brasil perde uma oportunidade.
Uma empresa a menos significa, potencialmente, empregos, arrecadação, fornecedores, inovação e investimentos a menos.
Nenhuma economia perde tudo de uma vez.
A perda acontece negócio por negócio.
Investimento por investimento.
Profissional por profissional.
O fenômeno não se limita às empresas.
Existe uma competição mundial por talentos.
Países criam vistos especiais para cientistas, profissionais de tecnologia, médicos, pesquisadores, empreendedores e estudantes.
A França oferece bolsas de excelência. A Suécia mantém programas voltados para estudantes. Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido possuem modalidades específicas para profissionais qualificados.
A Islândia chega a incentivar estrangeiros interessados em estudar o idioma local.
A mensagem é clara.
Quem quiser crescer precisa disputar gente qualificada.
Uma economia moderna não depende apenas de máquinas e fábricas.
Depende de pessoas capazes de criar tecnologia, desenvolver empresas, produzir conhecimento e gerar inovação.
É por isso que educação e imigração passaram a caminhar juntas.
O estudante de hoje pode ser o pesquisador, empreendedor ou trabalhador qualificado de amanhã.
O Brasil não precisa copiar o Paraguai.
Não precisa se transformar no Uruguai.
Também não precisa reproduzir os modelos da Argentina, Costa Rica, Chile ou Europa.
Cada país possui uma realidade diferente.
Mas existe uma pergunta da qual o Brasil não pode fugir: qual é a sua estratégia para competir?
Porque os vizinhos já parecem ter encontrado respostas próprias.
O Paraguai aposta na competitividade de custos e em incentivos industriais.
O Uruguai explora estabilidade e regimes favoráveis para novos residentes.
A Costa Rica utiliza a tributação territorial como diferencial.
Outros países oferecem bolsas, vistos especiais, incentivos regionais e programas para empreendedores.
E o Brasil?
O país tem tamanho.
Tem mercado.
Tem recursos.
Tem energia.
Tem produção.
Tem universidades.
Tem profissionais.
Mas isso não basta se o ambiente de negócios continuar sendo percebido como excessivamente caro, complexo ou imprevisível.
A nova competição internacional não será vencida apenas por quem tem o maior território.
Nem por quem possui a maior população.
Será vencida por quem conseguir criar as melhores condições para que empresas invistam, profissionais permaneçam e novos talentos decidam chegar.
O gigante brasileiro continua gigante.
Mas, enquanto discute seus próprios entraves, os vizinhos estão fazendo algo muito mais simples: estão batendo à porta de quem tem dinheiro, empresas e talento para oferecer.
E, nessa disputa, cada investimento que atravessa a fronteira deixa uma pergunta no ar:
até quando o Brasil continuará acreditando que ser grande é suficiente para continuar sendo escolhido?
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