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Brasil - A engrenagem da escassez: como o poder se alimenta da miséria

A indústria da miséria: como a dependência estatal se tornou projeto de poder

12/07/2026 às 08h20 Atualizada em 12/07/2026 às 09h45
Por: Arthur Feitosa
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Imagem gerada por inteligência artificial
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O colapso da União Soviética, em 1991, expôs as entranhas de uma das maiores ilusões sociais da história. Por mais de setenta anos, milhões de cidadãos sob o manto soviético viveram sob a promessa de uma igualdade absoluta de classes. No entanto, demorou décadas para que a base da pirâmide compreendesse que a utopia vendida pela propaganda oficial só existia no papel. No topo da cadeia de comando, a nomenklatura, a elite burocrática do Partido Comunista desfrutava de banquetes, datchas luxuosas e privilégios dignos dos maiores magnatas do capitalismo ocidental. A igualdade prometida era, na verdade, a socialização da escassez para a maioria, enquanto o luxo permanecia estritamente concentrado nas mãos dos condutores do Estado.

Essa velha cartilha de cooptação da consciência e perpetuação do poder através da vulnerabilidade social não ficou enterrada no século XX. Ela foi repaginada e continua sendo aplicada com rigor metodológico na América Latina, encontrando no Brasil contemporâneo o seu cenário mais alarmante.

O empobrecimento de uma nação, frequentemente interpretado como um "erro de percurso" ou mera "incompetência", revela-se, sob uma ótica mais realista, como um método de engenharia política. Para determinados projetos de poder, a erradicação da pobreza é um péssimo negócio; a sua manutenção e expansão são o que garantem um curral eleitoral cativo e dependente. Os dados recentes do Cadastro Único (CadÚnico) ilustram essa engrenagem com a crueza dos números, impulsionados tanto pelo agravamento da vulnerabilidade quanto pelo registro dessa massa de invisíveis: o contingente oficial saltou de 198,7 mil pessoas em dezembro de 2022 para 392,4 mil, um crescimento devastador de 97,4%.

Essa engenharia, contudo, não se sustenta apenas com a burocracia estatal; ela exige uma simbiose com o grande capital. No topo dessa pirâmide, enquanto o discurso oficial ataca a elite produtiva, opera-se um pacto de conveniência que cala as grandes instituições financeiras. Os banqueiros, blindados por juros historicamente escorchantes e spreads abusivos, registram lucros jamais imaginados. É o ápice do cinismo político: amordaça-se a pobreza por meio de auxílios governamentais de subsistência, aniquilando resquícios de cidadania e autonomia, enquanto se compra o silêncio e o apoio do topo do sistema financeiro com a garantia de ganhos astronômicos, extraídos indiretamente do próprio endividamento da população e do Estado. É o triunfo do capitalismo de compadrio.

Esse modelo de aprisionamento econômico segue a mesma receita que destruiu vizinhos latino-americanos. Na Venezuela, o chavismo transformou uma das nações mais ricas do continente em uma fábrica de refugiados. Lá, o controle social foi absoluto: o acesso aos alimentos e aos direitos mais básicos foi condicionado à submissão ideológica, pulverizando a classe média e dividindo o país entre uma cúpula militar-burocrática bilionária e uma maioria forçada a migrar para sobreviver.

Mais ao sul, a Argentina passou décadas aprisionada nessa mesma estrutura corporativista. O peronismo hipertrofiou o Estado e multiplicou os subsídios até que a inflação galopante destruísse o poder de compra real do trabalhador, tornando a dependência estatal a única alternativa de curto prazo. Hoje, os argentinos travam uma batalha dolorosa e complexa para desmantelar essa pirâmide clientelista, tentando restaurar a liberdade de mercado e a dignidade do trabalho após anos de anestesia populista.

Transformado em refém de auxílios governamentais que mal garantem a sobrevivência, o cidadão vulnerável é capturado por uma armadilha psicológica e econômica. O benefício, que deveria ser uma ponte temporária para a dignidade e o emprego, passa a ser uma coleira invisível. Sob a ameaça constante de que "a oposição vai cortar os seus direitos", o voto deixa de ser uma escolha ideológica ou programática e passa a ser um ato de pura sobrevivência biológica.

O ciclo se fecha com uma precisão incontestável: no asfalto e nas periferias, o aprisionamento na escassez; nos palácios e nos hotéis de luxo pelo mundo, a alta cúpula política e seus aliados financeiros desfrutam do mais requintado padrão de vida capitalista. No teatro político da miséria, o script nunca muda: prega-se a igualdade e a justiça social para os súditos do sistema, enquanto os novos oligarcas garantem a perpetuidade de seus tronos sobre os escombros da autonomia popular.

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Sobre Arthur Feitosa - Executivo e articulista político do portal Gazeta Hora1
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