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Polícia CANNABIS MEDICINAL

Lulinha, ‘Careca’, Marcola e lobista articulavam negócio de até R$ 626 milhões com o governo Lula

Minuta apreendida pela Polícia Federal previa o fornecimento de 1,2 milhão de frascos de medicamentos à base de cannabis ao Ministério da Saúde; investigação tenta esclarecer o papel de cada personagem e se houve tentativa de usar influência política para viabilizar uma contratação sem licitação

20/08/2026 às 07h41
Por: Douglas Ferreira
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Lulinha, Luchsinger, Careca e Marcola, o quarteto dinâmico nas sombras do governo Lula 3 - Foto: Reprodução
Lulinha, Luchsinger, Careca e Marcola, o quarteto dinâmico nas sombras do governo Lula 3 - Foto: Reprodução

A Polícia Federal encontrou indícios de uma articulação que poderia resultar em um negócio de até R$ 626 milhões com o Ministério da Saúde, envolvendo medicamentos à base de cannabis. O material apreendido pelos investigadores inclui minutas, mensagens e arquivos que descrevem uma proposta para o fornecimento de 1,2 milhão de frascos de 36 tipos de produtos.

No centro das apurações estão Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, a empresária e lobista Roberta Luchsinger e Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, então integrante do Gabinete Pessoal da Presidência.

A investigação não afirma, até o momento, que o contrato tenha sido assinado ou que qualquer medicamento tenha sido adquirido pelo governo. Pelo contrário, o próprio Ministério da Saúde informou que a proposta não produziu resultado prático, que os produtos não foram incorporados ao SUS e que não houve compra decorrente da negociação.

O que a Polícia Federal investiga é outra questão: se houve uma tentativa de estruturar previamente um negócio de centenas de milhões de reais e utilizar relações políticas e institucionais para abrir caminho dentro do governo federal.

O que, exatamente, estava sendo negociado?

O negócio previsto na minuta era gigantesco.

O documento descrevia a possível aquisição de 1,2 milhão de frascos, distribuídos entre 36 tipos de medicamentos à base de cannabis, em uma operação cujo valor poderia chegar a R$ 626 milhões.

Não se tratava, portanto, de uma conversa genérica sobre cannabis medicinal ou de uma simples proposta comercial apresentada espontaneamente ao Ministério da Saúde.

Segundo a linha de investigação, havia a tentativa de montar um modelo completo de contratação, incluindo fornecedores, produtos, quantidades, valores e até uma possível justificativa jurídica para a aquisição sem o procedimento licitatório tradicional.

Os investigadores encontraram versões de um chamado termo de referência, documento fundamental em processos de contratação pública porque descreve o que o governo pretende comprar, em quais condições, quantidades e especificações.

É justamente esse ponto que despertou a atenção da PF.

A suspeita é que o grupo pretendesse apresentar ao próprio governo uma espécie de pacote previamente estruturado, facilitando ou influenciando a abertura de uma contratação para adquirir os produtos.

A estratégia: contratar sem licitação

Outro elemento central da investigação é a hipótese de utilização de uma contratação direta.

Mensagens e áudios apreendidos indicariam discussões sobre a possibilidade de justificar a dispensa de licitação com base em uma alegada situação emergencial e nas hipóteses previstas pela legislação de contratações públicas.

Se o plano fosse adiante, o governo poderia, em tese, contratar diretamente, desde que os requisitos legais para uma dispensa ou contratação emergencial estivessem efetivamente presentes.

É exatamente aí que reside uma das principais suspeitas.

A investigação tenta descobrir se havia uma necessidade real que justificasse uma contratação excepcional ou se a justificativa jurídica estava sendo discutida previamente como um mecanismo para viabilizar um negócio já estruturado.

Essa é uma diferença fundamental.

Uma coisa é o poder público identificar uma necessidade emergencial e, dentro da lei, realizar uma contratação direta.

Outra, completamente diferente, seria empresários e intermediários estruturarem antecipadamente um negócio privado e procurarem construir, dentro do Estado, as condições necessárias para que a contratação fosse realizada.

A PF investiga justamente se o segundo cenário ocorreu.

O papel atribuído ao ‘Careca do INSS’

Segundo os elementos descritos na investigação, Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apareceria como uma das figuras centrais na estruturação comercial do negócio.

