
Existe o amigo. Existe o parceiro. E existe o amigo-parceiro.
Assim muitos enxergam a relação entre o presidente Lula da Silva e o ministro Alexandre de Moraes. Uma dobradinha que, na visão de seus críticos, ganhou tamanho protagonismo que parece atravessar os limites tradicionais entre governo, Justiça e política.
A relação é pública. Não há como esconder. Lula e Moraes já trocaram homenagens, gestos de proximidade e demonstrações de confiança. E, diante dos episódios recentes envolvendo o ministro e o Banco Master, a pergunta inevitável é: por que Lula não se distancia de Moraes?
A resposta, para os críticos do governo, passa pela história recente.
Foram decisões de Moraes no Tribunal Superior Eleitoral e no Supremo Tribunal Federal que atingiram diretamente Jair Bolsonaro e aliados durante e depois da eleição de 2022. Seus defensores sustentam que essas medidas foram tomadas dentro das competências institucionais para proteger o processo eleitoral e as instituições democráticas. Seus críticos, por outro lado, questionam a extensão desses poderes e apontam decisões que consideram excessivas.
É justamente nesse terreno que a relação entre Lula e Moraes se torna politicamente sensível.
É aquela velha expressão: “unha e cutícula”. Ou, no popular, “cocó e trança”.
É assim mesmo. Desse modelo.
E a proximidade não se limita aos dois.
A mais recente demonstração de articulação política atribuída a Moraes envolve a relação entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Em meio às tensões entre Executivo e Legislativo, houve aproximação entre os dois. O episódio foi interpretado por aliados do governo como uma retomada do diálogo institucional.
A questão é que, agora, Moraes está no centro de uma crise que envolve acusações e questionamentos relacionados ao Banco Master e ao empresário Daniel Vorcaro. E justamente neste momento surgem relatos de que setores próximos ao Planalto aconselhariam Lula a estabelecer distância do ministro.
Mas Lula não parece disposto a fazer isso.
Lula não é conhecido por manter intactas todas as antigas alianças políticas. Ao longo de sua trajetória, muitos aliados ficaram pelo caminho.
Mas Moraes é diferente.
A relação entre os dois ganhou peso justamente durante um dos períodos mais turbulentos da política brasileira. Moraes tornou-se um dos principais protagonistas das decisões que atingiram Bolsonaro, desde medidas eleitorais até a declaração de inelegibilidade e, posteriormente, os processos criminais relacionados aos atos de 8 de janeiro.
Isso alimenta uma interpretação política recorrente: Moraes teria sido peça importante na mudança do ambiente político que terminou favorecendo Lula em 2022.
Mas é preciso separar interpretação de fato. Não é possível afirmar que Lula tenha sido eleito por causa das decisões de Moraes. O que se pode afirmar é que o ministro tomou decisões relevantes contra Bolsonaro e outros investigados durante aquele período, algumas delas posteriormente submetidas ao colegiado do TSE ou do STF.
A questão que se coloca em 2026 é ainda mais delicada.
Até onde Lula consegue manter a proximidade com Moraes sem ser arrastado para a crise que envolve o ministro?
E até onde Moraes consegue continuar exercendo seu protagonismo sem ampliar o desgaste político em torno do Supremo?
A oposição e críticos do governo enxergam uma relação de dependência política. Aliados de Lula rejeitam essa interpretação e sustentam que as relações entre Executivo, Legislativo e Judiciário fazem parte da dinâmica institucional brasileira.
Mas uma coisa é impossível ignorar: Lula não largou a mão de Moraes.
E talvez não possa largar.
Não depois de tudo o que aconteceu.
Não depois de tantas decisões do ministro que atingiram diretamente o principal adversário político do presidente.
Não depois da proximidade construída entre os dois.
E é justamente por isso que a crise atual deixa uma pergunta incômoda no ar:
Será que Moraes está apenas enfrentando uma crise própria — ou sua crise já começa a respingar diretamente no governo Lula?
Até a estátua “embatonzada” da Praça dos Três Poderes parece saber: há mãos que, depois de tanto tempo entrelaçadas, já não conseguem simplesmente se separar.
A CRISE NO STF Quando o circo pega fogo no Supremo, quem ganha espaço na política?
LATA D'ÁGUA NA CABEÇ O maior adversário de Rafael não é Joel. É a falta d’água
REALAÇÕES PERIGOSAS “Tenho gratidão da minha vida a você”: o que há de tão grave na relação entre Moraes e Vorcaro?
Mín. 24° Máx. 39°