Domingo, 13 de Setembro de 2026
25°

Parcialmente nublado

Teresina, PI

Cultura HABEAS CORPUS

Pedro Lessa: o jurista que ajudou a construir os alicerces do Judiciário brasileiro

De professor e advogado a ministro do Supremo Tribunal Federal, Pedro Lessa foi um dos grandes nomes do Direito brasileiro na passagem do Império para a República. Primeiro homem negro a integrar o STF, deixou uma obra que ultrapassou seu tempo, especialmente na defesa da autonomia do Poder Judiciário, na interpretação constitucional e na ampliação do habeas corpus como instrumento de proteção das liberdades.

13/09/2026 às 02h43
Por: Douglas Ferreira
Compartilhe:
Pedro Lessa - Foto: Reprodução/Imagem editada por IA
Pedro Lessa - Foto: Reprodução/Imagem editada por IA

Pedro Augusto Carneiro Lessa nasceu em 25 de setembro de 1859, no Serro, em Minas Gerais, e morreu no Rio de Janeiro, em 25 de julho de 1921. Jurista, professor, advogado, magistrado e político, construiu uma trajetória marcada pelo estudo, pelo magistério e pela atuação pública. Formado pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1883, tornou-se professor da própria instituição, exerceu funções na administração da Justiça paulista, foi chefe de polícia, deputado constituinte estadual e, em 1907, chegou ao Supremo Tribunal Federal. Sua vida intelectual também o levou à Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira 11.

A carreira acadêmica de Pedro Lessa começou a ganhar destaque ainda no século XIX. Em 1887, obteve o primeiro lugar em concurso para a Faculdade de Direito de São Paulo, embora não tenha sido nomeado naquele momento. No ano seguinte, submeteu-se novamente a concurso e voltou a alcançar a primeira colocação, sendo então nomeado professor. Mais tarde, consolidaria uma reputação de grande autoridade intelectual, unindo o rigor do jurista à vocação do professor.

Sua passagem pela vida pública também foi significativa. Em 1885, foi nomeado secretário da Relação de São Paulo. Em 1891, exerceu a chefia da polícia paulista e participou da Assembleia Constituinte de São Paulo. Depois, afastou-se da atividade política para dedicar-se ao magistério e à advocacia. Essa experiência diversificada ajudou a formar um jurista que conhecia não apenas a teoria do Direito, mas também o funcionamento concreto das instituições públicas.

Em 1907, veio a nomeação que marcaria definitivamente sua trajetória. Pedro Lessa chegou ao Supremo Tribunal Federal para ocupar a vaga aberta com a aposentadoria de Lúcio de Mendonça. No Tribunal, rapidamente se projetou pelo conhecimento jurídico, pela independência e pela firmeza de suas posições. O próprio STF o registra como um brasileiro notável pelo saber e pelo caráter, enquanto a Academia Brasileira de Letras o descreve como um modelo de juiz, destacando seu profundo conhecimento, a coragem de suas atitudes e sua determinação.

Sua presença no Supremo tem ainda um significado histórico que não pode ser ignorado. Pedro Lessa é reconhecido como o primeiro homem negro a ocupar uma cadeira de ministro do STF, décadas antes da chegada de Joaquim Barbosa à Corte. Sua ascensão ocorreu em uma sociedade marcada por profundas desigualdades raciais e em um ambiente institucional no qual a presença de negros em posições de elite intelectual e jurídica era extremamente restrita. Seu percurso, portanto, representa também uma ruptura histórica no acesso aos espaços de maior prestígio do Estado brasileiro.

Mas reduzir Pedro Lessa ao pioneirismo racial seria diminuir a dimensão de sua obra. Seu grande mérito está na contribuição intelectual que ofereceu ao Direito brasileiro. Lessa dedicou-se ao Direito Constitucional, à Filosofia do Direito, à teoria do Poder Judiciário e a diversos outros campos da ciência jurídica. Entre suas obras estão Estudos de Filosofia do Direito, Dissertações e Polêmicas, Discursos e Conferências e, sobretudo, Do Poder Judiciário, publicado em 1915 e considerado um clássico sobre a matéria.

