
Há uma ironia difícil de ignorar na atual crise do Supremo Tribunal Federal.
Em 2023, o ministro Gilmar Mendes afirmou que muitos dos personagens que ocupavam a cena política brasileira naquele momento só estavam onde estavam porque o STF havia enfrentado a Operação Lava Jato. Incluiu expressamente Luiz Inácio Lula da Silva nessa avaliação: “Eles não estariam aqui. Inclusive o presidente da República”.
A declaração ajuda a entender a dimensão política que o próprio ministro atribui às decisões da Corte nos últimos anos.
Mas há uma pergunta inevitável diante do que aconteceu nesta terça-feira, 15 de setembro de 2026: e quando o próprio Supremo passa a produzir uma crise que repercute diretamente no ambiente eleitoral?
Foi isso que a sessão extraordinária do STF expôs.
Durante horas, ministros discutiram se os casos envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça deveriam ser analisados conjuntamente ou separadamente. O plenário não chegou ao mérito da apuração envolvendo Moraes e as supostas mensagens relacionadas ao empresário Daniel Vorcaro, do Banco Master. Flávio Dino pediu vista e interrompeu a discussão.
O resultado concreto da sessão foi, portanto, nenhum.
Não houve decisão sobre o mérito. Não houve definição sobre a investigação. Não houve encerramento da crise.
Houve divergência.
Houve acusações.
Houve bate-boca.
E houve uma Corte transmitindo ao país a imagem de profundo conflito interno.
Flávio Dino chegou a afirmar que o clima no plenário havia chegado a um ponto em que não havia condições de deliberar, enquanto criticava a condução dos processos.
É justamente aí que aparece o componente político.
A campanha de Flávio Bolsonaro vem tentando transformar Alexandre de Moraes em um dos principais símbolos de sua narrativa eleitoral. O senador passou a associar publicamente Lula e Moraes e a explorar politicamente o desgaste provocado pelas sucessivas crises envolvendo o Supremo.
Agora, o próprio funcionamento da Corte passou a fornecer combustível para esse discurso.
É o chamado efeito rebote.
Não significa afirmar que o STF esteja trabalhando para favorecer qualquer candidato. Tampouco que a crise tenha sido criada com esse objetivo. São interpretações políticas atribuídas à campanha e a seus aliados.
Mas existe um fato objetivo: quanto mais o Supremo permanece no centro do debate político, mais difícil se torna separar a imagem da Corte da disputa eleitoral.
E isso já aparece nas pesquisas.
A Quaest divulgada em 14 de setembro mostrou Flávio Bolsonaro com 42% e Lula com 40% em uma simulação de segundo turno. A diferença, porém, está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, portanto o cenário é de empate técnico. O levantamento ouviu 2.004 eleitores entre 10 e 13 de setembro e foi registrado sob o protocolo BR-03607/2026.
No primeiro turno, o mesmo levantamento registrou Lula com 36% e Flávio com 31%.
Ou seja: a pesquisa registra um cenário eleitoral; não prova que a crise do STF tenha causado a movimentação. Mas mostra por que o episódio ganhou tanta importância para as campanhas.
E aqui está o ponto central.
Se, em 2022, Gilmar Mendes afirmou que o enfrentamento da Lava Jato pelo STF ajudou a explicar a presença de Lula no Palácio do Planalto, hoje é possível observar um fenômeno politicamente inverso: o desgaste provocado pelas próprias divisões do Supremo passou a ser incorporado ao discurso eleitoral de um dos principais candidatos da oposição.
O feitiço, para usar uma expressão popular, pode estar produzindo um efeito inesperado.
Não porque exista uma decisão do Supremo em favor de Flávio Bolsonaro.
Mas porque a crise do Supremo virou assunto de campanha.
E isso é particularmente relevante quando a própria Corte precisa julgar questões que envolvem seus integrantes.
No caso atual, o relatório da Polícia Federal mencionado no processo reúne informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro e aponta supostos contatos com Alexandre de Moraes. Isso não equivale, por si só, à comprovação de crime ou irregularidade por parte do ministro. A existência de uma apuração e de material sob análise judicial não pode ser confundida com condenação.
Da mesma forma, as acusações e questionamentos envolvendo André Mendonça também precisam ser tratados dentro do devido processo.
É exatamente essa fronteira que torna a crise tão delicada.
Quando ministros do Supremo passam a discutir publicamente a condução de processos que envolvem outros ministros, a questão deixa de ser apenas jurídica e passa a ser também institucional.
E quando essa crise acontece em plena campanha presidencial, inevitavelmente ela ganha dimensão política.
O episódio desta terça-feira mostrou uma Corte dividida sobre procedimento, competência, relatoria e sobre a própria forma de conduzir os casos.
O julgamento que poderia produzir uma resposta terminou produzindo mais perguntas.
Quem deve conduzir a investigação?
Os casos devem ser julgados juntos ou separados?
Quais são os limites da atuação da Presidência do Supremo?
Até onde pode ir um ministro quando a investigação atinge outro integrante da própria Corte?
E, sobretudo: quem fiscaliza o fiscalizador quando o problema chega ao próprio Supremo?
Essas são perguntas institucionais. Não pertencem exclusivamente à esquerda ou à direita.
E talvez seja justamente esse o aspecto mais preocupante de toda a história.
O Supremo não pode ser transformado em palco permanente da disputa política brasileira.
Mas também não pode esperar que decisões, conflitos internos e procedimentos envolvendo seus próprios ministros não produzam consequências políticas.
A crise está instalada.
Moraes está no centro dela.
Fachin tenta administrar o processo.
Mendonça é parte de outra frente de conflito.
Gilmar e Dino protagonizaram momentos de forte tensão.
E o plenário terminou sem resolver a questão que havia colocado todos aqueles ministros diante das câmeras.
Enquanto isso, a política observa.
Flávio Bolsonaro observa.
Lula observa.
E o eleitor também.
O Supremo pode até não estar disputando a eleição. Mas, quando a crise da Corte ocupa o centro do debate nacional, a eleição passa a disputar espaço dentro da crise do Supremo.
E esse talvez seja o verdadeiro efeito rebote.
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