
Há textos que atravessam décadas porque não envelhecem. O poema atribuído a Vladimir Maiakovski é um deles. É eterno, imortal e, sobretudo, incômodo. Torna-se ainda mais atual em momentos de sombra, como o que o Brasil atravessa, marcado por disputas institucionais, perseguições políticas, prisões e pelo chamado “inquérito do fim do mundo”, cuja condução e permanência continuam provocando controvérsias.
O problema é que o autoritarismo raramente começa atingindo todos ao mesmo tempo. Primeiro, escolhe alguns. Depois, outros. E, enquanto a agressão acontece longe de nós, muitos preferem acreditar que o problema não lhes diz respeito.
É exatamente aí que mora o perigo.
O Supremo Tribunal Federal, ou parte de seus integrantes, é acusado por críticos de ultrapassar os limites de suas competências e de restringir direitos fundamentais. Entre os episódios mais recentes está a controvérsia envolvendo o sigilo constitucional da fonte jornalística, um dos pilares da liberdade de imprensa.
E quando um jornalista é atingido, a imprensa deveria perguntar: onde está o limite?
Mais do que isso, deveria perguntar se não houve, no passado, silêncio, complacência ou até apoio a mecanismos excepcionais que acabaram produzindo consequências que hoje atingem a própria imprensa.
A grande mídia tem, sim, motivos para fazer uma reflexão sobre sua postura diante do chamado inquérito das fake news. Muitos veículos que hoje criticam decisões de ministros do STF defenderam, em algum momento, a necessidade de instrumentos excepcionais para enfrentar "ameaças à democracia".
O problema é que instrumentos excepcionais, uma vez criados, podem adquirir vida própria.
Foi assim que se chegou a um cenário em que decisões judiciais, investigações, medidas cautelares e restrições à liberdade de expressão passaram a alimentar um debate cada vez mais intenso sobre os limites do poder estatal e sobre a própria liberdade de imprensa.
O episódio envolvendo a revista Crusoé, citado no artigo que inspira esta reflexão, é emblemático. A publicação foi alvo de uma decisão de censura em 2019 por ordem de Alexandre de Moraes. Naquele momento, o episódio deveria ter provocado uma discussão mais profunda sobre os limites daquele inquérito.
Mas o alerta não foi suficientemente ouvido.
E é justamente aqui que o poema atribuído a Maiakovski se encaixa com uma precisão perturbadora.
Primeiro, o problema é do outro.
O outro pode ser um adversário político. Um jornalista considerado inconveniente. Um cidadão que fez uma crítica. Um empresário. Um militante. Um político de oposição.
Enquanto não somos nós, podemos achar que é justificável.
Enquanto a porta derrubada é a do vizinho, permanecemos em silêncio.
Até que chega a nossa vez.
E então descobrimos que o silêncio acumulado durante anos também construiu a força de quem agora bate à nossa porta.
A pergunta que a imprensa brasileira precisa fazer não é apenas “o que Alexandre de Moraes está fazendo agora?”
É também:
“Qual foi a nossa responsabilidade na construção do ambiente institucional que permitiu que chegássemos até aqui?”
Moraes não se fez sozinho. Não atua sozinho. Não julga sozinho. Não decide sozinho. Nenhuma estrutura de poder se sustenta exclusivamente pela vontade de uma pessoa.
Ela precisa de instituições, de circunstâncias e, muitas vezes, da acomodação de quem poderia ter dito não.
Isso não significa negar os "ataques à democracia" ocorridos no Brasil, nem relativizar crimes ou ameaças. Significa reconhecer que defender a democracia exige defender suas regras mesmo quando elas protegem quem pensa diferente de nós.
Porque liberdade de imprensa não existe apenas para o jornalista que concorda conosco.
Liberdade de expressão não existe apenas para a opinião que consideramos correta.
Direitos fundamentais não podem depender da simpatia que temos pelo indivíduo que está exercendo esses direitos.
E talvez seja exatamente por isso que o poema continue tão atual:
Na primeira noite, eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores, matam nosso cachorro.
E não dizemos nada.Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.
A mensagem é brutalmente simples: a agressão contra o outro nunca é apenas um problema do outro.
Quando a imprensa se cala diante de uma violação porque a vítima é alguém de quem discorda, ela não está apenas deixando de defender aquele indivíduo. Está ajudando a normalizar um precedente.
E precedentes, em uma democracia, podem mudar de endereço.
Hoje é o adversário. Amanhã pode ser o jornalista. Depois, a própria imprensa.
Talvez tenha chegado a hora de a grande mídia fazer seu mea-culpa.
Não para defender Bolsonaro. Não para defender Lula. Não para defender Moraes. Não para defender qualquer lado político.
Mas para defender aquilo que deveria estar acima de todos eles: a Constituição, a liberdade de imprensa, o devido processo legal e os direitos fundamentais.
Porque quando aceitamos que a exceção seja aplicada contra o outro, estamos apenas esperando a exceção chegar até nós.
E quando ela finalmente chega, talvez já seja tarde demais para dizer alguma coisa.
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