A proposta teria sido organizada por sua equipe, enquanto o grupo buscava fornecedores no exterior, incluindo contatos nos Estados Unidos e na Colômbia.

O Careca do INSS já era alvo de outras investigações relacionadas ao esquema de descontos e desvios que atingiu aposentados e pensionistas.

No caso da cannabis medicinal, a suspeita é que sua estrutura empresarial e seus contatos tenham sido utilizados para montar a operação comercial e identificar os fornecedores capazes de entregar os produtos em larga escala.

Segundo a investigação, a lobista Roberta Luchsinger teria sido contratada para ajudar a viabilizar o negócio.

Assim, o Careca apareceria como um dos articuladores da estrutura empresarial e financeira da operação, enquanto outros personagens teriam funções ligadas à aproximação com interlocutores e à tentativa de abrir caminhos institucionais.

Roberta Luchsinger: a ponte entre o negócio e Brasília

Roberta Luchsinger aparece, segundo a investigação, como uma personagem-chave.

A suspeita é que ela atuasse como intermediária e articuladora política e institucional do projeto.

Mensagens encontradas pela Polícia Federal indicam que ela discutia detalhes da proposta e mantinha contato com outros envolvidos no negócio. Uma das evidências mais importantes é justamente o envio de uma minuta relacionada ao projeto para Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola.

A PF também investiga a relação de Roberta com Lulinha e a possibilidade de que contatos próximos ao núcleo político do governo tenham sido utilizados como pontes para facilitar a circulação da proposta.

Nesse desenho investigativo, Roberta seria a personagem encarregada de aproximar interesses privados de possíveis interlocutores dentro da máquina pública.

Mas é importante destacar que essa é uma hipótese sob investigação e ainda depende da análise definitiva dos elementos reunidos.

Marcola: o arquivo chegou ao Gabinete Pessoal

Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, aparece em um ponto particularmente sensível.

A minuta do negócio teria sido enviada a ele quando ocupava posição no entorno do presidente da República, no Gabinete Pessoal.

Mensagens de WhatsApp confirmariam o recebimento do documento.

Marcola reconheceu ter recebido o arquivo, mas apresentou uma versão diferente daquela que está sendo investigada.

Segundo ele, receber o documento não significou aderir ao negócio. O ex-integrante do governo classificou o recebimento da proposta como inadequado e afirmou que jamais encaminhou, negociou ou deu andamento à iniciativa dentro da administração pública.

Esse é um ponto decisivo para a investigação.

A PF precisa estabelecer se Marcola foi apenas um destinatário de uma proposta que não prosperou ou se exerceu algum tipo de participação na articulação.

Até o momento, o simples recebimento da minuta não permite concluir, por si só, que ele tenha cometido qualquer crime.

Mas o fato de um documento referente a um negócio de até R$ 626 milhões ter chegado a alguém ligado ao Gabinete Pessoal da Presidência ajuda a explicar por que o episódio ganhou dimensão política e investigativa.

E Lulinha, qual seria sua participação?

É justamente aqui que está uma das partes mais delicadas da investigação.

A PF pediu autorização para aprofundar a investigação sobre Lulinha por suspeitas de corrupção e tráfico de influência relacionadas à possível negociação.

Segundo a linha investigativa, Roberta Luchsinger teria contado com a intermediação de Lulinha para tentar viabilizar a aproximação e abrir portas para o negócio.

Isso não significa que esteja provado que Lulinha tenha participado da elaboração da minuta, escolhido fornecedores, negociado preços ou comandado a operação comercial.

A suspeita que recai sobre ele está relacionada, principalmente, à possível utilização de sua influência e de seus contatos para facilitar o acesso ao governo.

É por isso que o crime investigado ganha uma dimensão diferente.

O chamado tráfico de influência não exige, necessariamente, que a pessoa ocupe um cargo público. A investigação busca esclarecer se alguém prometeu ou ofereceu influência sobre agentes públicos para tentar viabilizar determinado interesse privado.

No caso de Lulinha, a pergunta central da PF é: ele apenas conhecia as pessoas envolvidas ou utilizou sua proximidade com o poder para tentar abrir portas para um negócio de centenas de milhões de reais?

