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Justiça A CRISE NO STF

Quando o circo pega fogo no Supremo, quem ganha espaço na política?

Bate-bocas, acusações e um julgamento interrompido expõem uma crise interna no STF e alimentam a estratégia eleitoral de Flávio Bolsonaro

16/09/2026 às 07h59 Atualizada em 16/09/2026 às 09h08
Por: Douglas Ferreira
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Sessão decidiu não decidir nada, com o pedido de vistas de Flávio Dino - Foto: Reprodução
Sessão decidiu não decidir nada, com o pedido de vistas de Flávio Dino - Foto: Reprodução

Há uma ironia difícil de ignorar na atual crise do Supremo Tribunal Federal.

Em 2023, o ministro Gilmar Mendes afirmou que muitos dos personagens que ocupavam a cena política brasileira naquele momento só estavam onde estavam porque o STF havia enfrentado a Operação Lava Jato. Incluiu expressamente Luiz Inácio Lula da Silva nessa avaliação: “Eles não estariam aqui. Inclusive o presidente da República”.

A declaração ajuda a entender a dimensão política que o próprio ministro atribui às decisões da Corte nos últimos anos.

Mas há uma pergunta inevitável diante do que aconteceu nesta terça-feira, 15 de setembro de 2026: e quando o próprio Supremo passa a produzir uma crise que repercute diretamente no ambiente eleitoral?

Foi isso que a sessão extraordinária do STF expôs.

Durante horas, ministros discutiram se os casos envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça deveriam ser analisados conjuntamente ou separadamente. O plenário não chegou ao mérito da apuração envolvendo Moraes e as supostas mensagens relacionadas ao empresário Daniel Vorcaro, do Banco Master. Flávio Dino pediu vista e interrompeu a discussão.

O resultado concreto da sessão foi, portanto, nenhum.

Não houve decisão sobre o mérito. Não houve definição sobre a investigação. Não houve encerramento da crise.

Houve divergência.

Houve acusações.

Houve bate-boca.

E houve uma Corte transmitindo ao país a imagem de profundo conflito interno.

Flávio Dino chegou a afirmar que o clima no plenário havia chegado a um ponto em que não havia condições de deliberar, enquanto criticava a condução dos processos.

É justamente aí que aparece o componente político.

A campanha de Flávio Bolsonaro vem tentando transformar Alexandre de Moraes em um dos principais símbolos de sua narrativa eleitoral. O senador passou a associar publicamente Lula e Moraes e a explorar politicamente o desgaste provocado pelas sucessivas crises envolvendo o Supremo.

Agora, o próprio funcionamento da Corte passou a fornecer combustível para esse discurso.

É o chamado efeito rebote.

Não significa afirmar que o STF esteja trabalhando para favorecer qualquer candidato. Tampouco que a crise tenha sido criada com esse objetivo. São interpretações políticas atribuídas à campanha e a seus aliados.

Mas existe um fato objetivo: quanto mais o Supremo permanece no centro do debate político, mais difícil se torna separar a imagem da Corte da disputa eleitoral.

E isso já aparece nas pesquisas.

A Quaest divulgada em 14 de setembro mostrou Flávio Bolsonaro com 42% e Lula com 40% em uma simulação de segundo turno. A diferença, porém, está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, portanto o cenário é de empate técnico. O levantamento ouviu 2.004 eleitores entre 10 e 13 de setembro e foi registrado sob o protocolo BR-03607/2026.

No primeiro turno, o mesmo levantamento registrou Lula com 36% e Flávio com 31%.

Ou seja: a pesquisa registra um cenário eleitoral; não prova que a crise do STF tenha causado a movimentação. Mas mostra por que o episódio ganhou tanta importância para as campanhas.

E aqui está o ponto central.

Se, em 2022, Gilmar Mendes afirmou que o enfrentamento da Lava Jato pelo STF ajudou a explicar a presença de Lula no Palácio do Planalto, hoje é possível observar um fenômeno politicamente inverso: o desgaste provocado pelas próprias divisões do Supremo passou a ser incorporado ao discurso eleitoral de um dos principais candidatos da oposição.

O feitiço, para usar uma expressão popular, pode estar produzindo um efeito inesperado.

Não porque exista uma decisão do Supremo em favor de Flávio Bolsonaro.

Mas porque a crise do Supremo virou assunto de campanha.

E isso é particularmente relevante quando a própria Corte precisa julgar questões que envolvem seus integrantes.

No caso atual, o relatório da Polícia Federal mencionado no processo reúne informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro e aponta supostos contatos com Alexandre de Moraes. Isso não equivale, por si só, à comprovação de crime ou irregularidade por parte do ministro. A existência de uma apuração e de material sob análise judicial não pode ser confundida com condenação.

Da mesma forma, as acusações e questionamentos envolvendo André Mendonça também precisam ser tratados dentro do devido processo.

É exatamente essa fronteira que torna a crise tão delicada.

Quando ministros do Supremo passam a discutir publicamente a condução de processos que envolvem outros ministros, a questão deixa de ser apenas jurídica e passa a ser também institucional.

E quando essa crise acontece em plena campanha presidencial, inevitavelmente ela ganha dimensão política.

O episódio desta terça-feira mostrou uma Corte dividida sobre procedimento, competência, relatoria e sobre a própria forma de conduzir os casos.

O julgamento que poderia produzir uma resposta terminou produzindo mais perguntas.

Quem deve conduzir a investigação?

Os casos devem ser julgados juntos ou separados?

Quais são os limites da atuação da Presidência do Supremo?

Até onde pode ir um ministro quando a investigação atinge outro integrante da própria Corte?

E, sobretudo: quem fiscaliza o fiscalizador quando o problema chega ao próprio Supremo?

Essas são perguntas institucionais. Não pertencem exclusivamente à esquerda ou à direita.

E talvez seja justamente esse o aspecto mais preocupante de toda a história.

O Supremo não pode ser transformado em palco permanente da disputa política brasileira.

Mas também não pode esperar que decisões, conflitos internos e procedimentos envolvendo seus próprios ministros não produzam consequências políticas.

A crise está instalada.

Moraes está no centro dela.

Fachin tenta administrar o processo.

Mendonça é parte de outra frente de conflito.

Gilmar e Dino protagonizaram momentos de forte tensão.

E o plenário terminou sem resolver a questão que havia colocado todos aqueles ministros diante das câmeras.

Enquanto isso, a política observa.

Flávio Bolsonaro observa.

Lula observa.

E o eleitor também.

O Supremo pode até não estar disputando a eleição. Mas, quando a crise da Corte ocupa o centro do debate nacional, a eleição passa a disputar espaço dentro da crise do Supremo.

E esse talvez seja o verdadeiro efeito rebote.

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A NOTÍCIA E O FATO
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Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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