
Definitivamente, tem caroço nesse angu do Banco Master que envolve nomes ligados ao Supremo Tribunal Federal.
E quanto mais a Polícia Federal avança na investigação, mais perguntas aparecem.
A sessão do STF de terça-feira, 15 de setembro, foi um daqueles episódios que dispensam qualquer adjetivo. Houve confronto aberto entre ministros, acusações, reações e uma sucessão de questionamentos sobre a condução das investigações relacionadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e às mensagens que envolveram Alexandre de Moraes.
Mas uma pergunta permanece no ar: o que, afinal, une os ministros que reagiram tão duramente a André Mendonça?
Por que Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Dias Toffoli e Gilmar Mendes assumiram posições tão contundentes no embate?
E por que Gilmar Mendes chegou ao ponto de classificar a atuação de Mendonça como “covarde” e “vil” e afirmar, diante do plenário, que “até a máfia tem ética”? A frase foi registrada durante a sessão e provocou reação imediata.
A pergunta é inevitável: o que exatamente o decano quis dizer ao invocar a “ética da máfia” dentro do Supremo?
Gilmar afirmou:
“É uma relação de máfia. Isso não se faz, não é ambiente de pessoas dignas. [...] Mesmo um colega que esteja eventualmente envolvido, que teve um filho, não pode estar submetido a esse tipo de vexame. É uma atitude covarde, vil. Eu já disse isso em outro momento. Até a máfia tem ética. É preciso ter decência.”
Mendonça reagiu. A sessão prosseguiu em clima de forte tensão e acabou suspensa após pedido de vista de Flávio Dino. O episódio foi descrito por diferentes veículos como um dos momentos mais acalorados da história recente do plenário do STF.
É preciso fazer uma distinção importante: não há base, apenas a partir dessas falas, para afirmar que ministros do STF formem uma organização mafiosa ou que exista uma “omertà” na Corte. Isso seria transformar uma interpretação em fato.
Mas também não é possível ignorar a dimensão institucional da metáfora.
Quando um ministro da Suprema Corte invoca a “ética da máfia” para criticar a exposição de um colega, a frase ultrapassa o bate-boca pessoal e produz uma pergunta pública: que espécie de lealdade entre pares estava sendo defendida?
Proteção institucional? Respeito ao devido processo? Cautela?
Ou silêncio?
A diferença é enorme.
E é justamente nesse ambiente que novas informações sobre os pagamentos feitos pelo Banco Master a escritórios de advocacia ganham relevância.
Documentos da Receita Federal entregues à CPI do Crime Organizado e obtidos pela Folha indicaram que o escritório Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, recebeu R$ 40,1 milhões do Banco Master em 2024. O escritório confirmou ter mantido contrato com o banco, mas contestou a correção dos dados divulgados e afirmou que eles teriam sido vazados ilicitamente.
Agora, segundo a informação apresentada no material de referência, uma auditoria interna encomendada pelo BRB teria apontado outros pagamentos expressivos: R$ 33 milhões, em 2024, ao escritório da advogada Dalide Corrêa.
O dado que chama ainda mais atenção está nos diálogos apreendidos pela PF: diretores do Master teriam se referido a Dalide como “canal direto com o STF”.
Mas aqui é indispensável separar fato de suspeita.
A própria advogada negou ter atuado para o Master no Supremo ou procurado ministros da Corte em assuntos relacionados ao banco. Segundo interlocutores citados no relato, ela teria prestado serviços a instituições posteriormente incorporadas pelo Master, sem atuação nos tribunais superiores.
E há outro detalhe fundamental: a PF não encontrou, nesses diálogos, menção nominal a ministros específicos como alvos da Operação Compliance Zero.
Portanto, a expressão “canal direto com o STF” é uma descrição atribuída a interlocutores do Banco Master, não uma conclusão da Polícia Federal de que Dalide Corrêa tenha intermediado pagamentos ou interesses junto a ministros do Supremo.
Os números, entretanto, ajudam a dimensionar o tamanho da engrenagem jurídica do Banco Master.
Levantamento anterior da Folha, baseado em documentos enviados à Receita Federal, apontou que o banco pagou ao menos R$ 543 milhões a 91 escritórios de advocacia entre 2022 e 2025. Em 2024, foram R$ 183,7 milhões destinados a advogados. O escritório Barci de Moraes aparece entre os maiores valores, com R$ 80,2 milhões recebidos em 22 meses, segundo os documentos analisados pelo jornal.
É muito dinheiro.
E dinheiro, quando aparece associado a um banco sob investigação, a escritórios que mantêm relações com pessoas próximas a autoridades e a uma Corte cujos próprios ministros estão discutindo publicamente o caso, merece explicação detalhada.
Não condenação antecipada.
Não julgamento político.
Explicação.
A cada novo documento, a sociedade passa a fazer perguntas que não podem ser respondidas com ataques entre ministros.
Por que o Banco Master gastou tanto com advocacia?
Quais serviços foram efetivamente prestados?
Quem contratou quem?
Quais escritórios atuaram em quais processos?
Houve atuação perante tribunais superiores?
Quem recebeu?
Por quais serviços?
E, sobretudo: houve algum tipo de influência indevida sobre decisões ou autoridades públicas?
Essas perguntas precisam ser respondidas por documentos, contratos, notas fiscais, processos e investigação — não por versões de ocasião.
Porque uma coisa é contratar um escritório de advocacia e pagar honorários elevados. Outra, completamente diferente, seria comprovar que dinheiro, influência e acesso foram utilizados para interferir indevidamente no funcionamento da Justiça.
Uma coisa não prova automaticamente a outra.
É exatamente por isso que a investigação precisa avançar.
A crise do Banco Master já não é apenas uma história sobre um banco e um ex-banqueiro.
Ela alcançou o STF.
Alcançou ministros.
Alcançou escritórios de advocacia.
Alcançou a Polícia Federal.
E chegou ao plenário da mais alta Corte do país, onde ministros passaram a discutir publicamente as próprias relações, condutas e suspeitas.
A pergunta, portanto, não é se o Supremo deve proteger seus ministros.
A pergunta é quem protege a instituição quando os próprios ministros estão sob questionamento?
E mais: por que alguém que ocupa uma das cadeiras mais poderosas da República deveria estar acima de qualquer investigação?
Não deveria.
Ministro do STF não é intocável. Presidente da República não é intocável. Senador não é intocável. Banqueiro não é intocável.
Ninguém está acima da lei.
É justamente por isso que o caso precisa ser esclarecido até o fim.
Sem corporativismo.
Sem perseguição.
Sem espetáculo.
E sem “ética da máfia”.
Porque, no fim das contas, o que está em jogo não é apenas Daniel Vorcaro, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes ou André Mendonça.
É a confiança do cidadão na instituição que deveria ser a última palavra da Justiça brasileira.
E, nesse angu, quanto mais a PF mexe, mais caroços aparecem.
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