Em Do Poder Judiciário, Pedro Lessa enfrentou uma questão que permanece atual: o lugar do Judiciário na estrutura constitucional do Estado. Sua reflexão contribuiu para o desenvolvimento do pensamento constitucional brasileiro em uma República ainda jovem, ajudando a consolidar a compreensão do Judiciário como instituição essencial à preservação da ordem constitucional. Estudos posteriores continuam examinando sua influência na autonomia e no fortalecimento do Poder Judiciário brasileiro.

Outro capítulo fundamental de seu legado está no habeas corpus. Como ministro do STF, Pedro Lessa participou da construção de uma interpretação mais ampla desse instrumento, utilizando-o para proteger direitos que não estavam expressamente contemplados pela Constituição de 1891. Essa chamada teoria brasileira do habeas corpus ampliou a utilização do instituto e constitui um dos capítulos mais importantes da história das garantias individuais no Brasil. O próprio acervo histórico do STF destaca essa contribuição.

É importante, contudo, compreender esse legado dentro de seu contexto histórico. O mandado de segurança, tal como hoje conhecido no Direito brasileiro, somente seria constitucionalizado posteriormente, na Constituição de 1934. O que Pedro Lessa fez foi participar de uma construção jurisprudencial e doutrinária que ampliou a proteção judicial dos direitos por meio do habeas corpus. Sua contribuição está, portanto, menos na criação formal de um instituto que ainda não existia e mais na abertura de um caminho para o desenvolvimento posterior das garantias constitucionais.

Na Filosofia do Direito, Lessa também deixou uma contribuição expressiva. Em Estudos de Filosofia do Direito, publicado em 1912, procurou aproximar a reflexão jurídica do conhecimento científico e dos fatos sociais e históricos. Sua orientação positivista não significava, na leitura posterior de Miguel Reale, uma ruptura absoluta entre Direito e realidade social. Ao contrário, havia em seu pensamento uma preocupação em compreender o fenômeno jurídico dentro da experiência concreta da sociedade. A própria Academia Brasileira de Letras destacou a importância que Lessa atribuía à Filosofia do Direito para a compreensão profunda da Justiça e da atividade dos juristas.

Pedro Lessa também não limitou sua atuação ao Direito. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 7 de maio de 1910, sucedendo justamente Lúcio de Mendonça, e tomou posse em setembro daquele ano, recebido por Clóvis Beviláqua. Participou ainda do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Liga da Defesa Nacional, da qual foi um dos fundadores. O registro histórico do STF ressalta, inclusive, seu envolvimento com a Liga e seu patriotismo e civismo.

Como era visto por seus pares? As referências institucionais deixadas pelo STF e pela Academia Brasileira de Letras revelam uma imagem de jurista de grande autoridade intelectual, caráter firme e independência. Seu nome permaneceu associado à coragem de suas posições e à profundidade de seu conhecimento. O fato de sua produção continuar sendo objeto de estudos acadêmicos e de sua obra Do Poder Judiciário permanecer catalogada e republicada pelo próprio Supremo demonstra que sua influência não terminou com sua morte.

O grande legado de Pedro Lessa talvez possa ser resumido em uma palavra: independência. Independência intelectual para pensar o Direito; independência judicial para interpretar a Constituição; coragem para utilizar os instrumentos jurídicos na proteção de direitos; e dedicação ao magistério para formar novas gerações de juristas. Primeiro ministro negro do STF, professor respeitado, acadêmico e autor de obras fundamentais, Lessa ajudou a construir uma concepção de Judiciário que ainda ecoa no Brasil contemporâneo. Cem anos depois de sua morte, sua obra permanece como testemunho de que grandes instituições não são construídas apenas por leis, mas também por homens dispostos a estudá-las, interpretá-las e defendê-las. Pedro Lessa foi, por isso, muito mais que um pioneiro: foi um dos construtores intelectuais do Direito brasileiro.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
A NOTÍCIA E O FATO
A NOTÍCIA E O FATO
Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
Teresina, PI Atualizado às 03h01 - Fonte: ClimaTempo
25°
Parcialmente nublado

Mín. 23° Máx. 39°

Seg 40°C 23°C
Ter 41°C 20°C
Qua 41°C 20°C
Qui 42°C 20°C
Sex 41°C 20°C
Horóscopo
Áries
Touro
Gêmeos
Câncer
Leão
Virgem
Libra
Escorpião
Sagitário
Capricórnio
Aquário
Peixes