
O comício de Lula, realizado na noite desta quarta-feira, na Arena Carhoo, em Teresina, não reuniu mil pessoas, muito menos um milhão de apoiadores, como algumas publicações nas redes sociais sugeriram. Também seria exagero classificá-lo como um fracasso. A realidade, ao menos pelas imagens disponíveis, está em algum lugar entre os dois extremos.
O evento foi maior do que provavelmente esperava parte da oposição, mas ficou aquém das expectativas que cercavam a visita presidencial e da dimensão que o Palácio de Karnak pretendia imprimir ao encontro. Uma coisa, porém, parece evidente: o evento de Lula no Piauí não flopou.
E isso tem significado político. O Piauí continua sendo um dos principais redutos eleitorais do lulismo no Brasil. A presença de uma militância expressiva em Teresina demonstra que Lula ainda dispõe de uma base política relevante no Estado, especialmente quando sua estrutura partidária e aliados locais conseguem mobilizar caravanas e apoiadores do interior.
Mas também é preciso colocar as coisas em seus devidos lugares. A Arena Carahoo não ficou completamente lotada. As imagens mostram uma concentração significativa de pessoas nas proximidades do palco, mas também revelam espaços vazios. Portanto, transformar o encontro em um “megaevento” seria tão equivocado quanto classificá-lo como um fiasco.
A organização mobilizou recursos para levar público ao local, oferecendo estrutura de transporte e alimentação aos participantes. Isso faz parte da lógica tradicional de mobilização política em grandes eventos. O ponto central, entretanto, é outro: o tamanho da multidão não pode ser inflado artificialmente por narrativas de redes sociais. São as imagens e os números que devem prevalecer.
E talvez a pergunta mais importante não esteja sequer dentro da Arena Carhoo.
Está fora dela.
Como está o lulismo nos outros 223 municípios piauienses, além da capital? Qual é hoje a percepção da população sobre Lula e sobre o governador Rafael Fonteles? A força demonstrada em Teresina se repete no interior?
É aí que começa o verdadeiro teste político.
Lula tem entregas capazes de sustentar sua popularidade no Piauí? Rafael Fonteles conseguiu cumprir as principais promessas apresentadas durante a campanha? E o que dizer de temas estratégicos para o desenvolvimento do Estado, como o Porto Piauí, o projeto de hidrogênio verde, a integração hídrica e a transposição do rio Parnaíba?
Também entram nessa conta questões mais próximas do cotidiano da população: saúde pública, regulação de consultas e procedimentos, qualidade das escolas, infraestrutura e, principalmente, o avanço das organizações criminosas e da sensação de insegurança.
São esses assuntos, muito mais do que o tamanho de um comício, que poderão determinar o comportamento do eleitor na próxima eleição.
A visita de Lula também foi acompanhada por uma sequência de problemas em Teresina, entre eles incêndios de grandes proporções, interrupções no fornecimento de energia, fechamento do Shopping Riverside, falta d’água e transtornos no trânsito.
É importante fazer uma distinção: não há, por si só, qualquer evidência de que esses episódios tenham relação com a visita presidencial. Incêndios, interrupções de serviços e problemas urbanos precisam ser investigados individualmente pelas autoridades responsáveis.
Mas política também é feita de percepção.
Em uma sociedade na qual crenças religiosas, superstições e o imaginário popular convivem com a política, acontecimentos coincidentes podem ganhar interpretações simbólicas. Nas redes sociais, já surgem comentários associando os problemas ocorridos durante a passagem de Lula pela capital a uma suposta “aura negativa” do presidente.
Isso, evidentemente, pertence ao campo da percepção e da superstição, não dos fatos.
O que os fatos mostram é algo mais simples e politicamente mais interessante: Lula ainda tem força no Piauí, mas o tamanho dessa força precisa ser medido para além de um palanque.
A Arena Carhoo mostrou que o lulismo está vivo.
Mas não mostrou que é invencível.
E é justamente nos municípios do interior, nas ruas, nas escolas, nos hospitais, na segurança pública e na avaliação que o cidadão faz da própria vida que estará a resposta para a pergunta que realmente interessa: o Piauí continua sendo território eleitoral de Lula e Rafael Fonteles ou o eleitor começa a sinalizar que quer mudança?
Essa resposta não está nas redes sociais.
Está nas urnas.
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