
O cinismo e desfaçatez venceu mais uma vez. Os programas eleitorais no Brasil têm se transformado, ao longo do tempo, em um verdadeiro show de horrores.
Nos palanques físicos ou eletrônicos, candidatos não economizam palavras. Exageram feitos, transformam promessas em certezas e, muitas vezes, recorrem a versões convenientes para justificar aquilo que fizeram, ou aquilo que deixaram de fazer.
Mas há um espetáculo ainda mais revelador: as entrevistas dos presidenciáveis nas grandes emissoras de televisão.
Alguns candidatos saem do estúdio precisando de uma boa dose de óleo de peroba. Outros conseguem sobreviver à sabatina. E há aqueles que parecem dispostos a transformar cada pergunta em uma oportunidade para reescrever a própria realidade.
A entrevista do presidente Lula ao Jornal Nacional, exibida na noite desta quinta-feira, entra, na avaliação deste articulista, nessa última categoria.
É claro que o programa já viveu momentos pitorescos. Figuras exóticas passaram pela bancada e situações inusitadas já entraram para o folclore das entrevistas eleitorais. Mas a participação de Lula chamou atenção pelo que considero um verdadeiro festival de versões, negativas e afirmações que rapidamente passaram a ser confrontadas nas redes sociais.
Houve declarações sobre economia, indicadores sociais e questões políticas. Mas um dos pontos que mais repercutiram foi a negativa do presidente sobre conhecer uma lobista citada em investigações e suspeitas relacionadas a negócios de interesse de grupos que circulavam na estrutura do governo.
E, como diz o velho ditado, mentira tem perna curta.
Ou, na era digital, existe uma entidade ainda mais poderosa: Nossa Senhora do Printe.
Não demorou para que imagens, vídeos, registros e publicações antigas começassem a circular nas redes sociais, confrontando declarações feitas durante a entrevista. A internet, com todos os seus excessos e distorções, também preserva uma memória incômoda para quem tenta apagar o que disse, fez ou viveu.
Os entrevistadores fizeram perguntas duras em alguns momentos. Lula foi colocado em situações desconfortáveis e precisou lidar com temas que certamente preferiria evitar.
Mas foi justamente aí que surgiu, na minha avaliação, o maior problema da entrevista.
Faltou contraponto.
Uma coisa é ouvir a resposta de um presidente da República. Outra, completamente diferente, é permitir que essa resposta encerre o assunto, mesmo quando existem informações públicas capazes de confrontá-la.
Jornalismo não é apenas perguntar. Jornalismo também é contestar, comparar versões, apresentar fatos e cobrar explicações.
Quando uma autoridade responde algo que entra em conflito com informações já conhecidas, o papel do entrevistador não deveria ser simplesmente seguir para a próxima pergunta.
É preciso insistir.
É preciso perguntar de novo.
É preciso apresentar o outro lado dos fatos.
Durante a entrevista, Renata Vasconcellos também foi alvo de uma resposta dura do presidente. E chamou atenção o silêncio que se seguiu.
Em outros tempos, a reação poderia ter sido diferente.
Por que a apresentadora não respondeu? Por que não demonstrou indignação diante de uma tentativa de desqualificação? E onde estavam aqueles que costumam levantar a bandeira da defesa das mulheres sempre que uma jornalista é atacada ou diminuída publicamente?
A pergunta é inevitável: mexeu com uma, mexeu com todas? Ou depende de quem mexeu?
E César Tralli, seu colega de bancada, também permaneceu distante da situação.
Talvez seja exatamente esse o retrato mais preocupante de uma parte do jornalismo brasileiro contemporâneo.
O medo de confrontar o poder.
O receio de parecer duro demais.
A preocupação em não desagradar.
A falsa ideia de que neutralidade significa assistir passivamente a uma declaração controversa sem apresentar qualquer contraponto.
Não significa.
Neutralidade não é submissão.
Imparcialidade não é silêncio.
E jornalismo não pode ser apenas um microfone estendido para que autoridades, sejam elas de direita, de esquerda ou de qualquer outra corrente política, contem a versão que lhes interessa.
O presidente tem o direito de responder.
O jornalista tem o dever de perguntar.
E, quando necessário, tem também o dever de contestar com fatos.
No final das contas, talvez o maior problema não esteja apenas nas declarações de Lula. Presidentes mentem, candidatos exageram, políticos omitem e governos constroem suas próprias narrativas. Isso, infelizmente, não é novidade.
O verdadeiro problema começa quando ninguém parece disposto a confrontar essas narrativas.
E, quando o jornalismo abre mão de questionar o poder, alguém sempre ocupa esse espaço. As redes sociais ocupam. Os militantes ocupam. Os influenciadores ocupam. A desinformação ocupa.
A entrevista terminou.
O debate continuou.
E, mais uma vez, ficou a sensação de que, entre versões, conveniências, silêncios e perguntas sem a devida insistência, o velho espetáculo da política brasileira encontrou um novo palco.
O show de horrores venceu mais uma vez.
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