
Engana-se quem pensa que Alexandre de Moraes está sozinho. Não está. Claro que não. O sistema é bruto, mas ninguém solta a mão de ninguém.
Pode até parecer que um ou outro soltou. Pode até haver discursos diferentes, declarações cuidadosamente calculadas e gestos destinados a convencer a opinião pública de que cada um está seguindo seu próprio caminho.
Ledo engano.
O sistema funciona como um polvo. Não possui apenas braços e mãos. Possui tentáculos. E tentáculos têm ventosas. Daquelas que grudam.
E grudam porque, neste caso, há muita gente comprometida, enrolada ou simplesmente interessada em evitar que a crise avance para um território imprevisível.
Alexandre de Moraes não é um marinheiro de primeira viagem. Sabe jogar o jogo institucional. Sabe reagir sob pressão. E, se estiver diante de uma ameaça real à sua posição, é razoável imaginar que não ficará parado esperando o golpe.
Se cair, pode cair atirando.
E é justamente essa possibilidade que torna a sessão desta terça-feira tão delicada.
Publicamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou um discurso de cautela. Diz que o caso envolvendo Moraes e Daniel Vorcaro é sério, que precisa ser esclarecido e que os sigilos devem ser abertos. É o discurso para a plateia. É a linguagem de quem sabe que o país está olhando e que uma eleição está em curso.
Mas, nos bastidores, segundo informações atribuídas a fontes do STF e do Palácio do Planalto, o movimento teria sido outro.
A coluna de Claudio Humberto, no Diário do Poder, que serve de base para esta análise afirma que Lula teria recorrido ao ministro Cristiano Zanin para transmitir a Moraes uma mensagem de apoio. A versão publicada é de que o presidente teria procurado explicar que suas declarações públicas cobrando investigação decorreriam do ambiente eleitoral.
Se isso realmente aconteceu, a mensagem política é evidente: uma coisa é o discurso público; outra é o jogo de bastidores.
E Zanin, que foi advogado de Lula antes de chegar ao Supremo por indicação do próprio presidente, passou a assumir uma postura mais incisiva nas críticas a André Mendonça, segundo a publicação.
Coincidência?
Pode ser.
Mas é exatamente esse tipo de movimento que alimenta a desconfiança sobre a independência dos atores envolvidos.
A questão central, entretanto, não é saber quem é amigo de quem. É muito mais grave.
É saber se ministros do Supremo conseguem colocar suas relações pessoais, políticas e institucionais abaixo do interesse maior da Corte.
Porque os elementos que vieram à tona são suficientemente graves para exigir esclarecimentos: mensagens entre Moraes e Vorcaro, encontros, relações pessoais, contratos milionários envolvendo escritórios de advocacia e outras circunstâncias que passaram a fazer parte do debate público.
Nada disso, isoladamente, autoriza condenação.
Suspeita não é prova. Relação pessoal não é crime. Contrato não é, por si só, corrupção.
Mas também não se pode exigir da sociedade que simplesmente vire o rosto e finja que não viu.
E aqui está o problema do polvo.
Quando os tentáculos estão espalhados por todos os lados, fica difícil saber onde termina uma relação institucional e começa uma relação de interesse. Onde termina a solidariedade entre colegas e começa a proteção corporativa. Onde termina a defesa do devido processo e começa a tentativa de impedir que determinadas perguntas sejam feitas.
A sessão desta terça-feira poderá esclarecer muita coisa.
Ou poderá não esclarecer praticamente nada.
Pode haver avanço, recuo, pedido de vista, delimitação do objeto, discussão processual ou simplesmente uma solução que mantenha o problema respirando nos bastidores.
No frigir dos ovos, porém, a grande expectativa da sociedade é objetiva: o STF permitirá que os fatos sejam efetivamente investigados, independentemente de quem esteja no centro deles?
É essa a pergunta que não pode ser empurrada para debaixo do tapete.
Porque, se a Corte investigar apenas quando o investigado estiver do outro lado do balcão, haverá um problema institucional.
Se investigar todos com o mesmo rigor, haverá Justiça.
E se ninguém solta a mão de ninguém?
Então que pelo menos a sociedade descubra por que as mãos estão tão firmemente entrelaçadas.
O Brasil está de olho.
Hoje, às 10 horas, os tambores começam a rufar.
Que comece a sessão. E que, desta vez, o Supremo consiga mostrar que nenhuma mão é maior que a Constituição.
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