
As relações comerciais e diplomáticas entre Brasília e Washington continuam tensas, mas uma luz começa a aparecer no fim do túnel. A conversa desta segunda-feira entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump produziu um sinal positivo: o presidente americano orientou sua equipe a trabalhar pela construção de um acordo com o Brasil. O governo brasileiro saiu otimista. A pergunta, porém, é inevitável: Lula e sua chancelaria estão otimistas demais?
É preciso lembrar que Trump tem um estilo próprio de fazer política e negócios. É pragmático, imprevisível e não costuma dar ponto sem nó. O entusiasmo brasileiro, portanto, precisa ser acompanhado de cautela. Afinal, não faz tanto tempo que Lula saiu da Casa Branca sorrindo, depois de uma conversa aparentemente amistosa, e poucos dias depois veio o tarifaço de 25%. A cordialidade do momento não significa necessariamente que a negociação esteja ganha.
Agora, há uma oportunidade concreta de reabrir o diálogo. Representantes dos dois governos retomaram as negociações e Washington sinalizou disposição para buscar um entendimento. O Brasil quer um acordo abrangente que permita afastar ou reduzir as tarifas que atingem produtos brasileiros. É exatamente o que o setor produtivo espera: menos discurso, mais negociação e resultado.
O problema é que o tarifaço não surgiu apenas de uma decisão pessoal de Trump. Existem interesses econômicos, estratégicos e institucionais dentro dos Estados Unidos pressionando por medidas contra o Brasil. Por isso, Brasília terá de negociar não apenas com Trump, mas com uma estrutura política e econômica muito mais ampla. Não será uma conversa de amigos. Será uma negociação de interesses.
Nesse cenário, o Brasil precisa abandonar qualquer postura de confronto gratuito. Lula, desde que Trump chegou novamente ao poder, acumulou declarações e provocações contra o presidente americano. Já o comparou a nazista durante o processo eleitoral nos Estados Unidos e, depois da eleição, continuou utilizando o discurso de enfrentamento. Diplomacia não combina com provocação permanente, especialmente quando a economia brasileira está pagando a conta.
É hora, portanto, de Lula usar o bom senso. Não significa abrir mão da soberania, dos interesses nacionais ou de princípios. Significa compreender que negociar não é se render. É defender os interesses do país com inteligência, pragmatismo e capacidade de construir pontes, mesmo quando existem divergências profundas.
Outro ponto fundamental será a velocidade. O governo brasileiro precisa demonstrar interesse de fato e de direito, responder rapidamente às propostas, cumprir prazos e apresentar alternativas objetivas. Em negociações comerciais, quem demora pode perder mercado, contratos e oportunidades. Não há espaço para improvisação quando milhares de empresas brasileiras dependem do acesso ao mercado americano.
Também não ajuda transformar a crise comercial em instrumento de disputa política interna. O tarifaço não pode servir para esconder erros do próprio governo, assim como eventuais avanços nas negociações não deveriam ser utilizados apenas como propaganda eleitoral. O que está em jogo é maior do que Lula, Trump ou qualquer partido. Está em jogo o emprego, a produção e a renda de milhões de brasileiros.
A sinalização dada por Trump nesta segunda-feira é, portanto, positiva. Mas ainda é apenas uma sinalização. O caminho até um acordo pode ser longo, difícil e cheio de obstáculos. O otimismo do governo brasileiro será testado quando começarem as negociações sobre números, produtos, exceções, prazos e contrapartidas.
Até lá, prudência. Trump abriu a porta, mas não entregou a chave. Cabe ao governo brasileiro entrar na sala de negociação preparado, sem provocações, sem ilusões e sem perder tempo.
No fim das contas, a torcida é uma só: que Brasília e Washington retomem efetivamente o diálogo e encontrem uma saída para o tarifaço de 37,5%, ou pelo menos consigam reduzi-lo de maneira significativa. O setor produtivo agradece. O trabalhador brasileiro agradece. E o Brasil, certamente, agradece ainda mais.
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