
Há uma percepção cada vez mais disseminada entre os piauienses de que a gestão de Rafael Fonteles é marcada por uma mediocridade de tamanho considerável. Na avaliação de seus críticos, pouco ou quase nada foi feito até aqui para produzir aquele salto capaz de impulsionar o crescimento do Estado. Quando muito, dizem, o Governo teria criado obstáculos ao desenvolvimento.
É uma crítica dura. Mas há números e episódios que alimentam esse debate.
Na política fiscal, o Governo apostou em uma carga tributária pesada. O Piauí passou a conviver com uma alíquota modal de ICMS de 22,5%, uma das mais altas do país, atrás apenas do Maranhão entre os Estados, segundo os parâmetros considerados nessa comparação.
Sim. O piauiense paga caro para consumir.
E aqui cabe a ironia: graças ao “gênio da matemática”, como dizem os críticos do governador, a conta chegou salgada para quem compra, vende, produz e empreende.
Mas as promessas não ficaram restritas à matemática dos impostos.
No litoral, o piauiense ficou, literalmente, a ver navios. Navios que não conseguiram operar como se esperava no Porto de Luís Correia por limitações de infraestrutura e calado. E aquela operação anunciada com expectativa de levar um primeiro carregamento de 100 mil toneladas de minério para a China acabou não se concretizando como planejado.
Morreu na praia.
E o hidrogênio verde?
Amarelou.
A promessa grandiosa não saiu do papel na proporção anunciada. O projeto perdeu força, a empresa envolvida encerrou suas atividades no Estado e deixou para trás mais uma promessa que, até aqui, não se transformou na realidade que foi vendida ao público.
E não adianta procurar o porto para mandar o projeto embora.
Porque o problema é justamente esse: o porto, até aqui, não se mostrou capaz de cumprir o papel estratégico que dele se esperava.
Enquanto isso, Rafael Fonteles surfou — e surfou bonito — nas ondas do rádio, da televisão e da publicidade institucional.
As entregas, porém, ficaram pelo caminho.
Ou melhor: algumas chegaram. Mas chegaram primeiro à propaganda.
É aí que mora o problema.
A comunicação oficial pode até vitaminizar uma gestão. Pode ocupar rádio, televisão, internet, outdoor e redes sociais. Pode produzir vídeos bem editados, imagens bonitas, discursos redondos e anúncios de grandes realizações.
Só não consegue colocar água numa torneira seca.
E mentira, como diz o velho ditado, tem perna curta.
Em tempos de internet e redes sociais, a mídia tradicional perdeu parte considerável da capacidade de convencer sozinha. O eleitor está com o celular na mão. A comunicação verdadeira está no bolso, na rua, no grupo de WhatsApp, no vídeo gravado pelo morador, na torneira que abre ou não abre.
É ali que a propaganda oficial encontra seu maior adversário: a realidade.
Mas engana-se quem imagina que o porto, o hidrogênio verde e outras promessas não cumpridas, por si só, sejam capazes de tirar Rafael Fonteles da disputa pela reeleição.
Não são.
Para boa parte do eleitorado, essas questões parecem distantes demais para alterar o voto.
O que pode mexer de verdade com a cabeça — e com o voto — do eleitor é outra coisa.
Não é gasoso.
É líquido.
É água.
A água que não chega à torneira.
Porque, convenhamos: como pode um governador que é matemático não conseguir fazer essa conta?
Se não tem água na torneira, o cidadão não toma banho. Não cozinha. Não bebe. Não lava roupa. Não limpa a casa. Não toca a vida.
E sem água, a vida emperra.
Essa conta não fecha.
E talvez seja justamente aí que esteja o maior problema político do Governo Rafael Fonteles.
A situação é séria na capital. Mas, no interior, em muitos municípios, o drama parece ainda mais agudo.
Nesta semana, manifestações foram registradas em diferentes cidades. Municípios que, segundo relatos de moradores, não enfrentavam historicamente problemas dessa dimensão passaram a conviver com torneiras secas.
E o povo voltou, em pleno século XXI, aos tempos da lata d’água na cabeça.
Pode uma lástima dessas?
Para o Governo Rafael, pode.
Claro que pode.
Porque, se não pudesse, alguma coisa já teria sido feita para impedir que a situação chegasse a esse ponto.
E por que chegou?
A resposta, na avaliação dos críticos, passa pela concessão dos serviços da Agespisa à Águas do Piauí. A empresa assumiu a operação e, desde então, cresceram as reclamações de consumidores sobre problemas de abastecimento em diferentes regiões.
