
A estratégia de pressionar o entorno de Jair Bolsonaro e, agora, atingir diretamente a produção do filme Dark Horse pode estar produzindo um efeito inesperado para seus autores. Em vez de provocar o desgaste eleitoral imaginado, a operação da Polícia Federal começa a ser interpretada por setores da oposição como mais um episódio capaz de fortalecer a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.
É uma avaliação política, não uma conclusão sobre a investigação. A Polícia Federal apura suspeitas relacionadas ao possível uso irregular de recursos públicos na produção do filme e cumpriu 49 mandados de busca e apreensão. Flávio Bolsonaro não foi alvo da operação e nega qualquer utilização de dinheiro público na obra.
O fato politicamente relevante, entretanto, está nas pesquisas.
Levantamentos recentes mostram Flávio Bolsonaro crescendo em diferentes cenários e reduzindo a distância para Lula. Na pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada nesta quinta-feira, o senador passou de 34% para 37,4% no primeiro turno, enquanto Lula permaneceu com 43%. A diferença caiu de nove para 5,6 pontos percentuais.
No segundo turno, a mudança foi ainda mais significativa: Flávio passou de 42,6% para 46,4%, enquanto Lula oscilou de 47,1% para 46,2%. O resultado configura empate técnico dentro da margem de erro.
Na Quaest, divulgada anteriormente, Lula e Flávio apareceram empatados numericamente, com 41% cada em um eventual segundo turno.
É nesse ambiente que surgiu, entre aliados de Flávio, uma definição curiosa para o momento político do candidato: “candidato fermento”.
A lógica é simples. Quanto mais batem, mais ele cresce.
A expressão resume a percepção de parte da oposição de que a sucessão de ataques políticos, investigações e episódios envolvendo o bolsonarismo pode estar produzindo um efeito contrário ao pretendido. O eleitor, nessa leitura, começaria a interpretar determinadas ações como excessivamente direcionadas contra uma candidatura específica.
Mas há uma ressalva fundamental: pesquisa eleitoral mede intenção de voto, não prova causalidade. Não é possível afirmar, apenas a partir dos números, que o crescimento de Flávio seja consequência direta da operação envolvendo Dark Horse.
O que se pode afirmar é que a operação não impediu, até aqui, a ascensão do candidato nas pesquisas.
E isso acendeu o sinal amarelo na campanha petista.
Lula intensificou sua presença no Nordeste, região considerada estratégica para sua candidatura. Nesta semana, esteve em Teresina, no Piauí, Estado que lhe proporcionou uma das maiores votações proporcionais do país em 2022.
A passagem pela capital piauiense, entretanto, teve forte caráter político e eleitoral. O presidente subiu ao palanque, reuniu sua militância e reafirmou a importância do Estado para o projeto petista.
O evento não foi um fracasso. Longe disso.
Mas também não correspondeu à dimensão de um megaevento que parte da militância e das redes sociais tentou apresentar. As imagens mostram uma concentração expressiva de apoiadores, mas também espaços vazios na Arena Carnaúba.
A diferença entre Lula e Flávio, neste momento, está justamente no tipo de mobilização que cada campanha consegue produzir. Enquanto Lula depende de uma estrutura política tradicional, com forte participação de aliados e máquinas partidárias, Flávio vem apresentando, em diferentes agendas, concentrações que seus apoiadores classificam como mais espontâneas.
Essa diferença ainda precisa ser medida eleitoralmente. Multidão em evento político não é sinônimo automático de voto. Mas, em uma campanha presidencial, imagens de mobilização têm peso simbólico e podem influenciar a percepção de força de cada candidato.
Enquanto isso, Dark Horse continua sendo uma preocupação para o entorno de Flávio Bolsonaro.
A Polícia Federal investiga diferentes frentes relacionadas ao financiamento do filme. Entre elas estão repasses atribuídos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, recursos de emendas parlamentares destinados a entidades ligadas a pessoas envolvidas na produção e a possibilidade de utilização irregular desses recursos.
Flávio afirma que sua relação com Vorcaro se limitou à busca de financiamento para o filme e nega qualquer contrapartida ou utilização de dinheiro público.
A investigação, portanto, ainda precisa produzir respostas. Não cabe transformar suspeitas em condenações antecipadas, assim como não cabe transformar uma operação policial em prova de perseguição política sem elementos que sustentem essa conclusão.
Mas existe uma dimensão eleitoral que não pode ser ignorada.
Se a população passar a enxergar a operação como uma ação legítima de combate a possíveis irregularidades, Flávio poderá sofrer desgaste.
Se, ao contrário, uma parcela significativa do eleitorado interpretar a investigação como uma ofensiva política contra sua candidatura, poderá ocorrer justamente o chamado efeito rebote.
E os números recentes indicam que esse segundo cenário não pode ser simplesmente descartado.
O PT percebeu o movimento e Lula voltou a intensificar a agenda no Nordeste.
A disputa, portanto, começa a ganhar contornos mais apertados.
De um lado, um presidente que busca preservar a vantagem construída ao longo da pré-campanha e recuperar espaço onde sua candidatura começa a ser pressionada.
Do outro, um candidato que, até pouco tempo atrás, aparecia atrás e agora já encosta, empata em alguns levantamentos e aparece à frente em determinados cenários.
O fenômeno merece atenção.
Porque, se a lógica do “candidato fermento” estiver realmente funcionando, a questão para os adversários de Flávio Bolsonaro deixa de ser apenas como atacá-lo.
Passa a ser outra, muito mais complicada:
como enfrentá-lo sem transformá-lo, a cada novo ataque, em um candidato ainda maior?
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