Essa é uma questão ainda sob investigação.

Um contrato pronto para chegar ao governo?

Talvez esse seja o aspecto mais grave de todo o caso.

A investigação encontrou versões de documentos que detalhavam o possível negócio. A suspeita é que o grupo estivesse tentando chegar ao Ministério da Saúde com uma operação já praticamente desenhada.

Produtos.

Quantidades.

Possíveis fornecedores.

Valores.

E uma discussão sobre o caminho jurídico para realizar a contratação.

A pergunta que a investigação agora precisa responder é se o grupo pretendia apenas apresentar uma proposta comercial ou se estava tentando influenciar a própria construção da demanda pública e do processo de contratação.

Se a segunda hipótese for comprovada, o caso deixaria de ser apenas uma tentativa de vender medicamentos ao governo.

Passaria a envolver a suspeita de utilização de relações privadas e políticas para tentar moldar uma contratação pública de até R$ 626 milhões.

Por que o negócio não saiu do papel?

O negócio não foi concretizado.

Segundo o Ministério da Saúde, o canabidiol não integra a lista regular de produtos incorporados ao SUS e a pasta não comprou nem forneceu os medicamentos previstos na proposta.

As aquisições desses produtos pelo poder público ocorrem em situações específicas, como no cumprimento de determinadas decisões judiciais.

Além disso, o escândalo envolvendo o Careca do INSS e as investigações sobre descontos irregulares em benefícios previdenciários colocaram seus negócios e relações sob intenso escrutínio policial.

O projeto de R$ 626 milhões, assim, permaneceu no papel.

Mas o fato de o contrato não ter sido assinado não encerra automaticamente a investigação.

A PF agora tenta esclarecer até onde a articulação avançou, quem produziu cada documento, quem buscou fornecedores, quem procurou interlocutores no governo e se houve tentativa concreta de utilizar influência política para transformar a proposta privada em uma contratação pública.

Quatro personagens e uma investigação

O desenho que emerge dos elementos investigados sugere funções distintas para cada personagem, sempre dentro de hipóteses que ainda precisam ser comprovadas:

O Careca do INSS: apareceria como um dos estruturadores do negócio, ligado à organização comercial, à busca por fornecedores e à montagem da proposta.

Roberta Luchsinger: seria investigada como possível intermediária e articuladora, encarregada de aproximar o projeto de interlocutores capazes de facilitar seu avanço.

Marcola: recebeu a minuta quando integrava o entorno da Presidência, mas afirma que não deu andamento, não negociou e não encaminhou a proposta.

Lulinha: é investigado sob a suspeita de ter atuado como possível intermediador, utilizando relações e influência para facilitar o acesso do grupo a áreas do governo.

É importante ressaltar que a participação de cada um ainda é objeto de investigação e não representa, até aqui, condenação judicial.

R$ 626 milhões que não saíram do papel, mas deixaram rastros

A negociação não se transformou em contrato.

Nenhum pagamento de R$ 626 milhões foi realizado pelo Ministério da Saúde em razão dessa proposta, segundo as informações apresentadas pela pasta.

Mas a existência de minutas, mensagens, áudios e documentos apreendidos pela Polícia Federal transformou um negócio que ficou no papel em uma nova frente de investigação.

Agora, o foco não está apenas no que aconteceu.

Está também no que poderia ter acontecido.

A Polícia Federal tenta responder se um grupo de empresários, intermediários e pessoas com acesso a círculos políticos tentou montar uma operação privada de centenas de milhões de reais para ser apresentada ao governo federal com um caminho jurídico previamente discutido para evitar a licitação.

A resposta dependerá da análise das mensagens, dos documentos, dos depoimentos e da evolução dos inquéritos.

Por enquanto, há um fato que não depende de interpretação política: o contrato de até R$ 626 milhões não foi executado.

O que está sob investigação é justamente a articulação que antecedeu esse desfecho.

E é aí que está o centro do caso.

Quem montou o negócio? Quem buscou os fornecedores? Quem elaborou os documentos? Quem tentou abrir portas em Brasília? E, principalmente, até onde o grupo conseguiu avançar antes que o negócio de R$ 626 milhões morresse no papel?

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