É preciso, evidentemente, separar reclamação de prova e cobrança política de responsabilidade jurídica. Mas também é impossível ignorar o tamanho do clamor popular.
O povo reclama.
E reclama alto.
Em Piripiri, a passagem da carreata do governador foi atravessada por protestos. Faixas e cartazes foram erguidos. Um grupo de mulheres foi às ruas cobrar aquilo que parece simples demais para ser considerado luxo:
água.
“Água é vida!”, gritou uma manifestante.
“Cadê a água, governador?”, bradou outra.
É difícil ser mais direto.
Segundo relatos de moradores, há comunidades enfrentando períodos prolongados sem abastecimento regular. Em Piripiri, as reclamações alcançam bairros como Morro da Saudade, Petecas, Germano, Fonte dos Matos, Anajás, Paciência, Floresta, Vista Alegre, Caixa d’Água, Matadouro, Prado, Santa Maria, Ytacoatiara, Recreio, São João, Estação, Crioli, Morro da Ana, Flor dos Campos, Russinha, Garibaldi, Barcelona, Conceição, Pedreiras e Esperança Garcia, entre outros.
É muita gente.
É muita torneira.
É muita reclamação.
E o problema não parece ficar restrito a Piripiri.
O governador esteve nesta segunda-feira em Santa Cruz dos Milagres, um dos principais destinos de peregrinação religiosa do Nordeste. Nesta época, a cidade recebe romeiros e peregrinos de diversas regiões.
Pois até ali a água virou problema.
Mesmo com o Rio São Nicolau cortando o município, moradores relatam dificuldades no abastecimento e a necessidade de recorrer a carros-pipa.
É de lascar!
Uma cidade cercada por água e gente sem água na torneira.
Também houve manifestação.
E fica a pergunta: o governador ouviu?
Ou fez de conta que não ouviu?
Em Gilbués, há relatos de períodos superiores a 15 dias sem abastecimento. Em Picos, moradores também enfrentam problemas. Mesmo com o Rio Guaribas passando ao lado. E até no litoral, onde o turismo deveria ser uma das grandes vitrines econômicas do Piauí, a falta d’água começa a tirar o sono de moradores e empresários.
Em Barra Grande, em Cajueiro da Praia, um dos cartões-postais do Piauí e destino conhecido internacionalmente, há relatos de casas, pousadas e empreendimentos recorrendo a carros-pipa para garantir o abastecimento.
Ora, pois!
Se até o paraíso turístico precisa de carro-pipa, alguma coisa está fora do lugar. É como se diz: "algo de errado não está certo".
É por isso que ouso dizer: o maior adversário de Rafael Fonteles na eleição de 2026 pode não ser Joel Rodrigues. Pode ser a torneira.
A oposição incomoda?
Claro que incomoda.
Joel Rodrigues cresceu?
É evidente que cresceu e se consolidou como um dos nomes mais competitivos da oposição.
Mas talvez esteja acontecendo algo ainda mais interessante.
Quem pode estar tirando votos do PT e, involuntariamente, entregando esses votos ao principal candidato de oposição não é apenas Joel.
É a Águas do Piauí.
E, de quebra, a percepção de inoperância do Governo diante do problema.
Porque o eleitor pode até esquecer o porto.
Pode esquecer o hidrogênio verde.
Pode esquecer uma promessa feita num palanque.
Mas esquecer que passou dias, semanas ou meses abrindo a torneira e não encontrou água?
Aí é outra conversa. Aí são outros quinhentos.
A água não tem ideologia.
Não vota no PT, no Progressistas ou em qualquer outro partido.
Mas a falta dela pode fazer o eleitor mudar de ideia.
E talvez seja justamente essa a equação que Rafael Fonteles ainda não percebeu.
O governador pode ter uma montanha de propaganda, uma máquina de comunicação azeitada e um discurso bonito.
Mas se o cidadão abrir a torneira e ouvir apenas aquele silêncio seco...
a propaganda perde para a realidade. E a conta no fim do mês, não deixa o piauiense esquecer da falta d'água.
E aí, meu caro, não tem marketing que dê jeito.
E olha que eu nem falei dos hidrômetros instalados nos poços artesianos.
Nem da chamada “taxa do sol”.
Esses são assuntos para os próximos capítulos.
Porque, no Piauí, quando a água começa a faltar, o caldo pode entornar.
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